Um mundo sem a Amazônia.
Uma das maiores e mais importantes florestas tropicais do mundo pode desaparecer em menos tempo do que se imagina. O imenso patrimônio natural brasileiro e do mundo pode sumir se a temperatura do planeta continuar aumentando.
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Quem faz o alerta é Carlos Nobre, um dos maiores climatologistas do mundo, durante participação em OVALE Cast - Aquecimento Global, podcast do jornal OVALE.
“Se a temperatura passar de 2 graus até 2050, nós vamos perder a Amazônia. Essa pesquisa que eu venho fazendo há muitas e muitas décadas”, disse ele.
Pesquisador sênior pelo Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo) e copresidente do painel científico para a Amazônia. Nobre foi eleito, em maio de 2022, como membro estrangeiro da Royal Society, na Inglaterra.
O climatologista fez parte da equipe internacional de cientistas que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2007. Junto com o ex-vice-presidente americano Al Gore, os pesquisadores do IPCC, o painel da ONU sobre mudanças climáticas, foram premiados pelo papel de alertar sobre os riscos do aquecimento global e lutar pela preservação ambiental.
Carlos Nobre foi entrevistado com participação especial da premiada jornalista Cristiane Prizibisczki, repórter especial do site O Eco, especializado em jornalismo ambiental, e pelo repórter especial de OVALE, Xandu Alves.
Confira a entrevista de Carlos Nobre na íntegra.
“O mundo pode não ter mais volta e isso me assusta”. Este é o título de um artigo escrito pelo senhor em setembro de 2024. Quão próximos nós estamos do ponto de não retorno?
Sem dúvida, é um risco enorme. Porque o que normalmente não se fala muito é que o planeta está correndo vários riscos que nós, cientistas, chamamos de pontos de não retorno. O que é isso? Se a gente continuar com as emissões dos gases de efeito estufa que mantém um aquecimento.
Nós tivemos 21 meses em 2023, segundo o Instituto, 2004 e com o mês de 2025, que a temperatura ficou acima de 1,5 graus, mais quente do que 1850 e 1900 antes do aquecimento global.
E todos os eventos extremos bateram recordes, as ondas de calor, as secas, os incêndios florestais, as superchuvas, E isso chamou muita atenção porque se a gente não conseguir manter a temperatura abaixo de 1,5 graus, nós podemos chegar até em 2050 a 2 graus e até mais que 2 graus. E o que isso ameaça? Os pontos de não retorno.
Por exemplo, se a temperatura passar de 2 graus até 2050, nós vamos perder a Amazônia. Essa pesquisa que eu venho fazendo há muitas e muitas décadas. Os primeiros artigos fui eu que publiquei em 1990 e 91, dizendo: "Superdesmatamento da Amazônia, vai fazer a Amazônia passar do ponto não retorno". E eu continuei nessa pesquisa o tempo todo.
E tem vários outros pontos de não retorno. Nós já estamos derretendo o solo congelado da Sibéria, do norte do Canadá e norte do Alasca. Tem um nome técnico permafrost, em inglês, permanentemente congelado. Esse solo foi congelado muitos milhões de anos atrás e congelou uma quantidade gigantesca de gás de efeito estufa. Principalmente o metano.
O metano é 28 e 30 vezes mais poderoso do que o gás carbônico para reter o calor e também o gás carbônico. Então, se a gente chegar em 2050 com acima de 2 graus, nós vamos passar do ponto de não retorno da Amazônia, nós vamos passar do ponto de não retorno desse permafrost e até 2100 nós vamos jogar uma quantidade gigantesca de gases de efeito estufa.
Entre a Amazônia e permafrost os 500 bilhões de toneladas desses gases, inclusive cerca de 200 bilhões de toneladas do metano lá do permafrost. Então, se isso acontecer, e eu aqui estou contando só de dois pontos de não retorno. Tem mais de 20 pontos de não retorno. Outro muito perigoso é o derretimento dos mantos de gelo da Groenlândia e da Antártica, parte da Antártica.
Por exemplo, só para dar um número para vocês, quando que a Terra esteve com essa temperatura que nós tivemos o ano passado e continua os primeiros meses desse ano. Felizmente, uma boa notícia é que caiu um pouco a temperatura em junho. Uma boa notícia, precisamos ver o que é que está acontecendo.
Mas o país esteve 1,5ºC, o planeta esteve 1,5 graus mais quente, 120 a 130 mil anos atrás, que foi o último período interglacial. Só que ali foi um período, ficou nessa temperatura por milhares e milhares e milhares de anos e aí foi derretendo o manto de gelo da Groenlândia, uma parte da Antártica também, o nível do mar era 6 metros mais alto. Mas lógico, 120 mil anos atrás nós tínhamos só alguns milhões de habitantes humanos na África Equatorial.
Então, isso é uma coisa que não significou nenhuma grande ameaça, até porque a floresta tropical mantém um clima mais estável. Era 6 metros acima do nível do mar, mas ali não tinha milhões de pessoas vivendo na beira do mar.
Só para dar mais um dado, nós conhecemos mais de 20 pontos de não retorno. Outro muito preocupante, que já começou a ficar muito próximo, é extinção de espécies. O IPCC publicou em 2018 um artigo muito bom, mostrando os riscos de passar de 1,5 graus. E uma coisa que chamou muita atenção naquele relatório foi que se passar permanentemente de 1,5 graus e até atingir 2 graus, quando os oceanos aquecerem nesse nível, nós vamos praticamente distinguir todos os recifes de corais. E o que é que nós estamos vendo agora nos últimos anos? Enorme branqueamento dos corais. Branqueamento é o começo da extinção.
Os corais, os recifes corais em todo mundo mantêm 25% da biodiversidade oceânica. Se a gente passar de 2 graus em menos de 100 anos, nós vamos extinguir praticamente todos os recifes de corais. Nós vamos perder uma imensa biodiversidade oceânica. Isso é só para dizer uma categoria viva do planeta, mas muitas outras centenas de milhares de espécies vão se extinguir se a gente passar de 2 graus, chegar a 2,5.
