12 de março de 2026
OVALE CAST

Como 'máfia', PCC se infiltra na política e lucra com o tráfico

Por Guilhermo Codazzi e Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 30 min
OVALE
Alexandre Castilho em entrevista no Documento OVALE Cast

O PCC (Primeiro Comando da Capital) é uma multinacional brasileira criada no Vale do Paraíba que hoje visa o lucro bilionário com o tráfico internacional de drogas.

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Mantendo seus comandados sob intensa e violenta gestão, o grupo criminoso aproxima-se do modelo de máfia e investe cada vez mais na obtenção de grandes somas em dinheiro, valores que são lavados por meio de fintechs e investimentos múltiplos, como descobriu-se recentemente na operação Carbono Oculto.

“O PCC hoje é essa diversidade. É o tráfico internacional e as lideranças hoje se encontram escondidas na Bolívia. Algumas lideranças ainda estão aqui no Brasil, mas a maioria se encontra escondida na Bolívia”, disse o promotor de justiça Alexandre Castilho, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), do Ministério Público de São Paulo.

Em participação no Documento OVALE Cast, uma grande reportagem em formato de podcast, Castilho falou sobre como funciona o PCC, suas ramificações internacionais, detalhes das regras internas da facção e as metas do grupo.

OVALE Cast contou com a participação do editor-chefe de OVALE, Guilhermo Codazzi, e do repórter especial Xandu Alves. O episódio está disponível nos canais de OVALE no Youtube Spotify, além das redes sociais e no site do jornal.

Leia a entrevista de Alexandre Castilho na íntegra.

O PCC nasceu no Pavilhão Anexo, na Casa de Custódia de Taubaté, o famoso Piranhão, em 1993. No seu estatuto, o grupo se denominava uma espécie de sindicato dos presos contra a opressão carcerária, no que eles chamavam de fábrica de monstros, como eles se referiam à Casa de Custódia de Taubaté. Passadas três décadas, o PCC se tornou uma espécie de empresa multinacional focada no crime e no lucro. Como é o PCC hoje?

Não é uma pergunta muito fácil de responder, porque de fato a gente vê duas situações de realidade no PCC. O que a gente chama de massa de manobra, que são esses integrantes do PCC, que entram nesse ciclo vicioso prisional e você tem a cúpula, que efetivamente ganha dinheiro com o tráfico internacional. O PCC hoje é essa diversidade. É o tráfico internacional e as lideranças hoje se encontram escondidas na Bolívia. Algumas lideranças ainda estão aqui no Brasil, mas a maioria se encontra escondida na Bolívia.

E você tem os soldados. Essas pessoas que integram o PCC e que foram batizadas no PCC. Elas realizam aqui as suas atividades de tráfico de drogas, outros crimes, mas que são as pessoas que acabam presas com mais facilidade, que entram no sistema prisional com mais facilidade e entram nesse ciclo. Porque não conseguem sair desse ciclo. Então nós temos essas duas realidades de PCC.

Tem a base da pirâmide, que é formada por esse varejo da droga, e você tem também o topo que é voltado ao tráfico internacional, e isso em grandes volumes de dinheiro e de droga?

Sim. Tanto que um tempo atrás, o PCC havia abandonado esse tráfico regional, o que a gente chamava antigamente de biqueiras, e hoje tem outro nome, para se dedicar ao tráfico internacional. E isso causou consequências. Posso exemplificar aqui na região, que foram disputas entre traficantes por ponto de drogas, homicídios, o fato do Comando Vermelho também se interessar pela região. É muito dinâmico. O crime organizado é muito dinâmico. Hoje o PCC já voltou a colocar força aqui no tráfico regional.

Em entrevista a OVALE, o governador Tarcísio de Freitas atacou esse ponto, o fato de facções do Rio de Janeiro tentarem ingressar no território paulista, e a reação de facções paulistas repudiando esse movimento, como um dos fatores decisivos para que a nossa região, já desde 2010, ela se situa como a região com a maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes do Estado de São Paulo. O senhor acredita que realmente há esse movimento de facções cariocas que tentaram ingressar em território paulista, aqui especificamente na RMVale? E esse movimento contrário também tentando impedir esse fluxo?

E essa relação entre PCC e Comando Vermelho também já foi amigável, depois eles romperam. Hoje a situação pelo que a gente entende é de rompimento. Já houve homicídios de fato aqui no Vale do Paraíba relacionados a essa disputa. Há sim presença do Comando Vermelho na região, nessas cidades, no Litoral Norte, pela proximidade ali com as cidades do Rio de Janeiro, como Paraty e Angra, que são locais onde o Comando Vermelho está presente. A gente já havia anotado o Comando Vermelho em Ubatuba, chegaram até Caraguatatuba. Aqui no Vale Histórico tem em Lorena, Bananal também a gente já teve informações. A gente tem essas informações.

