05 de março de 2026
ANDRÉ KONDO

Escritor do Vale viveu na rua, viajou o mundo e ganhou o 'Jabuti'

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 40 min
OVALE
André Kondo no “Que História!”, quadro de OVALE Cast, podcast de OVALE

Quando ouviu seu nome na premiação do Jabuti, o mais importante prêmio literário do Brasil, o escritor André Kondo, de Taubaté, chorou e se lembrou de toda a epopeia que viveu até consagrar-se como um autor premiado.

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Ele chegou a morar na rua, viajou por 50 países, abandonou um mestrado na Austrália, brigou com o pai e morou de favor na casa da irmã para conseguir tornar-se escritor, um sonho de infância que o pai rejeitava.

Quis o destino que o pai de André fosse o tema do livro “O Silêncio de Kazuki”, com o qual ele venceu o Prêmio Jabuti de 2025, na categoria Juvenil.

“A gente tem um sonho, aquilo que o meu pai falou, você tem que pegar e suportar o peso desses teus sonhos nas tuas costas, carregar ele até você chegar ao objetivo final, que é a realização desse sonho”, disse André no “Que História!”, quadro de OVALE Cast, podcast de OVALE.

Numa conversa franca e emocionante, André conta como se tornou um escritor e todos os sacrifícios que fez ao longo dessa jornada, que envolvem até a vontade de desistir da vida. Superando tudo, ele se tornou um dos autores mais premiados do país, com mais de 400 prêmios por obras e textos.

Leia a íntegra da entrevista com o escritor André Kondo.

Você venceu o Prêmio Jabuti com um livro que fala do seu pai e da sua relação com ele. Qual é a importância do seu pai e da história da sua família para sua literatura?

A minha família é essencial em tudo. Eu sempre falo que o que eu escrevo não é fruto apenas do meu talento ou de qualquer outra coisa. Tudo que eu escrevo faz parte do que eu recebi de ensinamento da minha família, dos meus amigos, de todas as situações de vida. Por parte da minha mãe, que foi sempre minha melhor apoiadora, e por parte do meu pai, que foi um antagonista, digamos assim, uma pessoa que não queria que eu fosse escritor. O livro fala mais ou menos sobre isso, sobre a vida dele. E ser finalista [vencedor] do Jabuti chega a ser até poético.

O título do livro, “O Silêncio de Kazuki”, é porque seu pai é uma pessoa muito séria, disciplinada e muito silenciosa?

Exatamente. Esse livro só nasceu porque eu sempre tive vontade de contar a história do meu pai. Porque é uma história que é uma trajetória muito interessante. Ele nasceu na Manchúria, numa situação de guerra, quase morreu ao nascer. Foi até a ilha de Hokkaido, uma ilha coberta por gelo, na região onde ele morava. Depois veio como imigrante aqui [para o Brasil]. Passou um tempo na rua e teve uma série de situações que me parecem interessantes para um livro. Então, eu fiz um projeto para o ProAC (Programa de Ação Cultural) do governo de São Paulo, para falar sobre a vida dele.

Fui selecionado, assinamos um contrato e eu falei para o meu pai: “Pai, olha, temos um contrato para escrever um livro. Eu vou dividir o valor dessa bolsa de criação, mas o senhor vai ter que contar a história”. E aí foi tudo OK. E chegamos no primeiro dia para que ele contasse a história, falei: “Ó pai, então agora o seguinte, o senhor já recebeu, agora eu preciso saber da sua história. Pode começar, pode falar como o senhor quiser”.

E aí ele sentou, olhou para mim e falou: “Olha, o que passou, passou”. Aí eu olhei e falei: “Tá”. Aí eu fiquei esperando mais alguma coisa e ele ficou em silêncio. Silêncio total. Falei: “Não, pai, só isso?”. O que passou, passou. Aí ele não contou, ele não me ajudou a escrever esse livro. O tempo foi passando e eu tinha um prazo para fazer, para entregar esse livro.

Então, eu recorri às minhas próprias memórias, minha irmã, minha tia, e comecei a compor retratos do que seria o meu pai. É uma história nem sempre fácil, porque a gente teve uma relação muito conflituosa com ele, tanto eu quanto a minha irmã.

Durante um tratamento que ele teve que passar, um tratamento de câncer, a gente fez esse tratamento no Hospital Regional do Litoral Norte. Agradeço todo mundo lá, por ter cuidado do meu pai. E durante esse tratamento eu consegui me reaproximar dele, porque eu o estava acompanhando em todo o tratamento, então eu conversava com ele, ele soltava uma coisa ou outra e eu fui compondo esses recortes da vida dele, aliados também à memória afetiva minha e da minha irmã, e todo mundo que conheceu, e fui compondo o livro. Foi mais ou menos assim que nasceu o Silêncio de Kazuki.

O seu pai tem uma coisa curiosa. Ele é japonês e morou na China?

Isso. O meu avô, infelizmente ele era soldado japonês. O Japão invadiu a China e tomou conta ali da Manchúria, que era basicamente uma colônia do Japão na China, na região da Manchúria. Minha avó trabalhava como auxiliar de enfermagem, então eles se conheceram lá e acabaram concebendo meu pai lá na China.

Então, ele nasceu numa situação de guerra, quase morreu por imperícia também na hora do nascimento. Tanto que ele sofreu um corte profundo na perna, então por isso que até hoje ele manca. Uma perna ficou mais curta do que a outra. E então ele nasceu por conta dessa situação.

Depois o Japão é derrotado, eles retornam para o Japão, mas ao retornar ao Japão, não existia mais nada para eles na região onde eles moravam anteriormente. A situação ali os levou à ilha de Hokkaido, que foi o único local que poderia tentar uma vida nova. Chegaram lá em Hokkaido, foi uma terra de gelo onde a neve alcançava quase a sua altura. E de lá também muitas coisas aconteceram, deu errado e aí eles vieram para o Brasil. Foi mais ou menos essa a trajetória dele.