Então, se isso acontecer, a gente perde a Amazônia, perde o permafrost e uma série de outros gases vão ser jogados na atmosfera, a temperatura em 2100 pode chegar a 3 e 4 graus mais quente. E qual que é o risco disso? Nós, humanos, Homo sapiens, nunca evoluímos com uma temperatura mais alta. O máximo que nós enfrentamos foi essa temperatura aqui 120 e 130 mil anos atrás. E os nossos antepassados Homo erectus também. Em 2 e 3 milhões de anos nunca a temperatura passou. Aí o que aconteceu?
Biologicamente nós evoluímos de uma maneira que a gente só perde o calor. O corpo humano gera diariamente calor, com a comida que nós comemos, ela gera energia que nós todos precisamos e gera calor. Temperatura nossa 30°C e da pele 35°C internamente, 36, 36,5°C. Então, como que a gente perde calor?
75% da maneira que a gente perde calor é a transpiração. A água vem para a pele, o corpo está quente, ele aquece a água, ela evapora. Então, a evaporação tira o calor. Quando o ar está frio, abaixo da nossa temperatura, 35 graus, nós irradiamos, nós jogamos calor. E 5% vêm da respiração. A gente troca calor também a respiração.
Agora, quando a temperatura fica acima do corpo humano, acima de 35°C e o ar que está saturado de vapor d'água, está muito úmido, a gente não respira mais. E quando o ar está muito quente, é o ar que joga calor pra gente, não a gente que joga pro ar. Essa situação, uma pessoa muito idosa, um bebê, uma criança muito novinha, uma pessoa doente, só sobrevive meia hora se não conseguir perder calor.
E um adulto, uma adulta super saudável, 2 a 3 horas. Então, se o planeta chegar a 3 ou 4 graus em 2100, toda a região equatorial do nível do mar, ela fica inabitável, porque todos os dias passará desse limite. Aqui, Sudeste do Brasil, mais de 120 dias principalmente no verão, inabitável. Mesmo latitudes médias, inabitável.
Então, esse é um enorme risco que o planeta corre se nós não rapidamente reduzirmos as emissões. Se a gente continuar aquecendo o planeta, tem uma quantidade gigantesca de metano que está no fundo dos oceanos, principalmente no oceano Ártico. E isso está lá há uma quantidade gigantesca de anos.
Se a gente aquecer o Oceano Ártico 3°C, ele vai liberar uma quantidade gigantesca de metano. Se isso acontecer, se a gente chega em 2100 com 3, 4°C mais quente no planeta, até 2150 a gente já terá aquecido o Ártico. E ele vai liberar uma quantidade tão grande de metano, a temperatura em 2150 pode ser 8 a 10°C mais quente. Aí é a total, praticamente, extinção de espécies.
Vai ser a sexta extinção de espécies. As cinco primeiros foram naturais, fenômenos naturais. Essa será a primeira causada por um ser, nós.
Recentemente, o MapBiomas, que é uma organização que faz estudos sobre mudanças no uso do solo, divulgou um levantamento mostrando que as florestas, e não mais as formações campestres, foram as que mais queimaram na Amazônia no ano passado, indicando que está acontecendo uma mudança na estrutura da floresta. Essa informação foi confirmada pelo próprio Ministério do Meio Ambiente para falar do aumento do desmatamento em maio. Eles disseram que agora os satélites estão pegando as áreas queimadas também. Pergunto ao senhor, o quão longe a gente está deste ponto de não retorno na Amazônia? Se o senhor tivesse que escolher uma política pública prioritária para evitar isso, qual seria?
A sua pergunta é muito importante, até estava preparado para falar nisso, que como eu falei, eu fui o cientista, o primeiro cientista que falou do ponto de não retorno da Amazônia, nunca acabei de estudar. Vários alunos meus de doutorado fizeram tese sobre o ponto de não retorno. E nós estamos na beira do ponto de não retorno. Há inclusive alguns cientistas que falam que a gente praticamente pode ter passado em partes da Amazônia. Então deixa eu te explicar.
O ponto de não retorno, os estudos que nós fizemos, ele dizia o seguinte: Se a gente ultrapassar 20% de desmatamento da Amazônia, substitui a floresta por pastagem da pecuária, por soja, e se o aquecimento global passar de 2 graus, quando o aquecimento aumenta, ele está fazendo todos os eventos extremos no mundo ficarem mais extremos. Na Amazônia, as secas. Elas ficaram muito extremas. Antes nós tínhamos uma seca a cada 20 anos, uma seca forte. Agora nós tivemos quatro secas fortíssimas em 20 anos, 2005, 2010, 2015/16, 2023/24, essa a seca mais forte da história da Amazônia. Então, esse é o que os nossos estudos indicavam. Que nós estamos com 18% de área desmatada.
Nós temos mais de 30% de áreas degradadas e o aquecimento está chegando em 1,5ºC, pode chegar em 2°C até 2050, até mais em 2°C. Então, por que nós podemos dizer que nós estamos na beira do ponto do retorno da Amazônia? Porque em 45 anos em todo o sul da Amazônia, do Oceano Atlântico, Sul do Pará, Norte de Mato Grosso, Sul do Amazonas, Rondônia, Acre, Mato Grosso, Bolívia, mais de 2,3 milhões de quilômetros quadrados, os nossos estudos todos mostraram que a estação seca em 45 anos, ela já ficou de 4 a 5 semanas mais longa.
Ela está ficando uma semana mais longa por década. Duas, três décadas para frente, chega a seis meses. Seis meses de estação seca, esse é o envelope climático do Cerrado. É o nome é Savana Tropical. O Cerrado evoluiu desde que os Andes se formaram, começaram a se formar 40 milhões de anos atrás, sempre com uma estação seca longa. Essa é uma evolução ecológica do Cerrado. Amazônia não. Então, é isso.
Outro aspecto, A mortalidade de árvores em 50% da Amazônia está aumentando muito. Estudos recentes de uma grande cientista do Inpe, Luciana Gatti, e eu sou coautor, mostrou que o sudeste da Amazônia, o Sul do Pará e o Norte do Mato Grosso, ali a floresta já virou fonte de carbono. O que é isso?
