"Tem que pagar o que ele fez com meu filho".
A frase é da mãe de Cristiano Teixeira de Oliveira, de 39 anos, morto em um acidente na Rodovia dos Tamoios, em São José dos Campos, na madrugada do último sábado (27). Jeni Teixeira, assim como os demais familiares e amigos da vítima, cobram a prisão do motorista do carro de luxo envolvido na tragédia. "Peço a Deus, justiça sim", completou a mãe de Cris, como era chamado pelos parentes.
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Neste domingo, amigos e familiares fazem uma manifestação em homenagem a Cristiano, cobrando justiça. Pai de família e diácono, ele sonhava quitar a casa da família e conseguir garantir um diploma para os dois filhos, agora órfãos de pai e mãe, além de seguir trabalhando como motorista, de preferência, a bordo da boleia de um caminhão, uma de suas paixões.
Após a perda da esposa, que morreu após uma brava luta contra o câncer, depois de três anos de tratamento, Cristiano passou a cuidar sozinho do casal de filhos -- uma adolescente de 15 e um garoto de 8 anos -- na casa da família, financiada por ele. Um de seus sonhos, segundo a família, era quitar a compra. Ver os filhos formados era outra meta do pai, um verdadeiro super-herói para os meninos.
Motorista de profissão, Cristiano amava trabalhar como caminhoneiro. Ele tinha uma atuação destacada como diácono, com 18 anos de atuação na Aliança Cristã de São José, sendo descrito como um homem "ungido por Deus", uma "referência como cristão", um exemplo de pai, marido e amigo.
Parentes e amigos de Cristiano vão realizar um protesto e uma passeata cobrando justiça no dia 5 (domingo), às 14h, com todos vestindo camisas brancas. A OVALE familiares e amigos de Cristiano dizem estar dispostos a ir "até o fim" para que responsável pelo acidente vá para atrás das grades. Eles estão usando a hastag #justicapelocristiano.
O acidente aconteceu por volta de 1h50 de sábado (27) em um acesso à Rodovia dos Tamoios, no Km 8, na altura da Vila São Bento, e foi comunicado à polícia às 2h12. A equipe de resgate foi ao local, onde um carro de luxo -- Volvo XC60 prata -- bateu na traseira da moto de Cristiano, uma JTA/Suzukien. Os veículos ainda estavam na rodovia e Cristiano foi encontrado morto. O motorista do Volvo, o empresário Kelvin Barbosa Ribeiro, fugiu sem prestar ajuda -- de acordo com a defesa, o motorista estava fugindo de dois criminosos, quando atingiu a moto de Cristiano acidentalmente.
Imagens de vídeo obtidas por OVALE mostram o estado do Volvo XC60 prata e da moto JTA/Suzukien envolvidos no acidente que matou Cristiano. Na gravação, é possível perceber a violência do choque. O carro e a moto ficaram 'engatados'. A moto guiada por Cristiano foi atingida na traseira.
TESTEMUNHAS.
Nesta última terça-feira, OVALE esteve no 7º DP (Distrito Policial) e ouviu a versão de testemunhas. Motociclistas e entregadores foram os primeiros a presenciar a tragédia. Eles narram que o motorista do Volvo fazia zigue-zague na Tamoios, em alta velocidade, e atingiu a moto do Cristiano -- a defesa nega. Com o impacto violento, Cristiano caiu.
“Ele passou por cima e foi embora. Ele deixou meu irmão igual um animal na pista”, disse Cristian Teixeira, irmão do Cristiano, em entrevista a OVALE. Segundo Cristian, testemunhas disseram à família, que o Volvo teria passado sobre o corpo da vítima. “O corpo estava muito machucado”, disse Cristian.
Após atropelar Cristiano, o motorista do Volvo, um empresário de 31 anos, seguiu em alta velocidade pela Tamoios, de acordo com as testemunhas ouvidas por OVALE. Com a violência do choque, a moto ficou presa no carro e o motorista seguiu fazendo zigue-zague, na tentativa de fazer o veículo de Cristiano se desprender do Volvo.
Sem conseguir e com a moto ligada, ele seguiu sentido Caraguatatuba, e entrou na alça de acesso para os bairros na região do Putim. Ele passou sob um viaduto na Tamoios e seguiu por mais alguns metros, onde parou com o carro, em uma avenida de acesso ao bairro. Neste momento, uma testemunha ouvida pelo OVALE narra o encontro.
“Eu estava fazendo o sentindo inverso dele na avenida e vi ele parando e descendo do carro. Ele estava 'doidão', com certeza estava embriagado”, disse. O motorista, segundo a testemunha, desnorteado, saiu do carro armado. Olhando para os lados, ele atirou para cima. “Eu fiquei com medo, mas vi ele correndo em uma rua e sumiu”, disse a testemunha que se apresentou ao DP. A capsula da pistola .40 foi apreendida pela perícia no último sábado (27).