Todo escritor tem conexão com a sua própria vida, mas você tem uma conexão muito especial. Então vamos voltar ao início. Você nasceu aonde? Você mora hoje em Taubaté, mas conte onde você nasceu. Como é que você veio aqui para o Vale Paraíba?

Bem, eu nasci em Santo André. Por isso que meu nome é André. Meus pais não sabiam falar português direito, daí foi uma opção. Olhou o nome Hospital Santo André, da cidade e disse: "Ah, vamos colocar o nome de André". Ainda bem que não colocaram Santo na frente, mas aí o meu nome se tornou André. Mas desde cedo viemos para Taubaté, porque meu pai trabalhava na Alcan, lá em Santo André, e foi transferido para Pindamonhangaba. Por isso, desde não sei quantos anos exatamente, mas eu era muito pequeno, a gente já veio para Taubaté.

E a conexão com a cidade? Como que você começou a gostar de literatura, a ler, escrever? Como é que isso entrou na sua vida?

Bem, Taubaté tem uma coisa assim muito forte com Monteiro Lobato. Para mim também não foi diferente. Foi um dos livros de Monteiro Lobato, um livro até sem capa, descartado, no lixo. Eu olhei aquilo, peguei, li e me apaixonei pelas histórias na época, Os 12 trabalhos de Hércules, e aquilo me fez querer ser escritor.

Você tinha que idade?

Ah, eu não me lembro, mas eu estava já em idade, talvez uns 8 anos, era muito novo. Mas lembro de que já sabia que ler. Eu tive dificuldade na primeira leitura. Porque era muito pequeno ainda e o livro ainda era um pouquinho avançado. Eu ia pescando as palavras, tentando entender, olhava as figuras e de qualquer forma, mesmo não entendendo totalmente o livro, a aquilo me encantou, era um novo mundo para mim. Então eu falei: "Eu quero ser isso, quero ser escritor". Aí então sim, Taubaté é onde tudo começou mesmo para mim.

Mas aí até virar escritor foi uma baita de uma trajetória. Vamos contar como é que foi. Havia resistência na sua casa que você fosse escritor? Seu pai já tinha traçado um caminho para você? Como foi essa história?

Foi uma história um pouco complicada, como falo nas minhas palestras, porque é uma coisa que fala muito sobre pais e filhos. Meu pai, como todo pai, queria que o filho fosse alguém na vida, fosse alguém importante. E meu pai era motorista de diretoria. E de vez em quando, ele tinha que buscar um documento lá em Pinda e eu ia no carro, no banco de trás, deitado.

E certa vez meu pai falou uma coisa que eu nunca esqueci. Ele olhou para mim no banco de trás e falou assim: "Olha, quando você crescer, eu quero que você seja um homem no banco de trás". Para uma criança, eu nem entendi o que era o homem do banco de trás. Era um chefe, era o chefe dele. E aquilo ficou muito forte em toda minha infância, adolescência, mesmo eu tendo o sonho de ser escritor, meu pai queria que eu fosse chefe.

Então, ele queria que me formasse em administração de empresas, que entrasse em uma multinacional e tudo mais. Eu tentei. Me formei em administração de empresas, entrei numa multinacional e, quando eu fui pegar minha primeira promoção, aquilo me marcou muito porque era uma situação que ia totalmente contra o que eu acreditava. Porque, por exemplo, para eu ser promovido, todos os meus amigos que trabalhavam comigo iam ser demitidos. E eu ficaria para chefiar a nova equipe, para treiná-los.

Eu pensei: "Poxa, como que eu posso ficar feliz, se todo mundo tá triste? Como que você pode ser feliz sobre a infelicidade dos outros, é impossível". E aquele momento eu falei: "Poxa, não quero isso, mas ao mesmo tempo eu queria que meu pai se orgulhasse de mim". Então, eu menti para ele. Eu falei: "Ó, pai, eu vou fazer um mestrado na Austrália, em marketing, para ter um cargo melhor, um cargo internacional”. E fiz isso.

Você chegou a trabalhar no Japão?

Trabalhei no Japão, mas antes disso eu fui aprender inglês. Tanto na Inglaterra e na Austrália. Trabalhei no Japão um ano e meio. Mas eu fui estudar na Austrália, na Universidade de Sydney, mestrado em marketing. E lá uma coisa assim muito interessante aconteceu. Naquela universidade, eles têm a maior biblioteca universitária do hemisfério sul, andares e andares de livros.

E em um desses andares eu encontrei exatamente o mesmo livro que eu tinha visto quando era criança, no lixo. Estava na prateleira lá na biblioteca, em português, no idioma original. Então, quando eu li aquilo, eu peguei aquele livro, eu me emocionei. E aí eu fiquei me questionando, falei: "Poxa, o que eu vou fazer da vida?" E uma coisa que me marcou muito lá na Austrália, foi exatamente esse questionamento sobre o que eu queria me tornar. E quando eu vi aquele livro, eu me recordei do meu sonho de criança. De querer ser escritor, e fiquei pensando: "Poxa, o que eu vou fazer?" Então, fui em uma viagem no deserto australiano. Numa cidade chamada Alice Springs, existe ali perto o maior monólito do mundo, que é o Uluru.

Ali próximo, eu tive um encontro com um aborígene, que é um dos povos originários mais antigos do mundo. Os aborígenes têm aquela crença que você não pode tirar foto dele, porque aí você rouba a alma dessa pessoa. Mas quando ele me viu ali com a câmera, pendurada no pescoço, ele olhou e falou: "Olha, se quiser, você pode tirar uma foto minha". E eu perguntei para ele: "Mas você não tem medo de perder a sua alma?”. E ele me respondeu: "Não, eu não, eu já não tenho mais alma, eu já vendi minha alma". E aí ele me pediu de dinheiro pela foto. Para comprar bebida alcoólica, porque tinha uma garrafa na mão dele.

Quando eu retorno, para a universidade, eu fiquei pensando: "Poxa, eu tô fazendo exatamente a mesma coisa que aquele aborígene. Eu tô vendendo a minha alma para me tornar uma coisa que eu não quero, para ter um motorista como o meu pai, para me levar para os lugares que eu não quero ir". E aquilo mexeu muito comigo.