A região de Piracicaba tem sofrido um pouco mais com essa situação, porque tem um grupo do Comando Vermelho lá que, de fato, partiu para o embate. Mas acredito que, com a atuação das instituições, da Polícia Militar, a Polícia Civil, o próprio Ministério Público, através do Gaeco, a gente tem se esforçado para que a coisa não saia do controle.

Para resumir, foi uma questão mercadológica? O Comando Vermelho sentiu um vácuo deixado pelo PCC, que estava naquele momento, pelo menos, interessado mais no tráfico em larga escala, o tráfico internacional de drogas, deixou de lado um pouco esse varejo das biqueiras ou lojas. E o Comando Vermelho se interessou por esse mercado?

Crime organizado é sinônimo de lucro. Então, o que o crime organizado fez foi evoluir e atuar de forma profissional. Então, eles aprenderam muito com a criminalidade de colarinho branco, com a criminalidade econômica. Eles aprenderam a ser profissionais.

A gente tinha até uma divisão doutrinária de crime organizado de massa e crime organizado econômico, mas, hoje, cada vez mais, há uma simbiose. Você não consegue fazer essa diferenciação, vide, por exemplo, o que aconteceu nessa recente Operação Carbono Oculto. A gente participou pelo Cira (Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos), nós atuamos nessa força-tarefa pelo Cira.

Há estimativa de quantas integrantes tem o PCC e quais territórios ele atua aqui no Brasil, fora do Brasil e de fato ele atua realmente como uma empresa, um núcleo controlador ou é uma ramificação? Marcola, que está preso, continua sendo uma liderança?

O Marcola continua sendo líder. Ele está em presídio federal, mas ele é o topo, ele quem decide, de fato. O PCC hoje está presente em quase todos os estados. A região Norte, de fato, hoje é uma grande disputa com o Comando Vermelho e com facções do Norte e do Nordeste, por conta da rota do Amazonas. O PCC domina a rota aqui do Paraguai, a rota de baixo e a rota portuária.

Hoje o PCC é uma empresa, basicamente voltada para o tráfico internacional, inclusive a gente já tem notícias da presença do PCC na Europa. Já houve até informações da presença de integrantes do PCC nos Estados Unidos. Até por essa ligação com as máfias europeias, a máfia italiana e outras máfias, para estabelecer a rota do tráfico com a Europa. Porque a droga na Europa vale uma fortuna. Então é isso de fato que dá dinheiro para o PCC.

E número de integrantes, dá para ter uma ideia?

Ouvi colega do MP falar de 30 a 40 mil integrantes. Mas a grande mudança de chave no enfrentamento do PCC, que é uma criação nossa aqui do Estado de São Paulo. Aliás, o PCC foi criado em Taubaté, hoje o prédio do Ministério Público é atrás dessa unidade. Olha como o mundo dá voltas. Mas foi em 2019, depois 2018, 2017, até 2020, que nós formamos uma força tarefa, que a gente até apelidou de força tarefa X.

O Gaeco tem vários núcleos. O Vale do Paraíba é um núcleo, mas tem núcleo em Piracicaba, em Araçatuba, Presidente Prudente, capital, ABC, enfim. Cada núcleo fazia o enfrentamento do PCC regional. Então, por exemplo, aqui no Vale do Paraíba, a gente sempre se preocupou com o Vale do Paraíba. Não tinha porque a gente se preocupar com o PCC em Presidente Prudente. Está muito longe. Então, todo mundo fazia o trabalho de casa de forma regional.

A gente percebeu que era enxugar gelo. Porque ninguém tocava nas lideranças. Havia um receio de tocar nas lideranças, havia um receio de tocar em familiares das lideranças, porque são essas pessoas que fazem toda lavagem de dinheiro para esses traficantes, para essas lideranças.

Nós criamos essa força tarefa em 2018, 2019, em 2020 nós deflagramos a Operação Shark, que foi muito difundida, porque ali a gente, de fato, atingiu a cúpula. Nós miramos na cúpula, que movimentava milhões de reais. Eu tive a oportunidade de participar junto com outros colegas, que tinha um pouco mais de experiência, e nós deflagramos essa operação. E depois houve outras operações. E foi uma virada de chave.

