Duas crianças estão no centro de uma disputa em São José dos Campos que envolve perseguições, denúncias de ameaça e de negligência e uma avó lutando para retomar a guarda dos netos.
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O capítulo mais recente desse drama tem a avó registrando um boletim de ocorrência na Polícia Civil de São José e denunciando o pai de uma das crianças por ameaça, perseguição e violência. Ele nega.
A avó de 60 anos, que é cuidadora, também consultou um advogado para tentar obter uma ordem judicial de busca e apreensão das crianças, que foram levadas da casa dela pelos pais biológicos. A avó acusa os pais de burlar a justiça. Eles negam.
O caso coloca em rota de colisão praticamente três famílias na cidade. Houve até investigação de abuso sexual de pai contra filha e internações por depressão em hospital psiquiátrico.
No centro da disputa estão um menino de 1 ano e três meses e uma menina de 6 anos, irmãos por parte de mãe, que tem 26 anos. O pai do menino tenta obter a guarda na Justiça. A situação da família é tão complexa que eles já passaram por mais de 20 atendimentos no Conselho Tutelar de São José. E a avó acolheu e passou a cuidar das crianças para que a mãe pudesse fazer tratamento psicológico.
Essa história começa com o relacionamento da mãe com o pai da menina. Eles foram casados por cinco anos e se divorciaram. Ela diz que o pai tornou-se “violento e abusivo” e que a mudança “piorou” o quadro de depressão que ela já tinha.
“Ele me internou no [hospital] Francisca Julia e não falou para a minha mãe. Ele ficou com a menina e me deixou internada”, conta.
Após a separação, segundo ela, eles acordaram que o pai ficaria com a menina aos finais de semana. Foi quando surgiu a denúncia de abuso sexual.
“Ela estava ficando doente e reclamou de problema na parte íntima. Levei na UPA do Alto da Ponte e o médico encaminhou para o Hospital Municipal, que examinou e disse que havia vermelhidão na parte íntima, que teria sido mexida.”
A mãe diz que houve um “laudo de tentativa de estupro” e que a criança chegou a "tomar coquetel anti-HIV". “Depois que saí do hospital fui para a DDM [Delegacia de Defesa da Mulher] e ela [filha] recebeu uma medida protetiva”. OVALE apurou que a denúncia foi investigada e arquivada.
Divorciada do pai da filha, a mãe conheceu e começou a namorar outro homem, de quem engravidou do segundo filho. Ela diz que ele também passou a persegui-la ao saber da gravidez.
“Com cinco meses de gravidez tentei suicídio por causa das ameaças e da perseguição dele. O remédio falhou e engravidei. Estava com DIU e engravidei de novo. Depressão só piorando”, conta a mulher.
A mãe diz que os pais das crianças “se juntaram” para obter a guarda dos filhos biológicos contra ela. O pai do menino conseguiu uma decisão judicial para ficar com ele aos finais de semana, pegando na manhã de sábado e devolvendo até o final de domingo. O documento foi mostrado à reportagem pela avó das crianças.
No dia 22 de junho, a avó estava em casa com as crianças, na zona norte de São José, quando os pais apareceram e mostraram a ordem judicial de guarda compartilhada. A contragosto, ela deixou que eles levassem os netos.
Segundo ela, os pais não devolveram as crianças no domingo como determinava a justiça. A mãe acabou novamente internada no Francisca Julia por causa de depressão e a avó tenta recuperar a guarda das crianças.
“Estou há um tempo sem saber das crianças. Sei onde está meu neto, mas não tenho ideia de onde está minha neta. Não consegui falar com eles desde que foram levados”, diz a avó, que quer a guarda definitiva das crianças “para cuidar deles”.
Ela admite que a filha, que está grávida do terceiro filho de um outro relacionamento, foi denunciada no ano passado e as crianças acabaram indo para um abrigo público. A avó constituiu um advogado e disse que pagou mais de R$ 8 mil para tirar as crianças do abrigo.
Os pais biológicos, por outro lado, acusam a avó e a mãe de não cuidarem direito das crianças, que estariam em risco.
Nas redes sociais, a mãe das crianças discutiu com a mulher do pai do menino, de acordo com prints das conversas guardadas pela mãe. Com esse clima hostil, a disputa pela guarda dos irmãos está na justiça.
Procurado, o Conselho Tutelar disse que acompanha o caso, mas que a decisão sobre o destino dos pequenos será da justiça. O órgão disse que não pode deliberadamente resgatar as crianças sem que haja uma ordem judicial.
Após procurar o Conselho Tutelar em 10 de julho, a avó foi até a Polícia Civil e registrou um boletim de ocorrência no começo de agosto. Ela também disse que consultou um advogado sobre a possibilidade de pedir uma ordem de busca e apreensão das crianças na justiça.
Os pais das crianças criticaram a publicação da reportagem. O pai do menino confirmou a disputa pela guarda na justiça, disse que as denúncias contra ele não são verdadeiras e que os irmãos estavam em risco em razão dos problemas da avó e da mãe.
Em razão de se tratar de duas crianças, o caso segue em sigilo e a identidade de nenhum dos envolvidos foi revelada por OVALE.