10 de julho de 2026
LÍDER DO ESTADO

Como é a rotina de Felicio como governador: 'Fazer a diferença'

Por Xandu Alves | São Paulo
| Tempo de leitura: 7 min
Leandro Berti:OVALE
Felicio em seu gabinete

A responsabilidade embalada em madeira.

No imenso e histórico Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, Felicio Ramuth (PSD) tornou-se pela 11ª vez governador em exercício de São Paulo, substituindo, nesta última semana, o titular Tarcísio de Freitas (Republicanos), que saiu em viagem.

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Na ampla sala número 172, de cerca de 40 m² no primeiro andar do edifício construído entre 1955 e 1964, quando tornou-se sede do governo paulista e ganhou o nome Bandeirantes, Felicio despacha como governador em exercício. É ali mesmo que ele trabalha em seu cargo original, vice-governador de São Paulo.

A sala é uma das poucas que mantém a cor original da madeira, enquanto que do lado de fora parte das paredes das alas internas do palácio foram pintadas de cinza e as portas de preto, na passagem do então governador João Doria pelo cargo. As cores originais estão sendo restituídas.

“Aqui é uma sala bastante emblemática”, diz Felicio a OVALE, que o visitou na última terça-feira (7) para uma entrevista exclusiva direto do seu gabinete. Neste domingo (12), OVALE publica a entrevista na íntegra.

Pela sala passaram vários outros vice-governadores, mas o último a ocupar o ambiente foi o ex-ministro da Economia Henrique Meirelles, na época secretário da Fazenda do governo Doria. “Na época, o vice-governador ficava no andar de cima, porque houve uma diminuição da ala residencial na época do governador Dória”, conta Felicio.

Gabinete.

A sala 172 de Felicio está numa das laterais da fachada frontal do prédio histórico e fica abaixo da sala do governador Tarcísio de Freitas, no segundo andar.

Com amplas janelas e portas-balcão, o governador em exercício pode sair da sala e andar pela varanda e contemplar as árvores dos jardins do Palácio e do bairro do Morumbi. Palmeirense roxo, Felicio consegue escutar os torcedores são-paulinos em dias de jogos no estádio tricolor, nas proximidades. Para compensar, colocou um item de decoração com o símbolo do Verdão num dos móveis na antessala de seu gabinete.

A mesa de trabalho de Felicio é de madeira com tampo de vidro e não tem quase nenhuma decoração, a não ser o livro “Gênesis”, do fotógrafo Sebastião Salgado, que ele ganhou de presente. Itens espalham-se por ali: pastas, papéis, jornais, computador e canetas.

A sala é a única do Palácio a manter o estilo original, com as paredes de madeira. A cor é a mesma do relógio de pêndulo de 1780, que ainda funciona e tem o tamanho de um adulto, maior relíquia do gabinete. O histórico equipamento badala a cada 15 minutos, com avisos sonoros mais intensos nas horas cheias.

Felicio também gosta da moderna cafeteira elétrica, de sua propriedade, que fez questão de trazer para o gabinete e com a qual faz questão de servir café a quem recebe, como prefeitos, parlamentares e autoridades.

Na grande mesa de reuniões, num dos cantos do gabinete, Felicio colocou a diminuta réplica do Monumento às Bandeiras, que ganhou do deputado estadual Carlão Pignatari, então presidente da Assembleia Legislativa por ocasião da posse de Felicio e Tarcísio. Ambos receberam a miniatura em 1º de janeiro. A escultura original é de Victor Brecheret e decora o Parque do Ibirapuera. “Tenho apreço pela democracia”, afirma Felicio, sobre a relação com o parlamento.

Lembrando-se da posse, o ex-prefeito de São José dos Campos disse que foi o momento mais feliz do mandato, ao menos até agora. “O momento mais feliz, acho que foi na posse. Foi no dia que tomamos posse”, diz.

O mais triste foi a tragédia em São Sebastião, em fevereiro de 2023, quando 64 pessoas morreram em decorrência das chuvas. “É algo no começo [do governo] e muito triste. Foi o momento mais difícil, e o governador era a pessoa certa, no lugar certo”, afirma Felicio.

“Ninguém melhor do que ele para estar naquele momento coordenando os trabalhos. Ele já foi militar, engenheiro e era governador, estava na hora certa, no momento certo, com ações que foram muito assertivas.”