A partir daí, a própria Polícia Federal se interessou. O Ministério Público de São Paulo é que detinha a expertise de enfrentamento ao PCC. Depois a própria Polícia Federal se aproximou do Ministério Público de São Paulo, e a partir daí, eles começaram a fazer esse enfrentamento. Mas é lógico que a certo ponto o tráfico do PCC ele se internacionalizou e aí, óbvio que a Polícia Federal tinha informações vindas de outros países.

O combate ao PCC tem apostado fortemente em atacar o caixa da facção criminosa. A gente tem visto, inclusive em matérias recentes, sobre lavagem de dinheiro usando motéis, hotéis, postos de combustíveis, vendas de ursinhos de pelúcia em lojas de brinquedo. É uma variedade impressionante. Eu queria que o senhor explicasse como é feita a lavagem de dinheiro pelo PCC? É preciso atacar esse aspecto do PCC, atacar o caixa da facção? 

Essa virada de chave que nós fizemos com a Operação Shark é exatamente isso. Porque as instituições são boas em desarticular, mas o crime se rearticula. Então, se você prende 20, vão surgir mais 20, porque você não desestruturou financeiramente essas pessoas. A estrutura ela se realimenta.

Então, nós aplicamos essa forma de atuação, porque não basta desarticular, não basta combater a corrupção, porque sempre tem a corrupção de servidores públicos. Onde há crime organizado, há corrupção de servidores públicos.

Não basta também realizar denúncias por lavagem de dinheiro, a gente precisa recuperar o ativo, a gente precisa bloquear, precisa confiscar esses valores, a gente precisa tirar essa capacidade que eles têm de se reestruturar. Nós começamos esses trabalhos dessa forma, de investigar a lavagem de dinheiro, por onde circula. E a lavagem de dinheiro, não tem como eu dizer quais são as situações que são variadas, desde a criação de empresas de fachada, a criação de empresas lícitas, que circulam ali valores de origem ilícita, como compra de veículos.

Por exemplo, aqui no Vale do Paraíba como é que o crime lava dinheiro? Eu vou dizer. Veículos. Muitos criminosos vendem veículos. Às vezes surge uma loja de veículos de luxo do nada, sem lastro, sem origem, E a gente faz, às vezes, investigações, a gente descobre que tem muitos veículos que são colocados nas lojas, são veículos de traficantes. Forma de lavar dinheiro. Compra de imóveis em nome de terceiros, eles usam muito laranjas e você tem que fazer uma investigação para estabelecer vínculo entre essas pessoas. Nós vimos a questão das fintechs.

E uma das primeiras investigações em que se descobriu a utilização de fintechs pelo crime organizado foi uma investigação aqui de São José, feito pelo Seccold, que é um setor especializado aqui da Polícia Civil de São José que trata de lavagem de dinheiro. Nós temos uma parceria com o Seccold e foi feita uma investigação relacionada ao João Cabeludo, que é um traficante das antigas aqui da região, do Jardim da Granja, que se está vivo, está lá na Bolívia. E nessa investigação nós descobrimos a participação de fintechs.

A partir daí também outras investigações, da Polícia Federal, até do próprio Ministério Público, e a mais famosa operação que escancarou essa questão das fintechs foi a Carbono Oculto, tanto que a própria Receita Federal já estabeleceu ali um outro regramento, porque, de fato, as fintechs criavam um ambiente propício para essa circulação de valores sem origem.

O fato de a economia estar se tornando cada vez mais digital, isso facilita o combate ao PCC ou pelo contrário, é mais desafiador ainda?

O crime organizado é sempre muito dinâmico, ele muda muito. E a gente a gente tem que acompanhar. Então, a gente tem que se reinventar, tem que estudar, tem que usar a tecnologia e ter sempre também ali aquelas medidas clássicas. Porque assim, investigação é uma coisa que não existe receita de bolo. Cada pessoa é uma pessoa, cada criminoso é um criminoso. Você amolda a estrutura e a metodologia de investigação de acordo com caso.

Mas a tecnologia hoje, de fato, é algo que eles usam. Aliás, o próprio PCC aprendeu com tecnologia, aprendeu com inteligência, contrainteligência. O PCC tem um setor de contrainteligência, tinha um setor muito específico. Tinha lá um setor de restrita, que eram integrantes mais preparados, há o investimento do PCC nessas pessoas, que são pessoas que, por exemplo, aprendem a usar inteligência, aprendem a usar contrainteligência. Então, o crime organizado também se prepara, ele usa a tecnologia. Se eles usam nós temos que usar também.

Essas pessoas são cooptadas pelo PCC em algum momento ou são preparadas por eles?

Eles investem, eles pagam faculdades. Isso é real. A infiltração do crime organizado no serviço público é algo real. Nas eleições, é algo real.