Naquele momento, eu decido sair da universidade e buscar histórias pelo mundo para poder me tornar um escritor. E foi aí que eu faço aquela viagem por mais de 50 países, passando pelos lugares mais sagrados do mundo. Então, eu fui até a Índia, às margens do Rio Ganges.

Quer dizer que esse encontro com o aborígene foi transformador para sua vida?

Foi.

Mas antes de fazer essa viagem, você comunicou o seu pai, você chegou a ter uma conversa ou você falou: "Deixa quieto, deixa eu fazer primeiro"?

Na verdade, eu não me comuniquei com ninguém. Eu simplesmente tomei a decisão. Porque era uma coisa, eu estava com 26 anos. É uma idade complicada ali. E então eu não comuniquei ninguém porque foi uma decisão, pela primeira vez que eu falei assim: "Não, eu vou querer fazer o que eu realmente quero". Então, eu esqueci essa parte aí. E fui em busca do meu sonho.

E você traçou então um roteiro por locais sagrados. Essa foi a ideia?

Exatamente, porque eu não queria fazer só uma viagem de turismo, era uma viagem de descobrimento de quem eu realmente era, o sentido da vida, tudo aquilo que a gente se questiona sobre o motivo de fazer isso, de estar vivendo. Então, eu fui para esses lugares em busca dessas respostas. Passo em vários lugares. Faço o caminho de Santiago também, um caminho por.000 km, porque eu continuo até o fim do mundo e tal. Vou até Jerusalém. Enfim, vários lugares de importância sagrada.

Você chegou até a Sibéria?

Sim, eu cruzei a Sibéria na Transiberiana, porque a maior parte do meu deslocamento foi todo por terra. Eu usei de tudo, eu acho: camelo, cavalo, trem, ônibus, carro, tuque-tuque, moto, a pé. Foi mais por via terrestre. Nos lugares que não podia, eu peguei o avião. Como da Europa para a América.

Você disse que foi em busca das respostas. Você achou as respostas para as suas perguntas?

As respostas eu tinha encontrado, só que eu não tinha compreendido. É uma coisa assim, é muito porque depois eu consigo escrever essa história. Porque foi assim. Quando eu chego em casa depois dessa viagem de 50 países, eu não consigo escrever o livro.

Eu pensei que assim que eu fizer essa viagem, eu vou conseguir escrever um livro bom, porque vai ser um livro emocionante, um livro de aventura. E não consigo. Fico dois anos trancado, morando de favor num quartinho na casa da minha irmã, e fico ali tentando escrever essa obra.

Você anotava nas viagens, tinha um diário no computador? Como é que você ia registrando ao longo do caminho?

Não, eu não anotava nada. Porque só as sensações, só as sensações, porque eu queria estar totalmente imerso naquele momento. E aí eu pensava assim: “Se eu não conseguir reproduzir esse momento, quer dizer que ele não foi importante”. Então eu coloquei daquela forma como se fosse assim: tudo que for importante, eu me lembrarei. Então foi dessa forma, por isso que eu não fiz nenhuma anotação.

Mas não consigo escrever o livro e aí acontece uma série de coisas, e uma delas foi justamente o meu pai saber que eu estava morando na casa da minha irmã. Ele vai lá visitar minha irmã, eu estou no quartinho lá tentando escrever o livro, ele bate na porta, eu abro, e ele fala assim: Que era hora de eu voltar a trabalhar.

E aí eu falo: "Não, pai, eu tô trabalhando. Eu quero ser escritor e eu esse vai ser o meu trabalho". E aí ele faz aquela pergunta que acho que todo pai faria. "Ué, mas esse teu trabalho coloca comida no teu prato". E aí eu falo para o meu pai. Veio toda aquela mágoa. Eu culpei meu pai por não conseguir escrever o livro, que eu pensei: "Poxa, ele me obrigou a fazer isso". E a gente acaba colocando a culpa nas outras pessoas. Isso é uma coisa meio que natural do ser humano.

E aí eu culpando ele por tudo, o meu fracasso e tal, e eu falo assim: "Olha, pai, esse trabalho não coloca comida no meu prato, mas a minha irmã que me ama, ao contrário do senhor, que eu pensava que meu pai não me amava, ao contrário do senhor, ela coloca comida no meu prato, porque ela me ama". E aí meu pai diz assim: "Você pensa dessa forma, então você é pior do que o mendigo. Porque o mendigo explora quem não conhece e você explora quem te ama”.

Quando ele fala aquilo, eu sinto tanta raiva, eu brigo, boto tudo para fora, me tranco ainda mais e tento escrever essa obra. E aí acontecem várias outras coisas.

Por que você acha que não conseguiu escrever nesses dois anos? O que você acha que travou?

Eu acho assim, para todo escritor, quando você realmente escreve alguma coisa, você coloca a sua alma no papel. É como você se desnudar, desnudar a sua alma. Então, dá muita vergonha no começo de você chegar a expor os seus sentimentos de uma forma ampla. Mesmo sendo numa história de ficção, as outras pessoas vão ler ali o que você escreveu. Então, é uma situação difícil.

E quando eu percebi que o meu livro não me emocionava, tanto quanto eu fiquei emocionado na estrada, digamos assim, eu pensei: "Isso não é um livro bom, porque não tem sentimento, não tem alma”. E realmente o livro não tinha alma.

Por exemplo, uma coisa da minha primeira versão do livro, eu lembro que eu escrevia sobre os monumentos históricos, sobre as pirâmides, o tamanho das colunas do templo de Luxor ou outras coisas assim. Uma história que me marcou muito foi na Índia, na fronteira entre a Índia e o Nepal. Tem um jardim de Lumbini, onde Sidarta Gautama, que viria a se tornar o Buda, nasceu.

E ali existem vários templos budistas, marcando este local, de importância religiosa. E num desses templos, existia também um pilar do imperador Axoca, falando sobre a expansão do budismo naquela região. Um pilar milenar. E eu escrevi sobre aquele pilar de pedra, na primeira versão.