É que quando a gente aumentou a concentração dos gases de efeito estufa, o gás carbônico, a fotossíntese é mais eficiente em todas as plantas do mundo. Com mais gás carbônico, a fotossíntese é mais eficiente, remove mais gás carbônico. Então, historicamente, por algumas décadas, todas as plantas do mundo, principalmente as florestas e florestas tropicais, elas removem uma grande quantidade do gás carbônico que nós estamos jogando.
Remove 1/3 do gás carbônico. Senão, a temperatura já tinha passado de 2°C. Na década de 90, a floresta amazônica removia mais de 1 bilhão de toneladas por ano, chegou a remover mais de 1,5 bilhões em alguns anos de toneladas de gás carbônico. Este lugar da Amazônia, o Sudeste, que eu falei, Norte do Mato Grosso, esse estudo da Luciana Gatti mostrou que a floresta ali virou fonte de carbono.
A degradação, a mortalidade, as altas temperaturas, o aumento da duração da estação seca tornaram a floresta fonte de carbono. Quer dizer, ela está ali na beira do ponto de não retorno. Alguns cientistas, não eu e nem a Luciana Gatti, mas alguns cientistas dizem que ali a floresta já passou do ponto de não retorno. Não tem mais. Passou do ponto de não retorno é autodegradação.
Se passar do ponto de não retorno, em 30 a 50 anos nós vamos perder 50% a 70% da Amazônia. Então, aí eu vou responder a sua pergunta. Por que eu, a Luciana e outros cientistas acreditamos que é possível salvar a Amazônia? Mas o que nós precisamos? E aí nós temos lançado muitas ideias de soluções baseadas na natureza. E para salvar a Amazônia, nós falamos de quatro soluções baseadas na natureza.
A primeira é zerar o desmatamento, a degradação e o fogo. É política do governo brasileiro e muitos governos dos países Amazônicos de zerar todo o desmatamento até 2030. Boas notícias, tivemos uma grande redução do desmatamento aqui na Amazônia, em toda a Amazônia, quase toda Bolívia, menos 2023/24, o Brasil reduziu em mais de 50% o desmatamento, mas como você bem mencionou, o MapBiomas mostrou, o sistema do Inpe chamado DETER mostrou um recorde de fogo na floresta.
Porque historicamente sempre o gigantesco número de incêndios, fogo na Amazônia, era desmatamento. A prática na Amazônia desde a ditadura militar dos anos 70, desmata, deixa secar aquela floresta caída lá, as árvores todas caídas por 2 meses para secar bem e bota fogo para liberar todos os nutrientes, porque o solo da Amazônia é tão pobre que isso que era a base para fazer a pastagem. Isso é uma história de mais de 50 anos. Só que agora, pela primeira vez, foi visto um recorde de número de fogo, como o MapBiomas mostrou e o sistema de DETER do Inpe, na floresta.
E o sistema DETER do Inpe mostrou um dado superpreocupante para maio desse ano na Amazônia brasileira. A área que foi considerada pelo sistema do Inpe, DETER, desmatada, pela primeira vez, a área que não foi o corte raso de uma pessoa como motosserra, a área que ficou desmatada pela sequência de incêndios, um incêndio atrás do outro, ano por ano, 2022, 23, 24. Em 2024, a Amazônia Brasileira teve 140 mil incêndios. E 1/3 desses incêndios dentro da floresta, dentro da floresta. Não é o pecuarista que vai usar o fogo.
O MapBiomas mostrou outro dado muito preocupante agora em 2024: 55% dos incêndios que começaram na pastagem da pecuária, eles escaparam e entraram dentro da floresta. Há uma suspeita muito grande que foi criminoso. E aí, então, pela primeira vez, a Amazônia Brasileira, 960 km quadrados desmatados em maio, 51% foi a degradação do incêndio, não foi o corte raso, pela primeira vez na história. Então, o que parece que está acontecendo? É que quase toda essa terrível economia da Amazônia foi ligada ao crime. Ao crime organizado.
A gente sabe que há muitas e muitas décadas existe o mercado ilegal de terras. Se vai, desmata uma área, planta a pastagem, bota o boi, vende aquela fazenda da pecuária ilegalmente. São terras públicas. E depois o Congresso Brasileiro, muitas vezes, desde 2012, quando se modificou o Código Florestal, ele aprova e legaliza essas áreas.
Então, isso está acontecendo, infelizmente, aconteceu muito, por muitos anos. É o crime organizado. E aí, como em 2023, 24, praticamente todos os países da Amazônia, um pouco menos ou bastante menos a Bolívia, combateram o desmatamento, reduziram em toda a Amazônia, aí o crime organizado está fazendo o quê? Ele está colocando fogo. Por quê?
Os sistemas de satélite só detectam o fogo quando a área sendo queimada atinge 30 a 40 metros quadrados. Se alguém coloca o fogo ali minutos depois, ele não pega, só quando atinge 30 a 40 m. Isso leva de 1h30 a 2h. Então, leva na base 2 horas para detectar aquele incêndio. O crime organizado sabe disso. O crime organizado usa demais inteligência artificial. Eles têm um apoio gigantesco de inteligência artificial. E é por isso, porque o desmatamento, o satélite pega também. Só que leva dias a semanas para desmatar. Então, o satélite pega, aquela equipe lá desmatando, é isso que fez o Ibama e muitas polícias, etc.
O Inpe pega o desmatamento no mesmo dia que está acontecendo. Ele informa ao Ibama, imediatamente, diariamente, e aí o Ibama manda, e por isso que diminuiu muito o desmatamento em 2023 e 2024. Que o Ibama ia lá e interrompia o desmatamento. Essa foi a razão principal. Então, a nossa hipótese, não fácil demonstrar, porque o crime organizado faz tudo escondido. A nossa hipótese é que agora o crime organizado está usando o fogo para combater o sucesso da redução do desmatamento.
O senhor falou que a gente consegue salvar a Amazônia, mas com quatro medidas. O senhor falou sobre o desmatamento. Resumidamente, poderia falar as outras três, quais são?