Pode explicar um pouco sobre a Operação Carbono Oculto, que entrou para a história do combate ao crime organizado no país. Como é que funcionava o uso dessas fintechs pelo PCC? Como é que foi essa investigação especificamente?

Essa investigação foi capitaneada pelo núcleo do Gaeco de São José do Rio Preto, mas criou-se uma força-tarefa com várias instituições, inclusive Polícia Federal, Receita Federal, Ministério Público Federal, ANP, enfim. Algumas questões eu não posso falar porque o processo, a investigação ainda está em sigilo e está em andamento. Esse grupo já havia sido alvo de investigação do núcleo em Piracicaba, mas essas pessoas estariam investindo em usinas da produção de álcool. E a partir dali se iniciou uma investigação.

Descobriu-se esse emaranhado, essa circulação de valores por diversas formas, como fintechs, fundos de investimento, e foi através disso que se chegou a Faria Lima. Mas esse grupo desenvolvia ali várias vários tipos de fraude. É interessante dizer que, além dessas fraudes, como a manipulação de combustível, sempre tem a questão da sonegação fiscal, que é o que a gente trata, por exemplo, no Cira. Então, nós entramos nessa força tarefa por conta da sonegação fiscal.

Inclusive o Cira judicializou pedidos para o bloqueio de valores para garantir a dívida fiscal, que eles têm uma dívida, esse grupo empresarial tinha uma dívida de R$ 7 bilhões com o Estado de São Paulo. Então, nós bloqueamos ali valores de fundos de investimento para garantir o ressarcimento ao erário. Além de disso, carros, veículos, caminhões, dezenas de caminhões que foram inclusive abandonadas, porque essas duas pessoas que seriam responsáveis por esse grupo criminoso estão foragidas, por um mandado de prisão da Justiça Federal, essa era uma parte da investigação ação da Polícia Federal.

Nós unimos uniram forças, cada um com um pedaço da investigação e foi deflagrada tudo ao mesmo tempo. Mas é algo que ainda vai ser maturado, a investigação ainda vai ter desdobramentos, porque a massa de informações colhida vai demandar muito tempo para analisar. Não é uma coisa simples. Mas de fato foi um marco, vamos dizer assim, porque já conseguiu algumas medidas que nós aqui no Ministério Público esperávamos há muito tempo, como, por exemplo, a regulação das fintechs. Tem até uma questão do devedor contumaz que está sendo discutido no Congresso. Então já são consequências diretas dessa operação.

Nas chamadas quebradas, o PCC impõe regras próprias e mantém sua própria lei, até mesmo com a adoção do chamado tabuleiro, chamado tribunal do crime. Nessa semana, por exemplo, a Polícia Militar flagrou um tribunal do crime em Caçapava, em que o homem foi achado já sem vida, enquanto criminosos cavavam a cova. Como é que funciona esse tribunal do crime?

O PCC tem uma hierarquia. Ele controla a disciplina e o crime não aceita, por exemplo, o próprio crime não aceita determinados crimes. Então acaba tendo um julgamento ali entre eles. Não é um julgamento com garantias constitucionais, não tem defesa e se a pessoa é condenada ela é executada. Esse é o crime organizado. Ele acusa, ele julga e ele executa. Então, isso de fato acontece. Algumas vezes é possível evitar, outras não, mas é uma realidade. Como eu disse, a Polícia Militar, a Polícia Civil, o Ministério Público, tem um histórico de enfrentamento da facção aqui na região.

Apesar de estarmos ali na liderança de alguns índices de criminalidade, a gente precisa entender que esses índices estão caindo, que nem tudo é relacionado ao crime organizado. Em algumas situações aqui no Vale, o que a gente percebe é crime desorganizado, ou seja, não há uma hierarquia. Entendam o que eu vou dizer, o PCC quando era forte, estabelecia regras e ninguém podia quebrá-las.

Então, ninguém matava ninguém sem autorização do PCC. A partir do momento que o PCC deixa de ocupar certos territórios, você cria um vácuo, e os criminosos se matam. Então, muitos dos homicídios no Vale do Paraíba têm ligação com o crime desorganizado.

Um exemplo é Cruzeiro?

Historicamente, Cruzeiro tem gangues. Que são jovens que estão se matando. Então, não tem nada a ver com PCC.

Inclusive, uma ostentação, a gente já mostrou em reportagens, o crime ostentação de redes sociais, molecada disputando com certo romantismo da vida criminal?

