08 de julho de 2026
EDITORIAL

O ‘autoboicote’ de Lula

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A declaração do presidente Lula de que o governo dificilmente vai cumprir a meta de deficit fiscal zero no ano que vem foi péssima em diversos sentidos.

Um deles é de que essa fala ocorre no momento em que o Congresso discutirá o orçamento de 2024. Há meses, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tem usado a meta de deficit fiscal zero para tentar conter a eterna sanha de parlamentares pela aprovação de medidas que aumentem os gastos federais, como prorrogações de desonerações e ampliação do limite de emendas.

Para convencer os congressistas a aprovar propostas que aumentem as receitas e diminuam as despesas do governo, Haddad batia na tecla de que as medidas eram necessárias para o cumprimento da meta fiscal. Agora, desautorizado publicamente por Lula, o ministro perdeu justamente o principal argumento que tinha para persuadir os parlamentares, abrindo espaço para o surgimento de pautas-bomba.

O timing da declaração, com um eventual abandono precoce da meta fiscal, também pode ter um custo para a economia, fazendo com que o país pague juros mais altos.

Outro reflexo negativo da declaração de Lula será na imagem de Haddad, que era o principal defensor da meta. Qual credibilidade terá o ministro ao anunciar as próximas propostas? O deficit zero, que consiste no equilíbrio entre receitas e despesas, já era considerado difícil para 2024 mesmo. Nesse ponto, o principal erro não está na mudança da meta em si, e sim na forma encontrada para externar o pensamento do governo. O correto seria Haddad vir a público para explicar a mudança no planejamento.

Por fim, outro sinal péssimo é o motivo que levou Lula a fazer tal declaração. Existe uma disputa interna no governo - e no PT. Um lado, o da equipe econômica, defende que o equilíbrio fiscal seja priorizado. O outro lado, o político, não quer cortes bilionários em obras e programas sociais em 2024, que é um ano eleitoral, no qual os dirigentes petistas contam com o partido no Planalto para recuperar o espaço perdido nos municípios país afora nos úlitmos anos.

Com sua declaração, o presidente deixou claro qual dos lados vai vencer essa disputa interna. É lamentável que interesses partidários estejam acima dos interesses do país.