Só para dizer, tem que zerar o desmatamento, a degradação. Como eu falei, o principal fator de degradação agora, nos últimos dois anos, tem sido o fogo. E o fogo é muito controlado pelo crime organizado, então tem que lutar. O Brasil e os países Amazônicos na cúpula dos países Amazônicos em agosto de 2023 em Belém, criou uma política de criar um sistema policial internacional de todos os países da Amazônia, foi há poucas semanas criado lá em Manaus. O Fundo Amazônia do BNDES colocou um monte de dinheiro lá, e tem que ver um sucesso grande de combater.
Segunda parte da solução baseada na natureza é restaurar. Quer dizer, nós temos que zerar o desmatamento, a degradação e o fogo e restaurar imensa área, principalmente a área desmatada e degradada. O BNDES lançou na COP 28, fui eu até que levei essa ideia para o BNDES, eu sou membro do conselho de administração do BNDES, ele lançou o Arco da Restauração.
Nós, cientistas, criamos essa importância de criar. A gente chamou Arcos da Restauração. Um é o Sul todo da Amazônia Desmatada, o outro é os Andes Desmatados. Colômbia, Equador e Peru, essa é a área que tem a maior biodiversidade da Amazônia, portanto, a maior biodiversidade do mundo. A Amazônia tem. Então, nós lançamos esse projeto. O BNDES e o governo federal aprovaram a ideia e foi lançada na COP 28 em Dubai, eu estava presente, e esse plano do Arco da Restauração é 240 mil km quadrados para restaurar entre agora e 2050. 60 mil km quadrados até 2030 e outros 180 mil km até 2050. 240 mil km quadrados é quase o tamanho do estado de São Paulo. É absolutamente necessário.
Por que quando você restaurar a floresta, você ganha um serviço ecossistêmico que você perde quando você tira a floresta, que é a reciclagem da água. Floresta tropical, floresta Amazônica, recicla tão bem a água, de 30% a 40% de toda a chuva na Amazônia é explicada pela reciclagem da água pela floresta. Então, essa estação seca ficando mais longa, tem muito a ver também com essa pastagem. Tem a ver com as secas severas do aquecimento global e tem a ver com a pastagem. Então, esse é o segundo ponto.
O terceiro e o quarto ponto é o que fazer na economia da Amazônia. Nós estamos propondo e o Governo Federal e o Ministério do Meio Ambiente têm apoiado muito, que a gente chama a sociobioeconomia com a floresta em pé, os rios fluindo. Outro nome que se dá é a bioeconomia da sociobiodiversidade. Então, o potencial dessa sociobioeconomia é muito maior do que pecuária e soja, muito maior.
Fizemos um estudo aqui em São José dos Campos e com um pós-doutor que trabalha comigo, Diego Brandão, e mostramos que o potencial de você ter inúmeros produtos da biodiversidade é três a sete vezes mais lucrativo do que a pecuária. E emprega 10 a 20 vezes mais funcionários do que a pecuária. Só para dar um exemplo e mais lucrativo que a soja e emprega muito mais.
E o quarto é o que a gente chama a valorização do conhecimento dos povos indígenas e comunidades locais. Os indígenas chegaram na Amazônia 14 mil anos atrás. Em 11 mil anos eles já estavam praticamente em toda a Amazônia. Eles nunca acabaram com a floresta, nunca desmataram, faziam pequenos desmatamentos para fazer ali alguma produção agrícola de pequena escala, ali para a comunidade, mas eles normalmente faziam um pequeno desmatamento. 20 anos depois eles abandonavam e a floresta recrescia ali, eles faziam um novo pequeno desmatamento. A ciência indígena foi muito importante, principalmente as mulheres. No povo indígena, as mulheres eram cientistas.
Só para dar um número interessante, a gente fala cacau, que é uma espécie da Amazônia. As mulheres indígenas criaram 1.300 variedades dessa espécie do cacau. Os incas, as mulheres dos incas, criaram centenas e centenas de variedades da batata. E muita variedade da mandioca, do açaí, da castanha etc. Isso é ciência. Ciência indígena. Eles sempre mantiveram a floresta, aumentando o plantio e esses são os sistemas agroflorestais. Os indígenas da Amazônia utilizaram mais de 2.300 produtos da biodiversidade da Amazônia, 1.500 plantas medicinais, 300 frutas comestíveis, óleos, tudo isso e sempre mantiveram a floresta. Então, a gente precisa aprender muito com o conhecimento dos povos indígenas e comunidades locais.
Muito interessante, os escravos africanos que foram trazidos da África e foram os primeiros a desmatar a Mata Atlântica, os portugueses queriam acabar com a Mata Atlântica, para fazer pecuária, depois café, quando eles abandonaram, fugiram e criaram os quilombos, eles aprenderam tudo com os indígenas. Todas as comunidades quilombolas lá da Amazônia e outras partes do Brasil, eles sempre mantêm a biodiversidade. Lógico, eles trouxeram também a cultura da África. Mas então só para mencionar, esses são as quatro soluções baseadas na natureza para salvarmos. E temos que fazer ontem. Isso tem que ser feito muito rapidamente.
Professor, o senhor classificou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como o primeiro ponto de não retorno sociopolítico, o “Trumping Point”. O fenômeno do fortalecimento de políticas populistas e negacionistas climáticos representam um risco à humanidade?
Muito. Um altíssimo risco para a humanidade. Por coincidência, hoje eu dei uma palestra para centenas de estudantes do ensino médio dos Estados Unidos. Eu dei uma palestra exatamente do que nós estamos conversando aqui, a Amazônia. E aí, no fim da palestra, eu dei um conselho para eles. Eu falei: "Olha, vou dar um conselho que não é a Amazônia. Vou dar um conselho". É todo ensino médio ali, hein? Todas as crianças. O mais novinho ali tinha 13 anos até 17. Eu falei: "Vou dar um conselho para vocês”. Quando vocês começarem a votar, não votem mais em candidatos negacionistas. Senão, o mundo pode desaparecer. E é um pouco isso, né?
É uma pergunta que está sendo feita mundialmente, não é só nos Estados Unidos, não, mas políticos populistas e muitos negacionistas como esse presidente dos Estados Unidos, eles estão ganhando eleições em todo mundo. Não é só nos Estados Unidos, não, aqui no Brasil também, país europeu, africanos. Então, esse é um enorme risco.