Eles já informam quem vai morrer e acaba morrendo mesmo. Mas a polícia lá de Cruzeiro, eu lembro que eu conversei com os colegas promotores de Cruzeiro na época, a gente orientou de algumas medidas e a polícia investigou, prendeu bastante gente lá em Cruzeiro e deu uma boa melhorada. Mas, onde há espaço, onde há vácuo, e não há um controle, acontece essas coisas.

E o senhor falou sobre essa questão do PCC disciplinar a violência, locais onde ele está presente de forma intensa, aqui mesmo em São José dos Campos, por exemplo, a existência da chamada bandeira branca em algumas regiões, com uma forte presença do tráfico de drogas, que seria uma bandeira que disciplinaria a execução de rivais. Isso só poderia acontecer mediante a autorização do que eles chamam de partido do crime. O senhor acredita que isso realmente acontece ainda em regiões onde há presença forte do PCC? E isso pode estar ligado também à queda de homicídios em algumas regiões?

Sim, sim. É um fenômeno assim que a gente tem que estudar, porque veja só, você faz o enfrentamento do PCC, você enfraquece o PCC. Mas do outro lado, você fortalece essa desorganização e cria homicídios. Mas você fica nesse dilema. De fato, é uma situação um pouco complicada. Mas muitos dos homicídios que acontecem aqui na região estão ligados ao próprio tráfico. São os criminosos que estão se matando.

Segundo a PM, 73% das vítimas de homicídios têm histórico criminal e são reincidentes.

Sim, não tem como discutir porque a polícia militar trabalha com estatística, com dados aferíveis, então o número é exato.

No ano passado foi deflagrada uma operação que investigou justamente a infiltração do PCC em campanhas políticas. Existe indício de que a facção busque essa infiltração na política? E qual seria o intento do PCC em se infiltrar na política?

Poder, e influenciar legislativamente. O PCC inclusive participa, como é um negócio, eles participam de licitações, eles criam empresa e participam de licitações. O núcleo de Guarulhos fez uma investigação que demonstrou isso. O criminoso faz lá o tráfico de drogas, ele ganha dinheiro com isso. Ele não vai guardar esse dinheiro em casa. Ele precisa colocar esse dinheiro para circular no sistema.

Então, cria as empresas, eles participam de licitações, abrem lojas, enfim, a participação de facções criminosas em licitações, por exemplo, é uma forma de lavar dinheiro e também de ganhar dinheiro, porque essas licitações são, às vezes, milionárias.

Veja a questão do transporte público em São Paulo, que os colegas do Gaeco da capital fizeram uma investigação extraordinária e demonstraram ali que tinha uma cooperativa de transporte ligada a pessoas da cúpula do PCC.

Em relação a eleições, o senhor acredita que o PCC tenta influenciar, ele patrocina candidatos? Que maneira o senhor acredita que ele atua no processo eleitoral?

Financiando campanhas. Dinheiro. Campanha precisa de dinheiro. Então, essa é uma oportunidade para o crime organizado, seja ele que tipo for, conquistar cada vez mais poder.

Como se dá esse financiamento? É legalizado, é caixa 2?

Tem de todas as formas. Todas as formas. Não tem uma regra.

 Pode ser que o candidato nem saiba?

Também não posso dizer. Porque, às vezes, o candidato fica tão distante dessa questão financeira da campanha, enfim. Mas não é só o crime organizado que faz isso. Tem empresário que tem interesses, também financia e depois acaba se beneficiando com contratos públicos. Então, esse é o jogo.

Numa cartilha depois dos ataques de 2006, produzida pelo PCC com uma espécie de orientação ideológica às famílias e aos integrantes, e lá, entre outras coisas, o PCC falava sobre a importância de acompanhar os agentes políticos, cobrar posições que sejam favoráveis à facção, e ele falava inclusive da busca pelo direito ao voto dos presos em regime fechado. Ou seja, já tendo no horizonte uma vontade de atuação política, inclusive, de poderio de voto. Então, realmente, eles têm um foco de ter uma atuação política forte. O senhor acredita que eles atuam também nos outros poderes, poder judiciário também, consegue se infiltrar nessas outras esferas?

Sim. Eu disse que, por exemplo, a facção financia cursos de superior. Eles investem nas pessoas, que prestam concurso. Muitas das vezes isso é descoberto. Outras não. Pode acontecer. Nós já tivemos casos, que eu não posso externar, mas casos assim que, de fato, mostram que o crime organizado é extremamente ousado. Então eles tentam sim.

