Tá lá o crime estendido no chão, e com foto nas redes sociais.
Dois jovens em uma foto publicada em perfil do Instagram. Há cena mais comum do que essa hoje em dia?
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A imagem, contudo, traz componentes trágicos que revelam onda de adesão de adolescentes e adultos jovens ao crime no Vale do Paraíba, região mais violenta do estado de São Paulo.
Seduzidos pelo falso glamour da ‘vida bandida’, tais jovens se entregam ao cometimento de crimes e compartilham seus feitos pelas redes sociais. Mais do que likes, eles querem mostrar destemor, impor o medo e conquistar o respeito nas ruas.
JOVENS E O CRIME
A Polícia Civil de Cruzeiro identificou jovens envolvidos com atividades criminosas na cidade que usam as redes sociais como ‘vitrine’ de seus crimes. Eles fazem até lives para falar de homicídios que teriam cometido.
Na foto que ilustra essa reportagem, dois jovens de Cruzeiro aparecem segurando armas. Ambos estão presos, segundo a polícia. Um por homicídio e o outro por tráfico de drogas.
Eles fazem parte de gangues violentas que se digladiam pelas ruas da cidade atrás de status e respeito dos pares. Os conflitos têm causado mortes em sequência em Cruzeiro. Na foto, os jovens seguram armas, têm tatuagens pelo corpo e no rosto e estão em uma casa aparentemente de baixa renda.
PERFIL
A descrição revela o perfil identificado pelo delegado João Paulo de Oliveira Abreu, que assumiu a Delegacia Seccional de Cruzeiro em fevereiro de 2022 e dedica-se a compreender a natureza da violência na cidade.
“Há jovens em Cruzeiro divididos em bairros e suas gangues locais, muito caracterizadas por tatuagens, estilo de se vestir, de música, estilo de falar e de se comportar. Eles têm rixas com outros bairros”, explicou Abreu.
O resultado dessa onda de confronto levou Cruzeiro ao posto de cidade com a maior taxa de vítimas de homicídio do estado de São Paulo, com 37,35 vítimas – quase 10 vezes a taxa da capital, que é 4,5. O município do Vale do Paraíba registra 28 mortes por homicídio nos últimos 12 meses.
A cidade bateu o recorde histórico de homicídios em 2021, com 42 mortes. Desde então, os óbitos estão em queda, mas ainda em patamar elevado: 33 mortes em 2022 e 28 no ano passado.
No começo da série histórica da SSP (Secretaria de Segurança Pública) de São Paulo, em 2001, Cruzeiro registrou o máximo de 11 mortes por ano, não mais do que isso.
REDES SOCIAIS
As imagens obtidas pela polícia nas redes sociais revelam como os jovens desafiam as autoridades de segurança ao mesmo tempo em que buscam reconhecimento das gangues. O delegado percebeu uma “subcultura da delinquência” vivenciada por esses jovens.
“Vê-se desenvolvendo uma cultura da violência. Temos casos nos últimos sete ou oito meses em Cruzeiro de sete homicídios atribuídos a uma guerra entre duas partes de um bairro, porque os jovens entraram numa rixa e começaram a se matar”, disse Abreu.
“Aí quando não se encontravam mais, começaram a matar familiares que não tinham absolutamente nada a ver com a rixa entre eles. Mata o pai, depois o irmão e assim sucessivamente”, acrescentou o policial.
Que completou: “Realizando um estudo sociológico, a gente consegue identificar um fenômeno conhecido da criminologia que eu particularmente atribuo à subcultura da delinquência. São pessoas que agem e atuam não em benefício próprio, para obter ganhos materiais, mas muitas vezes simplesmente para impor respeito, impor uma questão de território”.
AMEAÇA
Lives na internet falando de crimes, confrontos nas ruas entre gangues e mortes em sequência, numa rixa violenta que ameaça a população da cidade. Para o delegado seccional, a causa do problema passa além das atribuições da polícia e envolve toda a sociedade, especialmente o poder público municipal.
“Há cerca de duas semanas, um rapaz foi preso e ele tinha seis homicídios praticados em Cruzeiro. Então, essa conduta não utilitária é uma característica de Cruzeiro, e é uma característica dessa subcultura da delinquência.”
Abreu classifica a situação como “um grande desafio” e que exige uma “política transversal” de “todos os atores sociais”.
“A Polícia Civil faz a parte dela da investigação, coletamos indício de autoria, materialidade, fazemos operações de prisões e de mandados de busca. A Polícia Militar faz o preventivo. Só que nós precisamos de todos os atores sociais”, disse.
“Quando a gente fala de cultura, a gente tem problema de educação, familiares, religiosos, sociais. Então, toda essa gama de fatores impacta diretamente na segurança pública. Nós temos que ter esse olhar multidisciplinar para que a gente consiga avançar no campo da segurança pública”, afirmou o delegado seccional de Cruzeiro.