Por que em democracias nós estamos elegendo políticos como esses? Esse é um absurdo. O país que mais investiu em ciência de mudança climática foi os Estados Unidos, sempre foi. Então, como é que um país que tem uma ciência tão forte, uma das primeiras coisas que esse presidente fez foi demitir milhares e milhares de cientistas das principais instituições federais.
Eu fiz meu doutorado nos Estados Unidos, trabalho há 40 anos em parceria na ciência Amazônica com eles, eu mesmo não sabia, uma coisa que me surpreendeu, eu não sabia que um presidente pode demitir funcionário público. O nosso presidente não pode. Presidentes de países europeus não podem. Aí eu falei: "Não, isso é ilegal, não". Aí depois eu descobri que não, nos Estados Unidos o presidente pode fazer o que ele está fazendo. Então são coisas assim que não pode acontecer. Não pode acontecer.
Os Estados Unidos são o país que mais emitiu gás efeito estufa historicamente, 20% de todas as emissões de 1850 até o presente. Hoje é o segundo país. China passou os Estados Unidos, como o primeiro emissor por algumas décadas. Mas o que eu vejo é que nós temos que lutar muito contra esse presidente e aí vem a COP 30, nossa grande oportunidade, por sorte é no Brasil.
Então, nós temos que trazer todos os países e eles têm que agora ter uma atividade muito produtiva, muito rápida, muito eficiente para com combater toda a emergência climática que nós estamos vivendo e isolar completamente esse governo americano. Então, eu estou otimista, eu não estou pessimista, porque muita gente fala: "Não, agora que os Estados Unidos está fora, então, eu não vou no meu país, não vou fazer isso". Não, o risco é o contrário.
Agora que os Estados Unidos por alguns anos está fora, nós temos uma responsabilidade até muito maior de começar a reduzir as emissões, zerar tudo que tem emissões, 75% são combustíveis fósseis. Aliás, deixa eu dar outro dado para você, que é uma surpresa, eu sei isso há muitos anos. É que pouca gente sabe, a ciência sabe disso há muito tempo. Mas por que as populações não percebem que a queima de combustíveis fósseis, o carvão, o petróleo, o diesel, gera grande parte da poluição urbana do mundo.
A poluição urbana no mundo leva a 6 a 7 milhões de mortes por ano. A poluição urbana no mundo leva a expectativa de vida das populações nessas cidades com muitos desses poluentes que vêm da queima dos combustíveis fósseis, diminui 2 a 4 anos a expectativa de vida. Um grande estudo do grande cientista da USP, professor Paulo Saldiva, da Faculdade de Medicina, mostrou que o paulistano tem 2 a 4 anos menos expectativa de vida.
Então, quer dizer, lógico, nós temos que zerar o uso de combustíveis fósseis para combater a emergência climática, mas também para melhorar muito a saúde. Melhora, vai melhorar demais a saúde de todo mundo. Então, é um pouco outro fator. Então, é isso. Nós precisamos ir nessa direção e lógico, é cerca de 30% das emissões são da agricultura global. Então, nós temos que realmente fazer a agricultura global e muito na direção do que é chamada agricultura e pecuária regenerativa, reduz muitas emissões, são muito mais produtivas, usa uma área muito menor. O Brasil já tem quase 3 milhões de quilômetros quadrados, com 1,8 milhões de pastagens da pecuária, baixíssima produtividade, quase 1 milhão na agricultura, silvicultura. Então o Brasil também pode ir para a agricultura e pecuária regenerativa, então a gente pode liberar até 2040, 1 milhão de quilômetros quadrados em todos os biomas, inclusive aqui, na Mata Atlântica.
Eu recentemente conversei com o secretário do meio ambiente aqui, da nossa cidade aqui, e eles estão com belíssimas ideias de fazer um projeto que chamaram de o Corredor Ecológico. Ligar a Mata Atlântica da Serra da Mantiqueira com a Mata Atlântica da Serra do Mar. Acreditem, não tem nenhum ligando essas duas Matas Atlânticas. E tem um enorme impacto na biodiversidade, porque quando você não tem essas Matas Atlânticas conectando, então muitas espécies que estão na Mata Atlântica não se comunicam mais com as espécies da Serra do Mar. Essas são ideias, grande restauração florestal de todos os nossos biomas.
Então, é isso, temos que ignorar esse presidente dos Estados Unidos, que na verdade, com todo o respeito, foi eleito, dá para entender como ele foi eleito. Mas, desculpe, mas ele não é um presidente, ele é um ditador.
Quero falar com o senhor sobre a percepção da população em relação às mudanças climáticas. Me lembrei que em fevereiro saiu uma pesquisa do Datafolha mostrando que 34% dos brasileiros ainda não sabem o que são as mudanças climáticas. Por outro lado, a gente tem sentido as mudanças climáticas na nossa pele, no nosso dia a dia, as enchentes do Rio Grande do Sul, tragédia de São Sebastião, incêndios aqui no Brasil e no Norte Global. A gente está vendo um agravamento. Será que esse choque de realidade vai despertar a consciência das pessoas para esse tema?
Olha, quando eu olho todos os nossos cientistas climáticos aqui no Brasil, e eu participei de vários relatórios do IPCC, inclusive do primeiro, de 1990. E aquele relatório, ele já dizia, naquela época, em 1990, que a temperatura tava 0,7 graus mais quente. E já dizia: "Olha, nós não podemos passar de um grau de aquecimento". Para isso, nós temos que zerar as emissões até 2000. Em 2024 bateu todos os recordes de emissões.
Eu me lembro quando houve aquele desastre em 2011, na região serrana do Rio, que matou 918 pessoas naquelas várias cidades ali, Petrópolis, Teresópolis, Nova Friburgo e várias outras cidades. Também naquela época nós cientistas explicamos porque que aquilo estava acontecendo, mas nada mudava, nada mudava. O que é que eu senti que está acontecendo? Agora, segundo semestre de 2023, 2024, primeiros quatro meses de 2025, a temperatura passou de 1,5 graus.