Eu me lembro que alguns anos atrás era promotor substituto e me colocaram para fazer um júri em Mauá. Dos mandantes da execução do diretor do CDP de Mauá, que foi o primeiro diretor do CDP morto pelo PCC. Eu fiz esse júri. Eu me lembro que alguém ali do poder judiciário, que eu não conhecia ninguém em Mauá, ou alguém do cartório, que chegou para mim, e falou: "Olha, doutor, tá vendo aquelas pessoas ali? Então, o PCC paga a faculdade delas". Então, assim, é fato, isso acontece. Não foi o PCC que inventou isso, é próprio do crime organizado, o crime organizado faz isso.

 O senhor falou sobre a sintonia restrita, que é uma espécie de elite do PCC, uma sintonia que responde diretamente àquela chamada sintonia dos 14, a cúpula da facção. Pelo que eu li em relatórios de investigações, a sintonia restrita, como o senhor bem falou, tem uma central de inteligência e uma das atribuições dessa sintonia é também levantar informações sobre agentes públicos, principalmente policiais. Em alguns casos, infelizmente, a gente vê casos de assassinatos perpetrados pela facção criminosa. Na avaliação do senhor, com base nessas informações, como é feito o monitoramento? O PCC monitora autoridades? Ele busca informações de possíveis alvos e agentes públicos que se possam ser alvos da facção criminosa. Como é que funciona essa sintonia restrita?

Eles chamam de um grupo de elite do PCC. Havia um núcleo aqui no Vale do Paraíba de integrantes da restrita, que nós investigamos. Alguns desses integrantes acabaram mortos em confronto com a polícia. Mas uma das investigações que realizamos aqui pelo Gaeco, que tratou do tráfico aqui na zona sul, no Campo dos Alemães, o líder ali do tráfico de drogas, que acabou falecendo em um confronto com a polícia, nós encontramos, no dia da deflagração da operação, o bunker onde ele tinha armamento, onde ele tinha a droga guardada, ele tinha fuzil, armamento de grosso calibre, tinha quase 400 kg de pasta base de cocaína, enfim, nós descobrimos esse bunker desse traficante.

E no interior do imóvel havia uma pasta que ele era da restrita do PCC, e ele tinha ali uma pasta com levantamento de agentes do sistema penitenciário. Mas não um simples levantamento. É um levantamento de investigação de dados, tinha fotos, fotos da residência, do carro. Então eu vi isso de fato, ninguém me contou. E isso aconteceu e acontece até hoje. Hoje a pessoa que corre mais risco de vida no Ministério Público é o Lincoln Gakiya, que tem uma segurança enorme. Essa é uma realidade.

O crime, como disse, eles são profissionais, eles se preparam. Então, eles aprendem, inclusive, conosco. Então, se você investiga de uma forma, na seguinte se você repetir, eles já aprenderam. Você tem que sempre mudar. Mas a restrita tem essa finalidade de fazer esse trabalho do PCC, levantar e executar. É um pessoal que tem treinamento.

20 anos atrás, o inimigo número 1 do PCC, José Ismael Pedrosa, que era o diretor da Casa de Custódia quando o PCC nasceu em 93, era também diretor da casa de detenção em São Paulo, quando aconteceu o chamado massacre do Carandiru, que também é citado no estatuto do PCC, na certidão de nascimento do PCC. Pedrosa foi assassinado em Taubaté em 2005, um domingo em que se votava o referendo do desarmamento. Foi um ato de vingança do PCC contra o Pedrosa. A gente teve recentemente o caso do Dr. Rui, que também foi responsável por investigações importantes pela Polícia Civil contra o PCC e acabou sendo executado na Praia Grande. Vocês que investigam o crime organizado, como vocês lidam com essa ameaça constante. O PCC dá mostras de que ele não esquece. Tanto no caso do Dr. Pedrosa, quanto no caso do Dr. Rui, eles já estavam aposentados. Como é viver sob constante ameaça?

Enquanto você está na ativa no estado, isso não é um problema. O problema é quando você se aposenta. Aí, de fato, você não tem mais a estrutura do estado para lhe defender. Essa é a grande batalha, inclusive do Lincoln. Ele tem colocado essa questão que a preocupação não é quando você está na ativa, porque esse é o nosso trabalho. A preocupação é quando você deixa o Estado.

O Estado deveria garantir a segurança de todos aqueles que um dia enfrentaram o crime organizado, e correm risco de vida. Então, a questão é o pós, não o durante. Essas pessoas que você nominou foram mortas e já estavam aposentadas, e não tinham qualquer segurança do Estado.

Falando um pouco sobre como o PCC funciona, a decisão de poder no PCC é concentrada muito na cúpula? Ou o PCC já descentralizou esse comando, já tem outras células por aí que também dão ordens? Já há um conflito geracional dentro do PCC?