DELEGACIA.
Nesta segunda-feira, acompanhado pelo advogado, o motorista do Volvo compareceu ao 7º DP e foi ouvido, sendo posteriormente liberado. O caso está sendo investigado como "homicídio culposo na direção de veículo automotor". A defesa dele afirmou que o cliente está "disposto a ajudar nas investigações". De acordo com a defesa, o motorista e sua família estão recebendo ameaças de morte.
OVALE havia antecipado que a polícia, por meio da placa do Volvo, havia identificado o motorista do Volvo, que fugiu do local do acidente sem prestar socorro à vítima. Como o período de flagrante passou, o dono do carro, não passou por exame de bafômetro. A Polícia Civil pode pedir a prisão preventiva do motorista.
A OVALE familiares e amigos de Cristiano dizem estar dispostos a ir "até o fim" para que responsável pelo acidente vá para atrás das grades. Eles estão usando a hastag #justicaparacristiano. "Um grande homem, exemplo de fé e amor para com todos a sua volta", afirmou o pastor Ademir Junior, do Ministério Aliança Cristã, onde Cristiano era diácono e servia havia 18 anos.
A família da vítima, revoltada, cobra a prisão de Kelvin, que saiu pela porta da frente da delegacia após prestar depoimento. Testemunhas afirmaram que o empresário, dono de uma casa de ferragens, aparentava estar sob efeito de álcool -- a defesa nega, diz que Kelvin não bebe ou usa drogas.
O sentimento de impunidade revoltou a família e os amigos, que prometem lutar para que o motorista do Volvo seja punido. "Isso é um tapa na cara da sociedade, isso mostra o quão abandonadas estão as leis no Brasil, estou revoltada com tamanha crueldade foi este 'acidente'. Não me calarei, vou até o fim, e enquanto não ver a justiça feita não vou sossegar", postou uma prima da vítima.
O fato do motorista do carro de luxo ter sido ouvido e liberado revoltou a família, que pede justiça e lançou nas redes sociais a hastah #justiçapelocristiano.
OUTRO LADO.
O advogado Rodrigo Coelho da Cunha, que defende o empresário Kelvin Barbosa Ribeiro, 31 anos, motorista do Volvo, enviou uma nota à reportagem de OVALE na noite de terça-feira com a versão do motorista sobre o acidente. De acordo com a defesa, Kelvin estaria escapando de uma abordagem criminosa e acelerou o carro, batendo "por uma fatalidade" na moto de Cristiano. Segundo a defesa, o empresário e sua família estão recebendo ameaças. Leia abaixo a nota na íntegra:
"Na condição de advogado do motorista que está sendo investigado pela morte do sr. Cristiano Teixeira Oliveira, que veio a falecer em decorrência do acidente de trânsito ocorrido na Rodovia dos Tamoios, no dia 27/04/2024, temos a informar o seguinte: 1. Enquanto trafegava pela Rodovia dos Tamoios, em direção a sua residência, o motorista percebeu a aproximação de duas motocicletas, tendo uma delas sinalizado em direção ao seu veículo e outra ingressado na contramão em direção ao seu carro para iniciar a abordagem criminosa. Naquele momento, temendo por sua vida, acelerou o veículo com o objetivo de se evadir do local, vindo a colidir, por fatalidade, com a motocicleta dirigida pelo sr. Cristiano Teixeira Oliveira.
2. Assim que ouviu o barulho da colisão, percebeu que a moto havia ficado acoplada ao parachoque do veículo e, sem identificar o motociclista e sem vê-lo caído ao chão, permaneceu em fuga em direção ao bairro mais próximo em busca de ajuda. Informa ainda que possui arma de fogo registrada e efetuou disparo para o alto com o intuito de afastar os criminosos.
3. O motorista informa que se apresentou espontaneamente à autoridade policial, que está colaborando para a elucidação dos fatos e que lamenta profundamente a morte do sr. Cristiano Teixeira, solidarizando-se com a família da vítima e colocando-se à disposição para dar todo o suporte que for necessário.
4. O motorista nunca respondeu a nenhum processo criminal, não faz uso de bebidas alcoólicas ou de drogas e pede para que sua vida pessoal não seja exposta, pois está recebendo ameaças após a ampla divulgação do caso pela imprensa, temendo pela vida de sua esposa e filho.
5. Por fim, esclarece que o motorista agiu em estado de necessidade, sem nunca assumir o risco pelo acidente ou agir de forma negligente ou imprudente, cujos fatos serão devidamente comprovados pelas provas já encaminhadas para a Polícia Civil".