Todos os eventos extremos batendo recorde no mundo inteiro. Agora, pela primeira vez, aumentou muito a preocupação das pessoas. O que eu tenho visto? Por que eu sei que aumentou a preocupação? Porque, pela primeira vez, o sistema de comunicação do mundo inteiro tem mostrado muito mais o que está acontecendo. Já não é uma coisa só de projetar o futuro, é começar a mostrar o que está acontecendo.
Por exemplo, só para dar um número, que antes não se falava muito. O que é o desastre climático que mais leva a mortes no mundo? Ondas de calor. Ondas de calor levam mais de 500 mil mortes por ano, principalmente idosas, idosos, crianças, bebês, crescimento de 5 anos, pessoas doentes, no mundo inteiro, aqui no Brasil também. Só que a onda de calor não é como a chuva intensa que a pessoa morre na hora.
Leva à doença, a grande maioria é hospitalizado e morre depois de dias, semanas. É causadora, mas a ciência sabe disso há muito e muito tempo. Nós, cientistas, estamos sendo chamados para comunicar o que está acontecendo com o clima do planeta. Aqui no Brasil, multiplicou por um fator de quatro ou cinco depois do evento extremo no Rio Grande do Sul do ano passado. Antes, a gente era chamado na hora que acontecia o evento, os cientistas eram chamados, a gente dava explicação, o assunto morria em dias ou horas. Agora não.
Depois do evento Rio Grande do Sul, talvez pela dimensão de serem muitas semanas com aquele sofrimento, vocês se lembram, grandes jornalistas dos meios de comunicação foram lá para a enchente, ficavam em barcos. Isso foram semanas e semanas. Então, aparentemente, isso é uma das explicações porque que aqui no Brasil melhorou muito a comunicação. Então, eu estou otimista, que agora com os meios de comunicação, porque isso é no mundo inteiro, não é só aqui, porque cientistas não são bons comunicadores.
Então, ou meio de comunicação, por exemplo, que vocês fazem, senão não adianta, a gente vem alertando, alertando, alertando... O sexto relatório do IPCC, esse eu não fiz parte, mas ele mostrou que todos esses eventos extremos são nós que estamos causando, isso não é uma variabilidade natural.
Então, eu estou otimista que agora os meios de comunicação estão sendo muito mais eficazes em trazer para todas as populações os riscos do aquecimento global. Não tem nenhum, aqui no Brasil pelo menos, não tem nenhuma rádio, TV que agora vai numa linha negacionista. No passado, o Brasil já teve sistemas de comunicação negacionistas. Agora, felizmente, isso eu não estou vendo mais.
O senhor costuma dizer que estamos diante de uma crise civilizatória e não apenas climática. Como isso muda a forma como deveríamos pensar as soluções?
Com uma mudança radical de comportamento. Por exemplo, o que é mudança de comportamento? Vamos dizer assim, combater a emergência climática. É o que a gente chama o termo técnico: mitigação. É a redução das emissões dos gases de efeito estufa. As tecnologias avançaram tanto que hoje nós podemos não usar mais combustíveis fósseis. Deixa eu dar um exemplo. Eu tenho uma grande sorte, porque o meu orientador de doutorado lá nos Estados Unidos, onde eu fiz no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, MIT, eu estive lá de 77 e 82. Em 79, ele foi a pessoa que foi o líder de um relatório publicado pelas Academias de Ciências dos Estados Unidos sobre exatamente mudança climática, sobre o aquecimento global. E ele lançou esse relatório em agosto em Washington.
Aí quando ele voltou de Washington, lá para onde é o MIT, na cidade de Cambridge, Massachusetts, do lado de Boston, ele chamou os três alunos do doutorado dele, eu e meus dois colegas, e falou o que ele tinha feito, que ele tinha lançado. A temperatura estava 0,42 graus mais quente. E ele falou: "Olha, não podemos deixar a temperatura chegar a 1,5 graus de jeito nenhum".
Ele falou: "Quando a temperatura chegar a 1,5 graus, os furacões que atingem lá o Golfo do México, o Sul dos Estados Unidos, o México, os países, América Central, eles vão atingir um nível em que as velocidades do vento vão comumente passar de 200 km/h”. Veja bem, em 1979, falando que a gente não podia chegar a 1,5 graus.
Então, eu fiquei muito impressionado e resolvi trabalhar muito na minha carreira científica nisso. Mas o que eu fiz? Quando eu cheguei em janeiro de 83 aqui, terminei meu doutorado lá, cheguei em janeiro, arrumei um belo emprego no Inpe. Aí o que eu fiz? O primeiro carro que eu comprei, naquela época não era esse carro híbrido, era um carro a álcool. Já cheguei a 42 anos e meio, eu nunca pus um litro de gasolina no meu carro. Agora é híbrido. E eu agora vou comprar um carro elétrico. Então, eu só dei o meu exemplo, mas agora todo mundo.
Se você olhar hoje, os carros elétricos e os carros também esses chamados híbridos, eles já são mais baratos, porque o preço é o mesmo para comprar, mas quando você põe eletricidade na bateria, você paga menos de 50% do preço de colocar gasolina, o diesel. Então, é isso que eu digo, a pessoa precisa ter essa atitude. E agora deixa eu dar o outro dado para a atitude do brasileiro.
70% das nossas emissões não são combustíveis fósseis, são desmatamentos, com 50% historicamente, e agropecuária, principalmente o boi. O boi faz a fermentação, todos ruminantes, fazem a fermentação da vegetação que eles comem no rúmen e eles arrotam metano. A ciência sabe muito bem.
Bom, então, nós somos um dos um dos maiores consumidores de carne do mundo. E hoje já existe a agricultura pecuária regenerativa. Ela, a pecuária regenerativa, tem já fazendas pecuárias regenerativas que a emissão é quase zero, porque por mais que o boi arrote metano, eles fazem um sistema de criar a pastagem que absorve carbono. Então, já tem lugar que quase a emissão é zero. Hoje já existem na ordem de 15% das fazendas pecuárias brasileiras são a pecuária regenerativa. Zero desmatamento. Eles mantêm árvores no meio da pastagem, porque o boi e a vaca adoram sombra. Quando você tem a sombra, o boi e a vaca, o boi de abate, ele engorda 200 g a mais por dia. E a vaca leiteira, 10 a 20% mais de leite. Então, economicamente faz todo sentido.