Acredito que sim, porque de fato o que vocês leem ainda é a realidade. É só se ater ao Lincoln, que é a pessoa no país que mais sabe de PCC. Então, o que ele está dizendo é a realidade. O Marcola ainda é o chefe da facção, tem controle da facção, é respeitado pela facção. Houve uma dissidência, mas essa dissidência não conseguiu o que queria. Marcola comanda o PCC.

E tem as pessoas que estão na rua, que são as grandes lideranças. Uma das pessoas, um dos integrantes que , liderava a rua era o Tuta. O Tuta foi investigado por nós na Operação Shark. Ele estava foragido, mas foi preso na Bolívia. Tinha a proteção de agentes do governo boliviano. Ele foi preso, estava em presídio federal, e agora ele voltou para unidade prisional de São Paulo. Então, Tuta, que era o número 1 da rua, ele foi recepcionado recentemente na unidade prisional e já é tido como uma liderança.

Então, há um núcleo de pessoas que cuidam do PCC fora da prisional, mas o Marcola ainda é a palavra final.

Se o crime é a regra, o crime pode ser voltar contra eles também. É difícil eles exercerem esse poder ferrenho por tanto tempo?

Pois é, há quantos anos o Marcola está preso? E quantos anos de pena ele ainda vai ficar? Então, de fato, ele tem essa capacidade de liderança.

A gente estava falando sobre o PCC pagar faculdades, por exemplo. O PCC também se refere às unidades prisionais como faculdades, até na hora de batizar um integrante novo, é como se fosse um currículo. Pergunta em quais faculdades você já esteve, em quais presídios você já passou. A gente acabou de citar o caso do Marcola, que está preso há décadas, mas se mantém no topo dessa estrutura criminosa. Ou seja, o fato dele estar preso não faz com que seja uma carta fora do jogo. Como que mesmo preso esses integrantes da cúpula do crime organizado conseguem ditar as ordens?

Ele tem pessoas de confiança que são os olhos, os braços na rua. Ele tem uma capacidade, a competência dele, vamos dizer assim, a competência dele é ter essas pessoas, ter pessoas fortes na rua que cumprem as ordens dele. Então é isso. Enquanto ele tiver isso na facção, ele vai ser liderança. O dia que ele não tiver isso, provavelmente ele vai perder a liderança, mas o perder é morrer. Então, a capacidade dele é essa. É dinâmico. O Tuta era a pessoa que tinha ali a dominância. Hoje já é outra pessoa. E tem muita gente escondida na Bolívia. Que é o país onde, de fato, eles têm ali uma proteção. Não sei o que vai acontecer agora, porque a Bolívia mudou. Tem um novo presidente. Não sabemos como é que vai ser essa situação.

O senhor falou da dissidência que não conseguiu prosperar, mas o senhor acredita que pode haver uma dissidência que prospere, como em outros grupos criminosos que, historicamente, foram acabando depois de décadas, por uma erosão interna mesmo, uma disputa entre eles. O senhor acha que isso vai acontecer em algum momento com o PCC?

Pode ser que sim. Porque isso é histórico. Nas máfias em todo mundo isso ocorreu. Um dia vai surgir alguma liderança, vai arregimentar integrantes e pode tomar o poder. Isso pode acontecer.

Essa capacidade de coordenação, e mesmo com a cabeça e o cérebro da facção atrás das grades, consegue levar ordens para as ruas. Isso aconteceu nas mega rebeliões. Em 2006, a gente viu praticamente o sistema inteiro virar e o PCC perpetrou um ataque sem precedentes às forças de segurança pública em São Paulo. O senhor acha que há risco de que um ataque similar a esse ocorra? Ou houve uma mudança no entendimento da própria facção de que isso não foi positivo para eles?

Bom, você acompanhou toda essa história, você sabe que, por muito tempo, o governo negou que existia o PCC. Então, quanto isso atrapalhou? O quanto isso fez com que a facção crescesse? A negação é a primeira coisa.

O Estado, além de negar, ele espalhou os integrantes da facção que estavam com concentrados em Taubaté, ele acreditou que se isolasse, mas funcionou como uma espécie de célula cancerígena que foi contaminando. Há o risco de a gente ter um novo 2006, por exemplo, novos ataques do PCC ou o senhor acha que não?

Eu acho que hoje em dia é um pouco mais difícil, porque a rede de enfrentamento é muito maior. A informação hoje ela é mais democrática. As instituições se uniram mais, então há mais troca de informação. Então algum bucho aqui já chega ali.

