“O primeiro voo do eVTOL da Eve não é só um marco de engenharia, é também um sinal de que o Brasil quer disputar protagonismo na próxima fronteira da mobilidade urbana sustentável”.
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A declaração é do professor Marcelo A. L. Alves (foto abaixo), docente no Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP (Universidade de São Paulo) e coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Poli-USP.
Em artigo publicado na Gazeta Mercantil Digital, em 26 de dezembro, o autor ressalta a importância do projeto do ‘carro voador’ desenvolvido pela Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, que fez seu primeiro voo experimental no último dia 19 de dezembro.
“Trata-se de um evento verdadeiramente histórico aconteceu em Gavião Peixoto, interior de São Paulo, onde a Embraer tem um centro de teste e produção de aeronaves: o primeiro voo do protótipo em escala real do eVTOL da Eve Air Mobility, empresa derivada da Embraer”, diz o professor.
O teste consistiu em um voo não tripulado e restrito ao pairar, mas simboliza o início de uma campanha de ensaios que pode redefinir a mobilidade urbana no Brasil e no mundo.
O termo eVTOL designa aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical, semelhantes a helicópteros, mas movidas por propulsão elétrica e sistemas avançados de automação. Projetados para trajetos curtos — entre 20 e 100 quilômetros — os eVTOLs oferecem vantagens claras: menor emissão de gases de efeito estufa durante a operação, redução de ruído e operação em áreas densamente urbanas sem necessidade de pistas longas, além de menor complexidade mecânica (sempre comparando com os helicópteros convencionais).
A empresa EVE foi criada em 2017 dentro da EmbraerX e separada em 2020 para focar exclusivamente na mobilidade aérea urbana, tornou-se pública em 2022 na Bolsa de Nova York, após fusão com a Zanite Acquisition Corp. Suas ações são negociadas sob o ticker EVEX, atraindo capital internacional para acelerar o desenvolvimento.
“É importante ressaltar que a própria Embraer saiu do seu procedimento padrão de desenvolvimento de aeronaves. A empresa Eve, ainda que aproveite a experiência da Embraer, opera de maneira mais inovadora, até pelo tipo de projeto que desenvolve”, afirma Alves.
Em agosto de 2025, a empresa anunciou seu primeiro contrato firme de venda de eVTOLs, estimado em US$ 250 milhões, consolidando sua estratégia comercial. No mesmo período, lançou BDRs na B3, captando cerca de US$ 230 milhões com participação da BNDESPAR, permitindo que investidores brasileiros participem diretamente do projeto.
“Quem já enfrentou o trânsito de São Paulo na Marginal Tietê, no horário de pico, sabe que é quase impossível chegar ao Aeroporto de Guarulhos sem perder a paciência. Mais de uma de carro viram rotina. Agora, pensar que um voo de poucos minutos, com preço acessível, já está no horizonte próximo, quando se considera o uso de um eVTOL. Já no Rio de Janeiro, o percurso entre o aeroporto Santos-Dumont e Barra da Tijuca, que em horários de pico chega a 80 minutos de carro, poderia ser feito em cerca de 10 minutos, considerando velocidade de cruzeiro de 200 km/h e distância aproximada de 29 km. É quase inacreditável o ganho de tempo, ainda mais com a promessa de ser bem mais acessível que os voos com helicóptero. Quem já ficou preso no tráfego, com medo de perder um voo, agradece ter ao menos a opção de não passar por esta situação e fazer melhor uso do tempo”, diz o especialista.
Segundo ele, além da conveniência e do ganho de produtividade, trata-se de sustentabilidade. A propulsão elétrica contribui para metas globais de redução de emissões, e o Brasil, ao avançar nessa frente, reforça sua posição como líder em inovação aeronáutica. Segundo estudo divulgado pela própria Eve em junho de 2025, o mercado global de eVTOLs pode gerar US$ 280 bilhões em receita nas próximas duas décadas, com demanda estimada em 30 mil aeronaves.
“O mercado de eVTOLs é competitivo e inovador. Empresas como a norte-americana Joby Aviation, que em 2025 realizou voos simultâneos de duas aeronaves na Califórnia, e a alemã Volocopter, que já testa operações em cidades europeias, estão entre os líderes globais. Ainda assim, a Eve se destaca como atividade pioneira no Brasil e uma das poucas iniciativas fora do eixo EUA-Europa. Com o respaldo da Embraer e a capacidade de atrair investimentos internacionais, a empresa coloca o país no mapa de uma indústria que promete transformar a mobilidade urbana mundial”, destaca o docente.
O produto da Eve ainda passará por etapas até que o uso do eVTOL seja algo da realidade diária. A nova aeronave ainda precisará ser certificada por autoridades como a Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) e suas congêneres do exterior como FAA (EUA) para que possam ser usadas comercialmente. Como é um novo tipo de aeronave, o processo de certificação e normalização também é novo e desafiador, seja para a indústria como para os entes reguladores.
Também é preciso levar em conta a necessidade de criação de infraestrutura de vertiportos e que a aceitação pública deste novo tipo de transporte seja efetiva.
“Será que as pessoas vão se sentir seguras entrando num eVTOL? Essa é a grande questão. Além disso, o custo operacional precisa ser competitivo para que o eVTOL não se torne apenas um substituto de helicópteros de luxo, mas uma alternativa viável para um público mais amplo, assim justificando a operação comercial deste tipo de aeronave”, diz Alves.
“O voo inaugural da Eve deveria ter recebido mais atenção. É fundamental que crianças e jovens conheçam o projeto, entendam como funciona o equipamento e se interessem por engenharia e profissões ligadas à indústria. A inovação não é apenas tecnológica: é também cultural e educacional. O Brasil precisa formar talentos que possam sustentar e expandir esse tipo de avanço. Nossas crianças e jovens precisam sonhar em criar máquinas como o eVTOL, como Santos-Dumont e Ozires Silva sonhavam com balões e aviões quando eram meninos. O país precisa ter novos Santos-Dumont e Ozires Silva”, acrescenta o professor da USP.
E completa: “O primeiro voo do eVTOL da Eve não é apenas um teste técnico. É um símbolo de que o Brasil pode liderar a próxima fronteira da mobilidade urbana sustentável. Em um mercado global competitivo, com concorrentes como Joby e Volocopter, a Eve surge como pioneira nacional e protagonista internacional. Ainda há muito o que desenvolver, mas o mais difícil já aconteceu: o eVTOL saiu do chão”.