Então, só para mostrar, isso já existe. O que é que o consumidor tem que fazer? Já existe um monte de local que vende essa carne da pecuária regenerativa. O preço é o mesmo. Então, é isso que eu estou falando, tem que tomar uma consciência que nós podemos ir nessa direção. Esse é no sentido da mitigação. E o outro, obviamente, que nós todos temos que tomar, é a adaptação. Por exemplo, aquele dado que eu dei para vocês, o que mais leva à morte no mundo são as ondas de calor. Elas não param de crescer. Então, todos nós temos que estar muito preocupados. Pessoas idosas, principalmente mulheres acima de 80 anos, não enfrentam uma onda de calor. Quem é rico tem ar-condicionado. Mas só 22% das residências brasileiras tem ar-condicionado. Então, por exemplo, vamos pensar em adaptação. Essa precisa mais por políticas públicas.
Por exemplo, a Europa teve uma super onda de calor, 22, 23, 24. A de 22 levou a 70 mil mortes. A de 23 a 50 mil mortes. A de 24 já diminuiu. Por exemplo, vamos pegar um bom exemplo, a cidade de Barcelona, na Espanha. Morreram milhares de pessoas. Aí, o que é que eles fizeram? Eles fizeram um grande número de locais que, quando tem onda de calor, todas as pessoas com risco de vida, idosas, idosos, crianças, pessoas doentes, elas são convidadas a ir para esses locais. Esses locais têm piscina, ar-condicionado, alimentação, apoio médico. Então, eu só estou dando um exemplo de adaptação, porque não vão parar mais essas ondas de calor. Aqui no Brasil, nós precisamos fazer isso também.
E é lógico, olhando já na escala de média, vamos dizer assim, décadas para frente, nós temos que fazer a restauração vegetal das cidades. O Brasil é um dos países que menos tem vegetação nas cidades, por exemplo, aqui tem uma briga imensa aqui em São José dos Campos, porque tem tendências de pegar os parques que nós temos ainda com Mata Atlântica e cortar e vender aquilo para o setor imobiliário, aquela coisa toda. Então nós temos que batalhar muito com relação a isso. Então, é isso um pouco.
Eu estou dando um exemplo aqui das ondas de calor, mas é lógico, quando você tem uma vegetação muito grande na cidade, o solo da vegetação onde tem as árvores, ele retém água, diminui demais a inundação, o alagamento. Hoje já existem formas de asfalto que ele deixa percolar 50% da água que cai. Diminui muito os alagamentos.
Então, você mesmo fala falou: mortes por chuva, sem dúvida, sem dúvida. Tivemos 184 mortes no Rio Grande do Sul ano passado. A grande maioria foram deslizamentos de encostas, mas também afogados. Aqui tivemos aqui em fevereiro de 2023, praticamente todos foram deslizamentos de encosta de São Sebastião, no Litoral Norte aqui do estado de São Paulo.
É possível sim ir muito nessa direção também das chuvas intensas com a restauração florestal. Uma aluna de doutorado minha do curso da UNESP do Cemaden aqui em São José dos Campos de desastres naturais, ela está fazendo exatamente o estudo para fevereiro de 2023 para ver se muitos daqueles deslizamentos ali em São Sebastião se originaram quando o topo da Serra do Mar ali ele é desmatado. Toda vez que você tem desmatamento no topo, ele começa auxiliar muito o deslizamento.
Por exemplo, em 2011, um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aqueles que mataram 918 pessoas, mostrou que mais de 80% dos deslizamentos se iniciaram em topo daquela montanha desmatada. Então, só Serra do Mar ali desmatada. Então essas são várias atitudes que têm que ser tomadas imediatamente.
A conferência do clima da ONU vai acontecer no Brasil em novembro, e o país, ao escolher Belém como sede, mandou um sinal ao mundo de que as florestas são importantes, que eles querem colocar as florestas para o centro do debate. Por outro lado, o Brasil tem tomado várias decisões domésticas que vão com contra essa posição de líder climático que ele quer assumir, a exemplo do leilão de abertura de novos blocos de exploração de petróleo e gás, inclusive no Amazonas. O que vai fazer a diferença realmente para que esse encontro, para que a COP 30 deixe um legado real para a luta climática e também para o Brasil?
Sem dúvida, a COP 30 será a mais importante das 30 COPs. Quando a gente olha as 29 COPs anteriores, as que tiveram mais impacto, foi no Acordo de Paris de 2015, foi a COP 21. Porque foi a primeira vez que todos os países concordaram em se autodeclarar a redução das emissões. Chamadas metas de redução dos países, em inglês NDC's. Aí depois a COP 26 em 2021 em Glasgow, na Escócia, ela acelerou aquelas metas. Por quê? Porque como eu falei, o relatório do IPCC mostrava em 2018, que não podemos passar de 1,5 graus e o acordo de Paris dizia: "Não podemos passar de dois". Idealmente 1,5, mas não podemos passar de dois.
E falava: "Vamos reduzir em 70% as emissões até 2050 e zerar as emissões até 2100". Isso poderia passar de dois. Aí, a COP 26 falou: "Não podemos passar de 1,5". Aí, o que a ciência indicava naquele ano? Nós teríamos que reduzir 43% das emissões até 2020, 2030, e zerar o saldo de emissões até 2050. Isso é o que a ciência mostra. Só que como a temperatura aumentou mais rápido, então, o risco que a ciência está mostrando, se a gente não reduzir muito rapidamente as emissões agora, o risco de atingir 1,5 graus pode ser agora até 2030, até 2033, 2035, não 2050.
Então se a gente atinge 1,5 graus agora nos próximos anos, antes de 2035, nós podemos atingir 2 graus ou mais em 2050, é aquilo que eu estava explicando, a gente vai perder a Amazônia, vai perder o permafrost, temperatura vai acelerar demais. Isso tudo que a ciência está mostrando agora, portanto, assim como o Acordo de Paris e a COP 26, a COP 30 terá que ser tão importante de perceber o risco, e agora nós vamos ter que realmente os países ali vão ter que concordar em reduzir as emissões muito antes de 2050.