Hoje o Estado está mais preparado. Primeiro, ele reconheceu a existência e se preparou mais. Hoje a gente tem condições de uma resposta de evitar. Porque a inteligência, na verdade, isso é um trabalho de inteligência, que tem essa finalidade de evitar. A informação é tudo. 2006 hoje em dia seria um pouco mais difícil.

O PCC cuida das pessoas que estão presas. Ele dá oportunidade. Talvez aí venha uma parte da força dele, de recrutar jovens, que veem naquele caminho uma maneira de ter dinheiro, de ter status? O PCC de fato tem esse “cunho social”, de cuidar do patrimônio deles, os presos, família?

O PCC dá essa ajuda, de quem está vulnerável ao sistema. Um integrante de rua sabe que vai ser preso, uma hora ou outra. E o que ele tem, além de obrigações disciplinares. Ele vai ter a certeza de que lá preso na unidade, ele vai ter um tratamento um pouco melhor, não do Estado, mas da massa carcerária. Ele vai estar protegido, vamos dizer assim. E a família vai ter também um respaldo. Mas é isso. O que eles têm é isso. É isso que a facção dá.

Em algumas ocasiões durante o bate-papo, o senhor usou a palavra máfia. Sei que é difícil classificar o PCC como uma máfia ou não, mas é um termo que volta e meia é usado para se referir à facção criminosa. A gente tem também, por exemplo, quem defenda que o PCC é um grupo terrorista. A gente viu recentemente esse debate envolvendo os Estados Unidos. O senhor acredita que é possível classificar o PCC ou como máfia ou como um grupo terrorista? Qual a avaliação do senhor sobre isso?

Bom, esse é um momento interessante no país, porque a gente está discutindo essa a lei antimáfia. Uma legislação que endurece e que trata esse fenômeno. Porque hoje a gente tem uma lei única de crime organizado que trata tudo, desde o sonegador, o empresário que cria uma organização criminosa para sonegar, até o integrante do PCC. É uma mesma lei. Então, a criação de uma lei específica para esse tipo de criminalidade é importante. Eu fico nessa história toda com o meu colega Lincoln.

Entendo que o PCC é uma máfia. A gente vai acompanhando há muitos anos, ele dizia que estava numa situação de pré-máfia, hoje é uma máfia. Talvez uma máfia diferente do que a gente está acostumado, como as máfias da Itália, da Rússia, as americanas. Mas a gente pode dizer que o PCC hoje é uma máfia, que está associada a outras máfias, e que demanda um tratamento legislativo mais duro. Penas mais duras, com algumas restrições relacionadas a direitos, porque é assim que se enfrenta o crime organizado.

 Quais as características próprias do PCC que são só dele? O que seria essa máfia brasileira?

Eu acho que essa dominância territorial, essa relação hierárquica. É um pouquinho diferente, por exemplo, de algumas máfias italianas, que são núcleos familiares. Não tem isso. Você tem as pessoas de confiança da liderança que organizam ali, que estão ganhando dinheiro, enquanto os soldados sofrem ali no dia a dia para sobreviver no tráfico, em pequenos crimes. Você tem essa parcela que descobriu esse mercado internacional de drogas e que está ganhando dinheiro. Eu acho que essa é a realidade. O PCC que ganha dinheiro e um PCC que fica a mercê do sistema prisional.

Muita gente do PCC que é presa delata?

Formalmente, não. E acredito que enquanto a gente não tiver uma estrutura um pouco mais profissional, depois do que aconteceu com o caso do [Vinicius] Gritzbach vai ser um pouco mais difícil. Um pouco mais difícil. Mas ele não era um empresário, ele também era um criminoso. Estava envolvido no crime.

Mas é um pouco mais difícil porque a nossa legislação também na questão de colaboração premiada desde a Lava Jato, ficou uma situação, nós não temos benefícios, teríamos que ter algo parecido com os Estados Unidos. Penas muito mais duras que proporcionassem, de fato, a possibilidade de uma colaboração.

Se você pega a pena do crime organizado, às vezes vale muito mais a pena sujeito cumprir a pena do que delatar. E não morrer, porque ele cumpre o papel dele de silêncio.

No pós-ataque de 2006, o PCC falava de metas e uma das metas era se expandir para todo o país e até para o exterior. Infelizmente, a gente vê que isso hoje é uma realidade. Qual o senhor acredita que seja a meta do PCC? Ele está trabalhando para atingir que objetivo?

Lucro com o tráfico internacional, e, a partir daí, lavar dinheiro. O crime organizado é isso. E tudo isso que está envolvido. Poder, política. É a máfia. O que a máfia faz. O que a máfia italiana faz é o que o PCC pretende fazer também. Então, essas são as rotas.