Trabalho.

Sobre o trabalho, Felicio, que mora perto do Palácio, diz que seu dia não tem hora para começar e nem acabar, embora a programação seja rigidamente definida, em razão da segurança. O expediente, que deveria encerrar por volta de 19h, quase sempre vai além.

“Posso ter entrevistas pela manhã, reuniões à tarde e no período noturno. Ou passar o dia em agenda externa, o que mais gosto”, conta. Apenas na última semana, ele passou por três cidades do Vale do Paraíba, cumprindo agenda como governador em exercício em São José dos Campos, Guaratinguetá e Cruzeiro.

“O melhor é fora daqui. Quanto menos estiver aqui dentro, melhor. Eu tenho certeza e sempre disse isso. Inclusive quando critiquei outros governos e governadores. É importante sempre estar nas ruas para que a gente tenha a sensibilidade. Eu gosto muito de viajar como governador”, afirma.

Algumas vezes por mês ele despacha em um escritório montado no centro paulistano, para acompanhar os trabalhos na Cracolândia, como um dos líderes da força-tarefa, ao lado da Prefeitura de São Paulo, para resolver o drama histórico dos dependentes químicos.

Com a agenda cheia de visita a obras e projetos do governo estadual, como no Metrô em São Paulo, Felicio conta que Tarcísio costuma dividir as inaugurações com ele. “Há entregas onde ele não consegue estar e pede para que eu participe ou até mesmo alguns secretários. Em alguns casos, em algumas regiões, ele faz questão que eu também participe”. Ao assumir o cargo, ele passa a atender a agenda de Tarcísio.

“A rotina não muda muito quando eu sou o governador em exercício. Claro, há mais responsabilidades, mas a todo o momento, quando preciso, eu aciono o governador”, diz ele. “É a décima primeira vez que eu assumo como o governador, então é uma passagem de bastão, a gente não costuma fazer nem uma entrega. Nem uma cerimônia. É bem informal”.

A maior parte das reuniões é feita na própria sala de Felicio. Quando há necessidade de mais espaço, ele ocupa outras salas e salões do Palácio, além de visitar secretarias e a Casa Civil. “Costumo receber comitivas internacionais, às vezes empresários, um grupo maior, aí nós temos o Salão dos Pratos. Temos os salões que a gente recebe e compartilha aqui no Palácio”.

Segundo ele, que liderou a população de mais de 700 mil habitantes de São José, a responsabilidade como governador em exercício do estado de mais de 40 milhões de habitantes é muito maior, mas a pressão era pior no cargo de prefeito.

“Eu diria que como prefeito a pressão do dia a dia é até muito maior do que é como governador, porque você está mais perto da população, da sensibilidade da população. Mas óbvio que a carga de responsabilidade é muito grande porque a gente faz questão de manter esta gestão próxima das pessoas”, afirma.

Sobre o melhor em ser governador ou vice-governador de São Paulo, Felicio diz que é poder mudar a vida das pessoas. Ele exemplificou com a habitação.

“Nós já entregamos 50 mil unidades habitacionais no estado. Imagina fazer a diferença na vida de 50 mil famílias. Poxa, como é bacana você poder transformar a vida das pessoas fazendo aquilo que gosta, e o que eu gosto de fazer é gestão, eu gosto de fazer política, o governador gosta de fazer gestão, gosta de fazer política”, aponta.

Já o lado negativo é a perda da privacidade, em razão da exigências de segurança. Felicio conta: “Eu perdi a minha privacidade no dia a dia, eu e a minha família. Então, isso é o que mais me incomoda. Eu não posso ir ali na esquina comer meu lanche sem ter todo uma estrutura que está lá para me proteger. Aqueles profissionais que o fazem, e eu tenho um grande agradecimento por aqueles profissionais, o cargo exige que seja assim. Então eu tenho o maior respeito pelos profissionais”.

Felicio diz que nunca sofreu uma ameaça, mas admite que, se sofreu, não ficou sabendo. “Não isso não tem [ameaça], e se tiver também acho que eles nem deixam que eu saiba. E, aliás, eu nem quero saber. Prefiro nem saber”.

Por fim, ele diz que o acompanhamento dele e da família é feito “brilhantemente pela nossa Casa Militar, que é a responsável pela segurança do governador e da sua família e pela minha segurança”.