E depois é que eu me dei conta que eu tinha ali uma história muito melhor para ser contada, que era exatamente de uma mãe que estava ali com uma filha. Ela era tetraplégica e aquela mãe empurrando ali a cadeira de rodas [da filha]. E eu olho para aquela menina, ela olha, dá um meio sorriso. E eu falo para aquela mãe. Eu pergunto para ela: "Olha, nossa, a senhora veio aqui pedir para Buda curar sua filha?" É uma pergunta natural, né? Que eu vi várias pessoas em situação de muleta e tal.

E aquela mãe pegou, espantada, e me olhou com espanto e falou assim: "Mas curar ela do quê? Eu vim aqui para agradecer”. Aquilo é arrepiante. E me arrepia isso aí. E como eu posso ignorar essa história? Por isso que eu falei quando você me fez a pergunta, se eu encontrei a resposta, eu tinha encontrado a resposta. Eu só não tinha ouvido. Porque essa era a resposta, né?

Para você se tornar um escritor, você tem que ter esse mesmo amor da mãe. Talvez o meu texto não seja perfeito aos olhos dos outros, mas para mim eu sei que dei o meu amor na composição daquele texto, eu não vou ver nenhum defeito. Ele vai estar perfeito para o mundo. Então essa era a resposta que eu não tinha enxergado.

E após esse entrevero com seu pai, o que acontece?

Quando isso acontece, eu nem gosto, quer dizer, eu falo, mas teve várias situações e uma delas foi a morte do meu melhor amigo. Eu me senti culpado por ele ter partido. O meu melhor amigo, Felipe, ele sofreu um acidente e eu me senti culpado por não estar lá para ajudá-lo quando ele quis conversar comigo. Então, eu tive essa perda muito forte e há situações na vida da gente em que a gente quer que tudo acabe. A gente se sente fracassado, passado, a gente se sente deprimido, a gente se sente fraco.

Então, depois de dois anos tentando escrever o livro e não conseguindo, depois de ter, na época eu tinha uma noiva que tinha deixado na Austrália, a gente terminou, e mais uma série de situações, meu pai com vergonha de mim, e aí quando eu perco o meu melhor amigo, por uma falha que eu achava que era minha, eu perco todo o chão e acabo querendo acabar com tudo, mas não consigo. Porque no dia do funeral do meu amigo, o pai dele veio falar comigo, ele me chamava de filho também, porque eu passei a infância com ele, com o meu amigo, e ele fala assim, simplesmente, que era para eu escrever um livro para o meu irmão que tinha falecido.

E aquilo me deu uma missão, um sentido de vida ainda, um resto, de algo para me agarrar. Então, mesmo querendo acabar com tudo, eu não podia. Eu lembro muito bem, minha família ficou muito preocupada comigo, porque eu queimei as minhas coisas, eu joguei fora, doei o que eu tinha, me livrei de todas as minhas coisas. E botei uma mochila nas costas e fui para a rua. Nossa, a minha irmã ficou muito desesperada, meu pessoal ficou achando que eu tinha [enlouquecido]. E passo quatro meses numa situação assim, sem destino mesmo, nas ruas. E ali que eu começo a perceber.

E você foi embora? Foi pedindo carona e foi indo, sem destino algum?

Eu lembro que eu tinha algumas milhas [de avião] e eu lembro de ter ido na época quando ainda era um balcão, ainda existia a Varig, isso foi em 2006. E aí eu fui lá naquele balcão, eu falei assim: "Olha, para qual lugar eu posso ir com essas milhas que ainda me restam?" E ela falou assim: "Olha, o lugar mais longe que você pode ter numa passagem nacional, o lugar mais longe é para Boa Vista, em Roraima, o lugar mais longe”.

Eu nem tinha planejado ir para lá, falei assim: "Então, quero essa passagem"? E fui. Eu peguei e fui para Roraima. E fui pegando carona, cruzo a fronteira, vou para a Venezuela, faço algumas coisas, depois retorno, chego até Manaus, onde o meu irmão, que também é meu irmão, que a mulher dele estava grávida, e o nome do filho seria o nome do irmão dele, o Felipe, João Felipe.

E aí ele me chamou para ser padrinho dele. Sabe? Aquilo me emocionou muito. Porque apesar de eu sentir que a família dele nunca me culpou por nada, por aquela situação, eu me culpava. Então, ao ver essa nova chance, foi muito importante para mim. Ele queria me dar uma passagem para eu voltar para casa, eu não queria.

Eu não tinha como sair dali de Manaus, ele me pagou uma passagem até Porto Velho. Eu chego em Porto Velho e de lá vou pegando carona. Pego carona no caminhoneiro e vou para o lugar onde o meu amigo tinha me chamado para ir antes de morrer, que queria conversar comigo. Ele me chamou para ir para a Chapada dos Guimarães. Então, não foi uma coisa que eu escolhi, mas o próprio caminho me levou para exatamente a cidade onde ele queria que eu fosse.

E ali eu tenho várias outras experiências, algumas coisas que parecem que são mensagens do meu amigo e tal. E vou me perdoando ao longo deste caminho e retorno para casa.

Mais aliviado?

Sim, eu retorno já com a chave para escrever meu primeiro livro, cumprindo o que eu tinha prometido para o pai dele, que era escrever um livro para o Felipe, que se chama “Além do Horizonte”.

O que ele fala? O que você colocou aí?

Esse é o livro que eu falo sobre essa viagem, sobre esses quatro meses em situação de rua, que eu conheço várias pessoas que vão me trazendo uma situação bem clara que era simplesmente a seguinte, eu não merecia estar naquela situação de rua. Eu tinha tudo na vida, né?

Eu tinha uma mãe, tenho uma mãe, graças a Deus, tenho amigos, uma boa formação, todas as chances do mundo. E a única coisa que eu não consegui era escrever um livro. Então, que é isso diante, por exemplo, de um pai cego na rua que estava procurando um filho. Eu perguntei para aquele pai: "Mas como é que o senhor vai encontrar seu filho, se o senhor não enxerga?" E ele falou: "Olha, eu não sei". E começou a chorar e falou: "Eu não sei como eu vou encontrar meu filho, a única coisa que eu sei é que eu não posso parar de procurar".

