11 de julho de 2026
SÃO JOSÉ

Veto a Milly provoca onda de desistências na Flim em São José

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 5 min
Reprodução
Jornalista e escritora Milly Lacombe

A Flim (Festa Litero Musical) de São José dos Campos vem sofrendo um ‘abalo sísmico’ após o veto do prefeito Anderson Farias (PSD) para a participação da jornalista e escritora Milly Lacombe, por suas posições sobre a família tradicional.

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Desde que Anderson confirmou que vetou a presença de Milly no evento, que começa na próxima sexta-feira (19), o festival foi atingido por uma onda de cancelamentos de participantes e curadores, além de críticas de que o prefeito promoveu censura.

Alegando censura e desrespeito, os escritores Xico Sá, Micheliny Verunschk e Helena Silvestre cancelaram a participação no festival. Também toda a equipe de curadoria da Flim abandonou o trabalho após o veto de Anderson.

"Deixo aqui todo apoio e solidariedade à jornalista Milly Lacombe, censurada e silenciada politicamente (a pedido da extrema-direita) pela Prefeitura de São José dos Campos. Como convidado do mesmo evento cultural, comunico, em protesto, o cancelamento da minha participação", disse Xico Sá, que comporia a mesa de abertura da festa ao lado de Milly Lacombe.

“A intolerância é sempre estarrecedora, e a censura é a arma da ignorância. Diante do cancelamento da participação de Milly Lacombe na Flim 2025, em São José dos Campos, em um episódio lamentável de cerceamento da liberdade de expressão, informo que cancelo a minha participação no evento. Toda solidariedade a Milly Lacombe e à equipe curatorial formada por Alice Penna e Costa, Tânia Rivitti, Bruna Fernanda e Bia Mantovani”, escreveu Micheliny.

Nesta quarta-feira (17), a escritora Helena Silvestre anunciou que também está fora do evento em São José, por meio de um vídeo publicado no Instagram.

“Estou me retirando da programação da Feira Litero Musical de São José dos Campos, na qual eu participaria junto a outros escritores numa mesa de discussão nos próximos dias. Isso se dá em razão de ações de censura, intervenções autoritárias da Prefeitura de São José que exigiram a retirada da jornalista e escritora Milly Lacombe da programação”, afirmou Helena.

“Em solidariedade a todos que sofrem censura, solidariedade aos meus amigos, amigas, leitores de São José dos Campos que não são representados por esse tipo de postura da administração, solidariedade às famílias do Pinheirinho, é que eu me retiro da programação da feira, desejando que a gente possa se ver em breve em melhores condições”, completou a escritora.

Curadoria.

Na terça-feira, a equipe de curadoria da Flim renunciou ao trabalho em protesto ao veto de Anderson. “É com muita indignação e revolta que nós, curadoras da 11ª Festa Litero Musical de São José dos Campos – FLIM, comunicamos a nossa retirada da curadoria da festa que estava prevista para iniciar nesta sexta-feira, dia 19 de setembro”, escreveu Bianca Mantovani, uma das curadoras, através das redes sociais.

“Enquanto trabalhadoras da cultura que prezam pelo diálogo, pelo pensamento crítico e escuta ativa, nos sentimos desrespeitadas com essa decisão e decidimos, coletivamente, por encerrar nossa participação no festival”, seguiu o documento, que também teve assinatura de Alice Penna e Costa e Tania Rivitti, curadoras, e Bruna Fernanda, assistente de curadoria.

Milly Lacombe.

A jornalista Milly Lacombe se manifestou por meio de um vídeo postado em suas redes sociais. Ela disse que sua participação no evento passou a ser um risco à integridade física, após pressão de parlamentares conservadores da cidade e do veto do prefeito.

No vídeo, Milly afirmou que deixar de participar da Flim é triste, mas que foi necessário até por conta da própria integridade. “Passou a ser um risco à minha segurança”, disse ela, citando o ‘ódio’ da ‘extrema direita’ sobre uma declaração na qual considera ‘tirada de contexto’ no podcast.

“Dentro desse guarda chuva a gente precisa falar de família. Família como lugar de amor e de respeito por todas as dissidências. Luto por um mundo dentro do qual a família seja um lugar sem hierarquias, sem papeis de gênero e sem relações de poder”, escreveu.

“E por um mundo sem opressão de raça, sem opressão de gênero, sem opressão de sexualidade, sem opressão de classe. Esse mundo é possível, mas temos trabalho pela frente. A todas as pessoas que compartilham desse sonho, um abraço carinhoso”, afirmou a jornalista em sua conta no Instagram.

No vídeo, ela ainda disse que gosta muito de feiras como a Flim e que os debates são sempre muito bonitos. Mas, usou o vídeo para explicar os motivos de não vir mais a São José.

Outro lado.

Após confirmar o cancelamento da participação de Milly, Anderson disse que a medida foi tomada em razão de declarações da escritora em um podcast, nas quais criticou a chamada “família tradicional, branca e conservadora”, associando-a ao fascismo. Para o prefeito, não é aceitável que um espaço público e financiado com recursos municipais seja usado para esse tipo de manifestação.

Por meio de nota, a AFAC (Associação para o Fomento da Arte e da Cultura) confirmou também nesta terça o cancelamento da participação de Milly na Flim, afirmando que ele ocorreu "em comum acordo com a convidada". Segundo a nota, o objetivo foi "preservar a integridade de todos os envolvidos" -- questionada, a AFAC não detalhou essa afirmação.

"Ao longo de 10 edições, a FLIM se consolidou como o maior evento literomusical do Vale do Paraíba e um dos principais do interior paulista. Além de promover a arte e a cultura, o evento reforça seu papel como agente da economia criativa, gerando impacto positivo no comércio local e atraindo milhares de visitantes”, diz a entidade.

“Em decisão tomada em comum acordo com a convidada, objetivando preservar a integridade de todos os envolvidos, a AFAC confirma o cancelamento da presença da Milly Lacombe. A Associação reitera que não compactua com manifestações que não estejam ligadas à atividade fim do evento, que é a promoção da cultura, da música e da literatura", completa.

Procurada nesta quarta sobre as desistências, a AFAC garantiu a manutenção da Flim, de 19 a 21 de setembro, e disse que “respeita a decisão do coletivo curatorial, dos escritores que cancelaram a participação e informa que continuará trabalhando para a realização do evento”.