12 de março de 2026
ARTISTA

Conheça as obras de Aurora Cursino, joseense que se tornou artista em um manicômio

Por Da redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação
“A Brazileira”, óleo sobre papel de Aurora Cursino dos Santos

Nascida em 1896 em São José dos Campos, Aurora Cursino dos Santos viveu uma boa parte de sua vida em um manicômio e enfrentou dois estigmas incontornáveis: ser prostituta e portadora de transtornos psiquiátricos. Com mais de 200 quadros produzidos nos anos 40, Aurora se tornou uma grande e notável artista.

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Sua obra, marcada por diagnósticos como "psicose paranoide", "personalidade psicopática amoral", "esquizofrenia parafrênica" e "autismo intenso", foi produzida exclusivamente nas dependências de um manicômio, como apurou reportagem da BBC.

Nos seus quadros, destacam-se as cores vibrantes, caracterizadas por uma fusão de texto e imagem. A caligrafia densa da joseense, em letras maiúsculas, envolve figuras humanas, sobrecarregando-as com frases eloquentes.

Em uma de suas obras nomeada como ‘Nas malhas da lei’, Aurora retrata a praia de Copacabana e o Cabaré Mère Louise ao lado da Igrejinha. Da igreja ao cabaré, ela data a cena entre 1914 e 1918, ela nos informa que começou a sua carreira de prostituta na Cidade Maravilhosa nessa década.

A colônia de pescadores que existe até hoje no chamado Posto 6 é também figurada no quadro em primeiro plano. Há ali uma rede que se sobrepõe à parte marginal da imagem, as putas e os pescadores, os trabalhadores sendo inquiridos por um investigador acompanhado de um coronel e um deputado. A bandeira nacional também está na pintura, hasteada num coqueiro, enquanto padres espreitam de dentro da igreja.

Outras pinturas mostram que Aurora também trabalhou em São Paulo, onde encerraria sua carreira. Em um quadro que mostra a cidade na cidade, ela escreve “Sombras, Mulher da...”. Uma mulher com seios de fora é enlaçada pela gravata de um homem, enquanto outros os espreitam.

Outro quadro mostra o seu passado e presente: a década de 50, internada no hospício, e a lembrança de uma Pauliceia desvairada da década de 30. A São Paulo onde Zequinha de Abreu e sua orquestra animavam a noite e as rádios.

Em outros trabalhos, memórias pessoais se entrelaçam com delírios persecutórios, formando uma rede de referências que abrange desde escritores renomados como Anatole France, Émile Zola e Alexandre Herculano, até compositores como Ludwig van Beethoven e Frédéric Chopin. Além disso, sua obra incorpora figuras históricas como reis, papas e imperadores europeus, assim como delegados e políticos brasileiros.

HISTÓRIA

Nascida em 1896 em São José dos Campos, Aurora viu-se obrigada a um casamento relâmpago aos caprichos do pai. Insatisfeita, separou-se em menos de 24h.

Entre 1910 e 1930, prostituindo-se em São Paulo e Rio de Janeiro, financiou uma viagem à Europa. Apaixonada por literatura, artes plásticas e música, indícios sugerem que também tocava piano.

Na Lapa, conviveu com figuras como Madame Satã e Manuel Bandeira. Em 1919, denunciou um agressor após um episódio violento, mas o caso foi arquivado devido às leis discriminatórias da época.

Desencantada, afastou-se da boemia e, em São Paulo, dedicou-se à enfermagem durante a Revolução Constitucionalista de 1932. Entretanto, dificuldades a levaram aos manicômios.

Internada em 1941, no Hospital Psiquiátrico de Perdizes, e depois no Complexo Hospitalar do Juquery, ela participou de um ateliê de arteterapia com o psiquiatra Osório Cesar por uma década, expressando seus tormentos pelas pinturas a óleo.

Em 1950, a obra de Aurora foi exibida pela primeira, quando Osório levou alguns de seus trabalhos para a Exposição Internacional de Arte Psicopatológica, na França.

MORTE

Em 1955, Aurora foi submetida à lobotomia. Ela faleceu em 30 de outubro de 1959, aos 63 anos, sem nunca ter saído do Juquery. Antes de ser lobotomizada, enfrentou choques elétricos e injeções medicamentosas, que resultavam em estados de coma e crises convulsivas.