Aí então eu encontro várias histórias dessa forma que me mostraram assim: "Poxa, eu não tenho direito de estar aqui entre eles, porque eu tenho condições, eu tenho amigos, eu tenho tudo e não posso reclamar".

Então depois de passar fome, frio, sede, eu retorno para casa com 40 e poucos quilos, cadavérico mesmo. Minha família não me reconheceu. As costelas aparecendo, descendo a minha roupa, já rasgada, aquela situação, simplesmente um trapo humano. Retorno para casa realmente nessa situação mas com a alma renovada. Porque naquele momento eu entendi o que o meu pai queria dizer.

Porque o que o meu pai queria dizer, simplesmente, naquele momento era: "Você quer ser escritor? Então mereça. Trabalhe, pague pela tua própria comida. Não coloca o peso do teu sonho nas costas das pessoas que te amam, a tua irmã, a tua mãe. Eles não precisam carregar esse peso. Você tem que carregar esse peso para se tornar escritor”. E aí eu consigo escrever o meu primeiro livro. Dedico para o meu melhor amigo Felipe. E foi uma experiência assim que foi uma redenção.

O livro saiu em que ano?

Saiu em 2008, meu primeiro livro.

Qual foi a sensação que você teve quando pegou o livro pela primeira vez? Você chorou? Como foi sua emoção?

A emoção desse livro é assim. Porque esse livro foi pago pelo meu padrasto. Meus pais acabaram se separando, que seria mais uma culpa para minha conta. Digamos assim, mas não cabe aqui falar, mas falo no meu outro livro o que aconteceu. Meus pais acabaram se separando.

Mas o meu padrasto, ele pegou, ao contrário do meu pai, ele me apoiou. Ele chegou e falou: "Eu vi você escrevendo o livro e você apagava e você jogava [fora]”. Ele me via indo lá no quintal queimar as folhas que eu escrevia, imprimia, às vezes no papel, e aí ele queria que eu publicasse esse livro, então foi pago por ele. Então quando eu chego, recebo esse livro, é uma emoção muito forte, né?

E lançar o livro com o nome do meu amigo. Que é esse aqui, tem a foto, eu coloquei a foto dele nesse livro. É como se fosse o começo de um sonho sendo realizado. Mas também teve outros percalços antes disso que não cabe falar. Porque nunca é fácil o começo.

Podemos dizer que nasceu, com esse livro, o André Kondo escritor. E hoje você está chegando aos 20 livros publicados?

Sim, e todos premiados individualmente. Então é uma coisa que às vezes eu nem acredito. Porque tanta gente acreditando na minha literatura. Então eu agradeço a todas essas entidades, a UBE [União Brasileira de escritores] do Rio de Janeiro, a CBL [Câmara Brasileira do Livro], enfim, todas essas entidades que premiaram os meus livros. É um grande incentivo.

Você tem quantos prêmios?

Eu tenho mais de 400 prêmios literários. Muitos deles não são por obras completas, com livros, mas são por textos individuais, inclusive aqui na Univap, no concurso de contos, aqui de São José dos Campos, entre outros.

Normalmente, um escritor traça o roteiro do livro que quer escrever, mesmo que seja alguma coisa que ele tem que vivenciar, mas ele meio que traça o roteiro. Parece-me que você faz o caminho inverso. Você vivencia e parece que o caminho surge para você. É assim mesmo?

Eu escrevo muito para concursos literários, que é um grande incentivo para mim, porque tem um prazo, às vezes tem um tema, então aquilo me força como um exercício de criação. Mas a maioria dos meus livros ele realmente nasce da realidade. Que é alguma inspiração que eu vivenciei. Por exemplo, esse livro aqui se chama “Cem Pequenas Poesias do Dia a Dia”.

Na época, eu morava de favor num asilo. Aliás, essa história é sensacional. Por isso que, às vezes, as pessoas olham para a minha vida e parece que ela é uma ficção. Foi assim: eu ajudo um grupo de tailandeses no aeroporto a encontrar um hotel, a ficar no hotel ali. E sou contratado por esse grupo de tailandeses, vou morar com 50 tailandeses e preciso procurar um lugar.

Você estava aonde?

Em Jundiaí, e aí eu vou procurar e um desses lugares era de propriedade do tataraneto do Barão de Mauá. E quando eu chego ali, a gente mora ali durante alguns meses, e isso ainda vai virar um livro, essa experiência. Quando os tailandeses retornam, eu continuo a morar na propriedade dele, porque ele chega e fala: "Ah, onde é que você vai agora?" Eu falo: "Ah, agora não sei aonde que eu vou". “Se você quiser ficar”. "Mas aqui é muito grande”. Era uma chácara, com piscina e tal. E aí ele falou: "Ah, então eu tenho essas outras propriedades".

E aí ele foi me mostrando alguns lugares e me mostrou uma parte que era desativada. E isso era uma parte que tinha sido construída para abrigar Maradona. Olha que coisa louca. É para a recuperação, depois ele foi para Cuba, mas o projeto inicial ali era para recebê-lo. E aquela parte estava desativada, eram várias suítes debaixo de uma estrutura de asilo mesmo, de casa de repouso, com médicos e tudo. E embaixo estava desativado, com suítes, para quem era mais independente.

Ele me deixa ficar ali. E eu pergunto quando que seria o custo, ele diz que não precisa pagar nada. E falou: "Você pode ficar até quando precisar se mudar para o andar de cima”, que era o asilo mesmo. Uma pessoa muito generosa. É o Fernando. E naquele momento, eu naquele lugar, eu estou morando ali de graça e começo a escrever. E um desses livros que eu escrevi lá, o “Cem Pequenas Poesias do Dia a Dia”.

