A santa de Aparecida e suas duas restaurações.
Em 16 de maio de 1978, na Basílica Velha em Aparecida, algo inimaginável aconteceu: um jovem de São José dos Campos, visivelmente transtornado, pegou a imagem de Nossa Senhora Aparecida e a atirou no chão, deixando-a despedaçada em mais de 200 partes.
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Diante do fato, os padres redentoristas buscaram ajuda no Museu Vaticano, mas foram orientados a procurar o Museu de Arte de São Paulo para o restauro da imagem. À época, lá trabalhava como chefe do Departamento de Restauração a artista plástica Maria Helena Chartuni, a quem coube a tarefa do restauro.
Atualmente com 82 anos, a então jovem artista e profissional do restauro levou 33 dias de apuro técnico, profissional e artístico para recuperar a estatueta.
“Quando vi o estado em que estava a imagem, realmente eu levei um susto interiormente”, disse Maria Helena em entrevista ao jornal O São Paulo, da Arquiciocese de São Paulo.
“Na hora, pensei que era um trabalho muito complicado, difícil de fazer, não só pelo restauro em si, mas por tudo que envolvia a imagem, em especial o fato de Nossa Senhora Aparecida ser a Padroeira do Brasil. Fiquei com muito medo, mas eu tinha que fazer o trabalho”, recordou.
Ela trabalhou no restauro sem parar e, apesar de naquele momento não ter extrema devoção por Nossa Senhora, pediu a ajuda da Padroeira do Brasil.
“Quando esse restauro chegou na minha vida, não tive aquela emoção de um devoto, e foi até melhor, porque com uma distância do objeto a ser restaurado, você pode lidar melhor com ele. No entanto, eu sentia que durante o restauro aconteciam fatos estranhos, como pedaços pequenos que eu pegava ao ‘acaso’ e achava o lugar certo para colocá-los. Eu tinha pedido a Nossa Senhora, sozinha, antes de começar a restaurar: ‘eu estou com problema. Você me deu esse problema para resolver, e eu gostaria que você me ajudasse”, contou.
Inicialmente, Maria Helena classificou as partes da imagem e depois fez a reconstrução de 165 pedaços que puderam ser colados.
“O que não deu para colar, porque estava quase em estado de pó, eu coloquei com a cola dentro da imagem, pois a imagem é oca. Usei esse critério porque é uma imagem de culto. Se fosse uma imagem comum, eu não teria feito todos esses detalhes, eu teria parado em alguns lugares, como, por exemplo, no rosto, em que faltava a parte direita, que não foi encontrada. Foram feitas três partes para não ficar com buracos: a parte direita do rosto com um olho, uma parte do cabelo e uma parte do cotovelo, em baixo”, detalhou a artista.
A restauradora afirmou que só teve plena noção do que representava aquele restauro quando a imagem retornou a Aparecida, em 19 de agosto daquele ano. “Se formou um corredor humano ao longo de todo caminho da avenida Paulista, também na via Dutra toda até a entrada de Aparecida. Todo mundo se emocionava, rezava, chorava, e aquilo realmente me tocou”.
Passados mais de 45 anos do restauro, Maria Helena tem convicção que não só a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi restaurada em 1978. “Ela realmente restaurou a minha vida!”, garante.
Os detalhes desses restauros – o da imagem e o pessoal – estão no livro “A história de dois restauros – Meu encontro com Nossa Senhora Aparecida” (Editora Santuário, 2016), escrito por Maria Helena também com o objetivo de contar a verdadeira história do que aconteceu e do que sentiu, dado que, ao longo do tempo, algumas versões surgiram, nem sempre correspondendo fielmente aos fatos.
Hoje devota de Nossa Senhora Aparecida, a artista olástica é enfática em afirmar que não venera nem adora a imagem de terracota que reconstruiu ou qualquer outra.
“Não acho correto venerar a imagem física, mas sim o que ela representa, que é muito maior, mais misterioso e grandioso que a imagem”, disse, acreditando, também, que não foi por acaso que teve a missão de restaurar a imagem da Padroeira do Brasil.
“Quando essa imagem foi achada no rio Paraíba Sul, ela veio para dar algum recado espiritual e deu, porque se fosse um marketing católico já teria desaparecido. Não se sustenta por tantos anos uma coisa superficial que não tenha a mão de Deus. E na minha vida foi a mesma coisa: ela não veio por acaso. Tudo é plano de Deus e a gente vai entender só depois que acontece”, concluiu.
A restauradora e artista plástica paulistana disse a OVALE, em outubro de 2021, quando o público voltou à Basílica após a pandemia da Covid-19, que o mais importante era restaurar as pessoas, o povo brasileiro. “Mais do que nunca. Acho que o Brasil precisa de muita ajuda”, disse ela.