O presidente Lula foi muito brilhante no discurso final da reunião do G20 no Rio de Janeiro em novembro 2024, quando ele falou: "Os países têm que zerar o saldo de emissões em 2040, no máximo 2045, não mais 2050”. Eu diria que é 2040.
Nós, cientistas aqui, estamos realizando um estudo, vamos lançar agora em breve, que nós demonstramos que o Brasil tem toda a condição de zerar o saldo de emissões em 2040, não 2050. Então, esse é um aspecto muito importante da COP 30, é os países todos concordarem em acelerar a redução das emissões, principalmente países que emitem muito. China é o país que mais emite.
Então, na COP 26, a China falou que ia zerar o saldo de emissões de 2060, não 2050. A Rússia 2060 e a Índia falou 2070. Isso é muito grave. Então, agora esses países todos têm que concordar. O BRICS é muito importante. Os países do BRICS têm que vir na COP 30 com uma missão muito grande. Eu tenho certeza que o presidente Lula, quando visitou algum tempo atrás o presidente da China, eles devem ter discutido isso. A China tem que assumir até porque não pode mais falar: "Não, os Estados Unidos têm que liderar tudo". Agora é um momento crítico.
Então, esse é um aspecto importante. O outro super-relevante da COP 30: o embaixador presidente da COP 30, o embaixador André Corrêa do Lago, ele tem trazido isso com muita força, que é um estudo que foi lançado na COP 29, no Azerbaijão, ele dizia que o mínimo que precisa do Fundo Clima, o fundo verde para o clima, que foi lançado lá atrás em 2010, a ideia, a partir de 2020, 100 bilhões de dólares por ano, atrasou, só em 2022 chegou a 100 bilhões, mas ele falou: "Não, esse estudo mostrou que para combater a emergência climática fazer uma super-rápida transição energética e também gerar recurso para adaptação, eles fizeram um estudo muito bem feito, era 1,3 trilhão de dólares por ano 2026-2035”.
Isso seria essencial para acelerar demais a transição energética. E desses 1,3 trilhão de dólares, uns 500 bilhões por ano para adaptação. Nós temos mais de 2 bilhões de pessoas no mundo totalmente vulneráveis a todos esses eventos extremos, principalmente os países pobres, os países em desenvolvimento. Então, isso foi feito.
Infelizmente, lá na COP 29 no Azerbaijão, eu estava lá nos últimos dias quando isso estava sendo muito debatido, a maioria dos países ricos não concordaram e aquele número foi para 300 bilhões por ano. É muito pouco. E também, veja bem, aquilo foi no ano que o Estados Unidos estavam lá e o Estados Unidos falou que sim, 300 bilhões. Agora os Estados Unidos estão fora.
Então, essa esse número que o embaixador André Corrêa do Lago tem defendido muito, é absolutamente correto. Nós precisamos criar um fundo mundial, mas agora não se pode esperar só que os países mais ricos do mundo vão criar. Todos os países têm que criar. A China já é a segunda economia mundial. A China, antes de 2030, ela passa os Estados Unidos. Ela vai se tornar a primeira economia mundial.
Então, todos esses países têm que contribuir muito. Não pode só esperar que os países super-ricos vão colocar 1,3 trilhão de dólares por 10 anos. E estou otimista que a COP 30, o embaixador ele tem defendido muito isso. Então, esse é outro desafio, mas eu acho que a COP 30 vai avançar muito, que nós não podemos continuar nessa trajetória.
Se o senhor pudesse resumir, professor, um único compromisso obrigatório que o Brasil deve apresentar na COP 30, qual seria?
Eu vou dizer. O Brasil bater o martelo na COP 30, o que o presidente Lula falou no G20, aquele primeiro número que ele falou, o primeiro país de altas emissões, o Brasil – até 2022 nós éramos o quinto maior emissor, agora com a redução das emissões de 2023, 24, redução do desmatamento, estamos lá sexto e sétimo –, o Brasil vai bater o martelo na COP30, o primeiro país de grandes emissões a zerar as emissões líquidas até 2040.
Eu acho que essa é a mensagem que o Brasil tem que levar, porque na hora que o Brasil levar, e sendo um país em desenvolvimento, ele vai trazer os países do BRICS, o primeiro emissor hoje é a China, o segundo é Estados Unidos que está fora, o terceiro é Índia, o quarto é Rússia. Então, o Brasil traz todos esses países para ver juntos, todo o desafio, tecnologias já existem. Se a gente zerar as emissões até 2040, nós vamos melhorar demais, não só a qualidade do combate à emergência climática, a qualidade do ar para a nossa saúde, mas também a economia do mundo vai melhorar muito. Então, é isso que o Brasil, na minha opinião, tem que fazer, zerar saldo de emissões em 2040.
Com essas décadas todas de alerta da ciência que foram ignorados ou minimizados, o senhor acredita que ainda tem espaço para otimismo e no que ele se basearia?
Olha, eu acho que o otimismo meu é porque que não existe nenhuma outra solução. Então, se a gente não for rapidamente nessa direção, como eu falei, eu nem se os meus tataranetos viverão. Assim, eu já tenho dois netinhos, três e quatro anos, quando eles casarem, quando eles tiverem filhos, os bisnetos, os netos deles, talvez não exista mais planeta depois de 2100. Então, nós temos uma emergência. Nunca vivemos essa emergência como agora, nunca nós humanos tivemos uma emergência tão grande quanto essa. Então, nós temos que ter o mundo todo combatendo essa emergência. Não existem soluções simples.
Eu sempre dou o exemplo para as pessoas não pensarem que existe a vacina da mudança climática, como foi, por exemplo, a bela solução da vacina da Covid. Não existe essa solução, porque cada molécula de gás carbônico que a gente joga hoje vai estar, por mais de um século, na atmosfera, ela não sai. Então, não existe uma solução que você resolva tudo amanhã ou quando a tecnologia descobrir, não existe.
Então, nós temos que zerar as emissões. E ainda assim, nós podemos chegar a 1,5 graus, um pouco menos, lá em 2100. Então nós temos que realmente tornar bilhões de habitantes do mundo muito mais resilientes a todos os eventos extremos.