Porque uma coisa que eu amo, além de escrever, é viajar, como você deve ter percebido. E tinha um edital na Universidade de Fortaleza que daria uma viagem para os Estados Unidos, para o melhor livro de poesia. E eu falei: "Olha, que legal, vou participar". E quando eu olho ali, falo: "Eu vejo o prazo, assim, era para amanhã". Então, eu tinha 24 horas para escrever esse livro. Eu falei: "Poxa, o que eu vou fazer?”.

Eu tenho essa tradição japonesa, falei: "Ah, vou escrever Haicais". Que são tercetos, são três versos, é fácil. Só que Haicais é muito difícil, na verdade. É muito pequeno. É pequeno, mas é difícil. Aí falei: "Ah, vou colocar mais um versinho e pronto, vai ficar, ninguém vai poder falar, uma quadrinha. Ela vai ficar uma quadrinha”. E coloquei uma quadrinha em cada página. Poeminha desse tamanho. Um em cada de 100 páginas. Era aquele jeitinho brasileiro.

Então, são 100 páginas. E incrivelmente ganhou. Incrivelmente ganhou e eu fui para os Estados Unidos. Além do mais, eu escrevi um poema dos lençóis que estavam secando no varal do asilo e mandei para a Universidade Federal de São João del-Rei. Ganhei um prêmio por um poema. Aquele dinheiro eu fui e troquei por 500 dólares exatamente e com essa valor eu viajei, lá nos Estados Unidos, por milhares de quilômetros, porque eu comprei um passe da Greyhound, que é a empresa de ônibus, era 360 dólares, aquele passe para usar durante duas semanas. E durante duas semanas eu cruzei os Estados Unidos, visitando os lugares de importância literária.

Então eu fui na casa onde [Ernest] Hemingway nasceu, onde Herman Melville escreveu Moby Dick, fui na casa do Edgar Allan Poe, cruzei os Estados Unidos, fui até o lugar onde estão as cinzas do Jack London debaixo de uma pedra, sabe? Então eu fiz uma peregrinação literária nos Estados Unidos pagando tudo só com poesia. E aí quando eu retorno, eu consigo uma bolsa do ProAC para escrever esse livro sobre essa experiência.

Então, durante um ano eu vivo com salário de poeta. Então quando as pessoas falam: "Poxa, poesia não vale nada, poesia não". A poesia foi capaz de me levar numa viagem de 10 mil km nos Estados Unidos e, ao retornar, pagar pelas minhas contas durante um ano, que foi esse livro “A Peregrinação das Folhas Caídas”. Esse livro aqui tem algumas folhas que são folhas que peguei durante o caminho, por isso A Peregrinação das Folhas Caídas. Essa aqui, por exemplo, é do [Henry David] Thoreau, na cabana onde ele morou na natureza em Walden. Então, peguei ali. É sempre assim o meu processo criativo, ele vem muito da experiência real. As pessoas às vezes não acreditam, falam: "Poxa, às vezes pensam que isso é um romance". Porque falam: "Você realmente viveu isso?”.

Eu faço questão de, pelo menos, tudo que eu coloco no livro tem que ter aquele fundo de verdade. Lógico, pode ter uma licença poética ou outra, mas, na essência, as pessoas que eu encontrei estão todas aqui. Não são criações, mesmo nesse outro livro que é das minhas viagens, que é no meio do mundo, as minhas viagens que eu contei logo no começo, pelos lugares mais sagrados, todas as pessoas que estão aqui também foram encontros reais, as paisagens, os locais e as situações.

Você também tem uma vertente de infanto-juvenil? Como você foi conquistando esses espaços?

Esse livro aqui da Turma da Mônica é aquela questão, queria ser escritor desde criança. E como eu disse, eu escrevi uma história para o Maurício de Souza numa cartinha, que na época era carta. Escrevi a carta, uma história, que eu queria para a Turma da Mônica. Para ele usar ali com a Turma da Mônica. E aí as pessoas me desencorajaram, os adultos. Eu não mandei a carta.

Anos depois, eu sou chamado pelo pessoal da [Editora] JBC, o Marcelo Del Greco, o Ed, todo mundo ali, para fazer um livro justamente com quem? Com o Maurício de Souza. E eu não acreditei isso. Foi um dos maiores presentes. Porque é uma realização de um sonho de criança. Porque eu acho que toda criança começa a gostar de ler com os gibis.

Então, isso é uma etapa da minha vida que eu olho para esse livro e falo: "Isso realmente, é um sonho realizado". Tenho vários outros. Eu adoro escrever para crianças. Esse aqui também foi finalista do Jabuti na ocasião, “O Pequeno Samurai”, um livro que me salvou em várias situações.

Esse aqui é o meu mais recente, “Nos Passos do Caratê”, Editora do Brasil também. Então, não sei se comentei que nesse final de semana eu fui um dos autores homenageados da Feira Literária de Caraguatatuba. Então eu vi ali todas as crianças trabalhando com os meus livros. E me presenteando e torcendo por mim pelo Jabuti.

Porque tinha desenho ali, que a criança pegou, colocou a minha cara ali e colocou um Jabutizinho aqui no meu ouvido. Eu falei assim, sinceramente, para minha mulher, eu falei assim: "Olha, eu já recebi um jabuti lá”. A criança pegou e deu um jabuti, desenhando para mim. Porque foi uma coisa emocionante ver aquelas crianças.

E foi especial para mim porque foi a minha primeira feira literária. Que eu morava em Caraguatatuba. É muita história assim. Tá aí mais uma coisa que minha mãe me ajudou. Porque foi assim: minha mãe vendia meus livros. Esses meus primeiros livros ela ia na rua e vendia.

Minha mãe foi lá e encontrou um professor, que falou: "Ah, seu filho é escritor, né? Fala para ele vir aqui no Sarau, aqui na praça, para ele declamar um poema na praça lá em Caraguatatuba". Minha mãe veio e falou: "Olha, tem um Sarau. O professor te convidou lá para você declarar um poema”. Eu falei: "Mãe, mas eu não escrevo poema". Eu não escrevia poesia na época, mas para mãe você não pode dizer não. Fui lá, escrevi um poema e fui no meio da praça, maior vergonha. Fui, declamei, o professor gostou do trabalho, me levou para a Secretaria de Educação, e falou: "Olha, vai ter uma feira literária. Você é escritor, né? Você quer participar?" Falei: "É, lógico, né?" E aí eles compraram os meus livros, comprava 300 livros. Então, nossa, nunca tinha vendido tanto assim. Então, isso me ajudou muito no começo. E isso foi em 2012, se não me engano.