Confira o bate-papo com Maria Helena Chartuni naquela época.
A festa de Aparecida será a primeira com o público presencial na Basílica após a pandemia. Quanto isso é especial?
Acho que isso foi um grande milagre, uma grande graça que estamos recebendo porque no início da pandemia todos estávamos muito apreensivos. Parecia o fim do mundo, tudo muito obscuro. A gente não via uma luz e depois as pessoas, de certa forma, não sabiam o que ia acontecer. Parecia a tragédia maior. E, de repente, as coisas foram indo e entrando no seu ritmo normal, com muita fé e pedindo a Deus. Quem acredita pedia a Nossa Senhora. Vimos todas essas manifestações no mundo todo, inclusive o papa Francisco, que também parecia muito triste.
Essa corrente ajudou?
Acho que todas as orações ajudaram muito. No Brasil, as pessoas não desistiram de Nossa Senhora. Sempre achei que ela ia dar conta, que ia fazer alguma coisa para que saíssemos dessa situação. E as coisas estão num melhor caminho. Claro que com problemas, mas já estamos melhores. Penso que é uma grande graça que todos recebemos poder comemorar o dia dela depois de praticamente dois anos. Para mim, todo dia é dela. É muito importante esse dia que comemoramos com a presença das pessoas para fazer uma grande corrente de otimismo e de oração para sairmos definitivamente dessa situação que vivemos.
O Brasil precisa de ajuda?
Mais do que nunca, acho que o Brasil precisa de muita ajuda. Outro dia fiquei muito impressionada com o papa que explicava o significado da palavra diablo, o demônio. Significa divisão. Vivemos essa situação de divisão, não de consenso. Cada um tem a sua visão e é dono da verdade, ninguém sabe nada. Essa situação que vivemos é muito complicada. Só apelando a Deus e a Nossa Senhora para que ilumine a cabeça das pessoas para ter o mínimo de harmonia.
Qual a mensagem da santa?
É difícil falar por ela. Acredito que ela está nos ajudando. Mas temos que fazer a nossa parte também. Não podemos fazer como as crianças que sentam no chão e pedem coisas aos pais. Não é assim. Temos a nossa parte de responsabilidade, e é isso que temos que trabalhar melhor.
Há paralelo entre a restauração da imagem em 1978 e agora a ‘restauração’ do público ao Santuário?
Acho que há um paralelo muito grande. Naquela ocasião, parecia que a esperança tinha sido destruída com a destruição da imagem. No entanto, não foi. A imagem é o símbolo dela. Agora, o que precisamos é nos restaurar. Essa é a grande coisa que temos que fazer. Nos restaurar leva mais tempo e vontade pessoal, senão não acontece nada. Nem Deus pode mudar a cabeça de alguém, porque temos o nosso livre arbítrio. Se a gente não quer mudar, Deus não vai mudar. É isso que temos de nos conscientizar, que a mudança tem que partir de nós.
Restaurar a imagem mudou a sua vida?
Completamente. Sou uma antes e outra depois do restauro. Nasci católica e estudei em colégio de freira e, na adolescência, passei por uma fase que achamos que sabemos das coisas e vamos procurar a verdade em outro lugar e tudo mais. Fui por esse caminho também. Mas acho que precisamos primeiro atravessar o inferno para encontrar a luz, e foi isso o que aconteceu. Você procura e não acha, quando a verdade está do seu lado. Para encontrar a verdade e aceitar é preciso ganhar maturidade. Isso acontece com o ser humano. Enquanto não tivermos uma maturidade espiritual não vamos encontrar o que está na nossa frente, que é Deus.
A sra. escreveu um livro sobre o restauro da imagem?
Sim, a experiência gerou o livro “A história dos dois restauros”. Tinha que escrever coisas que estava guardando há muito tempo, sobre a minha verdade. De certa forma, quis ajudar gente sem esperança porque já estive por muito tempo da minha vida sem esperança.
A sra. vem a Aparecida?
Sim, vou todos os anos e só não fui no ano passado por causa da pandemia. Vou em época diferente da festa, porque é muita gente. Prefiro ir antes. Continuo trabalhando como restauradora e artista plástica. Enquanto estiver viva, vou trabalhar.
A sra. tem ligação especial com o Vale?
Às vezes, temos ligação espiritual que vamos descobrindo ao longo do tempo. Tenho impressão que o Vale é privilegiado porque Nossa Senhora apareceu em um momento tão trágido da vida dos brasileiros, principalmente naquela região. Vivíamos numa época em branco e preto e ela aparece para dar esperança às pessoas, numa época de escravidão. A partir dela, criou-se uma esfera de luz no Vale. Nossa Senhora continua nos protegendo e nunca abandonou não só o Vale como o Brasil. Ela foi encarregada por Deus de lutar contra o mal. Que ela continue nos protegendo.