E o autor homenageado daquela edição era o Ignácio de Loyola Brandão. E eu era fã, sou fã dele. Fui com esse livro aqui, meu primeiro livro, só tinha ele. Cheguei lá, a professora Cris, chegou e falou: "Olha, você quer conhecer ele?". Lógico que eu quero. Ele estava no teatro e no mesmo teatro onde fizeram apresentações dos meus livros, estavam fazendo algumas apresentações sobre as obras dele e tal.

E aquilo eu cheguei lá tremendo, com o meu livro, falei: "Oh, senhor Ignácio, eu sou muito seu fã, eu gostaria de dar o meu livrinho pro senhor". Aí ele olhou para mim e falou: "Não quero". Meu chão caiu assim, falei: "Nossa, eu queria sumir". Aí ele me explicou uma coisa que eu levo até hoje, para mim. Ele chegou e falou assim: "Olha, você dá qualquer coisinha para alguém que você gosta"? Não. Então, se for um livrinho, eu não quero. Agora, se for um livro, eu quero.

Isso é muito bonito, porque a gente, às vezes, faz as coisas e a gente mesmo se menospreza, se desvaloriza. A gente tem que acreditar no que a gente faz. Se a gente está fazendo de coração, está fazendo o melhor, independentemente de alguém falar, achar seu trabalho ruim, se foi o seu melhor, é algo que vale a pena. Essa é a lição que ele me deu.

E aí anos depois dessa lição, eu tenho vários outros livros publicados e fui o autor nesse final de semana, o autor homenageado da mesma feira literária que havia sido o Ignácio de Loyola Brandão. Inacreditavelmente, agora porque eu nem acredito até agora.

Você por acaso encontrou um autor entregando um livrinho lá, eu sou escritor também, teve ou não?

É engraçado você falar isso, mas realmente eu encontrei, uma pessoa que me entregou o livro emocionado, falando: "Olha, eu não cheguei ainda”. Eu li os poemas e são ótimos, eu gostei muito. E ele fez a mesma coisa e aquilo veio na minha cabeça. Poxa, exatamente a mesma coisa. Eu recebi um livro de um escritor lá, falando sobre essa admiração também e eu fiquei mais emocionado que a própria pessoa que me deu o livro, né?

André, fale agora mais desse último livro, “O Silêncio de Kazuki”, que é o finalista do Prêmio Jabuti [venceu na categoria Juvenil].

Esse livro tem uma história interessante porque foi assim. Ele nasceu, na verdade, com essa capa, era um livro sem ilustrações e aí eu pensei: "Poxa, mas está faltando alguma coisa nisso". E aí a gente fez essa versão logo depois que a gente lançou, uns três ou quatro dias depois, já estava pronto este outro aqui. E eu chamei o meu amigo de infância, o Alessandro Fonseca. Uma pessoa totalmente ‘virado no Jiraiya’, que nem eu. E aí ele topou ilustrar esse livro. Ele é um dos ilustradores de quase todos os meus livros e ficou muito melhor. A obra que tem umas ilustrações dele. A gente trabalhou junto nas ilustrações, viramos a noite, madrugada, fazendo.

Foi essa versão que eu submeti ao júri, para que fosse selecionado [pelo Jabuti]. É o maior prêmio literário brasileiro. É um prêmio que eu queria desde criança. A pessoa olha para mim e fala: até parece, como uma criança vai saber o que é o prêmio Jabuti?

Então, mas o que acontece foi o seguinte. Naquela época, porque o Prêmio Jabuti, quando eu era criança já existia. E aí eu vi em algum lugar, alguma notícia que o autor dos melhores livros ganhava o Jabuti. Na minha cabeça não era um troféu Jabuti, pensava que ganhava o Jabuti, um animalzinho. E eu amo animais desde criança também, eu gosto de animais, eu sempre quis ter um Jabuti. E aí quando eu vi essa notícia e falei: "Não, o melhor autor vai ganhar o Jabuti".

Eu pensando na minha cabeça: "O Jabuti é o bichinho". Ah, daí eu quando era a criança falava assim: "Ah, eu quero, quando eu crescer, eu quero ganhar esse prêmio". Então, realmente, desde criança eu quero ganhar esse prêmio, o Jabuti. Agora eu sei que não é mais o animalzinho, mas eu quero da mesma forma. É um sonho. Se não vier agora, eu vou continuar persistindo nesse sonho, porque eu sou jovem ainda. Graças a Deus.

Até os 100 anos, eu vou tentar ganhar esse prêmio, mas por essa questão de tentar realizar esse outro sonho de criança, porque eu acho que assim, sonhos quando a gente tem, quando a gente é criança e a gente consegue realizar são os melhores, né? Então, esse é um dos sonhos que eu quero realizar, que fala sobre exatamente o sonho de ter me tornado um escritor. Então, se vier com esse livro vai ser ainda mais emocionante. Eu choro muito, né? Na verdade, eu tô me segurando para não chorar. Então, eu tô cortando algumas partes que eu sei que se eu falar aqui, eu vou chorar.

Esse livro faz a conexão com o início?

É a história de um pai que não queria que o filho se tornasse um escritor. E que, no final das contas, acaba se tornando. E tem o livro falando sobre a vida dele, como finalista de um dos maiores prêmios literários do Brasil.

Aliás, tem uma foto maravilhosa de você ao lado do seu pai...

Foi no lançamento do livro. A gente fez um lançamento com arrecadação de fundos para o grupo da pessoa com câncer. E num dos lançamentos eu levei o meu pai, que foi na Irmandade Misericórdia de Taubaté. E eu fiz questão de levá-lo, para ele ver aquele momento, para ele participar daquele momento, porque era a história da vida dele, apesar dele, eu falo meu pai, o senhor não ajudou em nada, mas eu vou colocar até o nome aqui na capa aqui, ó.

Mas enfim, é a história da vida dele, de uma forma ou de outra. E ele ficou muito emocionado também de estar ali. Então ele autografou os livros também, estava ali do meu lado. Aquele momento foi uma coisa assim, é um dos melhores momentos da minha vida. Fiquei muito emocionado e vou parar que vou chorar.

E ele leu o livro, gostou?

Essa é outra coisa fantástica, né? É outra história, porque o meu pai, ele não fala nada sobre os meus livros. É uma pessoa muito silenciosa mesmo, muito monossilábica. E é engraçado que assim, lá fora onde eu vou, em Taubaté, o pessoal conhece ele e lá fora ele é outra pessoa. É uma pessoa que conversava com outros, mas eu acho que dentro de casa, eu não sei, ele era outra pessoa, né? Era fechado.

Era uma pessoa mais séria, mais fechada. Enfim, então até hoje eu não sei se ele gostou do livro ou não.

Você sabe que ele leu?

Eu sei que ele leu. Porque eu espionei. Agora ele está com mais idade, então eu cuido mais dele. Fico mais preocupado. Então tem algumas câmeras na casa dele para ver se ele caiu e tudo mais. Então, eu o vi lendo o livro. Então, com certeza ele leu. E posso dizer assim que eu acho que [ele gostou]. Espero que ele tenha gostado, né?

É a segunda vez que você é indicado ao Jabuti?

Na primeira vez eu sequer fui à cerimônia, porque os finalistas eram o Ziraldo, e ganhou o Luiz Ruffato, que são escritores admiráveis, admiro muito. E aí nem fui à cerimônia, falei assim: "Ah, não, eu não vou, não vou ganhar, né?". E tanto que eu estava certo, eu não ganhei.

Mas agora você vai?

Agora eu vou. Por ser também da minha editora, que é a Telucazu Edições, é um livro que foi publicado, por uma editora independente, uma editora pequena, inclusive leva o nome que meu pai deu, o meu nome é um nome errado, na verdade. Ele foi registrar e saiu Telucazu caso com L e com C, que está errado.

E aí eu resolvi colocar o nome da editora, porque na verdade a intenção do meu pai foi uma intenção boa. Porque era uma homenagem aos meus pais, Teru, de Teruco, e Casu de Kazuki. E só que escreveu de forma errada. Então dei o nome dessa editora, em homenagem a esse nome errado, para mostrar que tudo na vida, mesmo quando ela dá errado, se tem uma intenção boa por trás disso, ou uma intenção do amor, valeu a pena.

E você montou uma editora?

Isso, a editora se chama Telucazu Edições e aí tem recebido vários prêmios, como da Biblioteca Nacional, um dos maiores também. A minha mulher também é autora. A literatura, quer dizer, a literatura é a minha vida, né? Ela é em todos os aspectos. A minha mulher, escritora, meus amigos, tudo é literatura para mim, sabe? Eu dedico a minha vida de coração mesmo, é por isso que eu quero que minha mãe esteja lá [no prêmio], a minha mulher vai estar lá, o Alessandro vai estar lá. Meu primeiro amigo de infância. Todo mundo vai, eu vou levar todo mundo lá para o Rio.

Porque eu falei para a minha mãe. Se eu ganhar, a gente comemora, se eu perder, pelo menos tem o colinho da mamãe.

Na biografia da atriz americana Viola Davis, há uma frase do escritor americano Ray Bradbury (1920-2012). Ele disse o seguinte: "Pule, e você descobrirá como abrir as asas enquanto cai". Parece-me que você pulou lá quando encontrou o aborígene na Austrália e vem aprendendo a usar suas asas desde então. É isso?

Eu tenho muito a agradecer a muita gente mesmo, é impossível citar todo mundo, mas se eu cheguei aonde cheguei, se eu consigo viver de literatura, é graças a essas pessoas, a tantas pessoas que me ajudaram.

Por isso eu queria ganhar esse prêmio [Jabuti], não era só para mim, eu queria ganhar esse prêmio como uma forma de mostrar para todo mundo que valeu a pena ter me ajudado, sabe? Eu queria retribuir e dedicar tudo que eu ganhar com a literatura, eu quero dedicar a essas pessoas. Todos os meus livros são dedicados a pessoas especiais, a pessoas que me ajudaram.

Porque na vida sempre parece quando a gente chega, a pessoa fala: "Olha, essa pessoa atingiu o sucesso. Ela se fez naquele ‘self-made man’, ele chegou sozinho ali no topo”. Ninguém chega no topo sozinho. Nunca. Se a gente conquista tudo que a gente conquista na vida foi graças às outras pessoas que acreditaram na gente, que apoiaram e mesmo aquelas pessoas que não acreditaram, porque daí também incentivaram você a se esforçar mais, para que aquilo se tornasse realidade.

Então, é isso seria a culminância de tudo o que eu vivi para chegar a me tornar um escritor, tudo o que eu abri mão também, porque às vezes a pessoa olha por um sonho e fala: "Poxa, que legal, você realizou o seu sonho". Mas as pessoas não vão olhar para trás para ver tudo o que você teve que fazer para chegar naquele lugar, né?

Por exemplo, eu viajei por 50 países, vamos simplificar assim, se eu não tivesse me sacrificado, por exemplo, dormido na rua, no mármore das igrejas lá em Veneza ou no ônibus ou no banco, para chegar mais longe, para ter um dinheirinho a mais, para chegar mais longe. Eu tive que abrir mão de outras coisas durante a viagem. Então, a gente tem que aprender isso.

A gente tem um sonho, aquilo que o meu pai falou, você tem que pegar e suportar o peso desses teus sonhos nas tuas costas, carregar ele até você chegar no objetivo final, que é a realização desse sonho. Se você não conseguir abrir mão das coisas, para conquistar, então quer dizer que você não mereceu. Então, não é culpa de ninguém, só sua mesmo por não ter aguentado esse peso.