11 de julho de 2026
ENTREVISTA

Bloqueado na Uber e ameaçado de morte, motorista se diz inocente; mulher pulou do carro

Por Da Redação | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 9 min
Reprodução
Print da tela do celular mostra a indicação do GPS

A vida de S.W., 38 anos, virou de cabeça para baixo.
Motorista de aplicativo em São José dos Campos, ele viu seu nome envolvido em uma história que 'bombou', tomou grande proporção na cidade. No último dia 6, quando ele fazia uma corrida pela Uber, uma passageira -- uma jovem estudante de Biomedicina -- abriu a porta do carro e, mesmo com o veículo em movimento, se atirou no acostamento da Via Dutra.

A ocorrência aconteceu por volta de 19h50 da sexta-feira (6), na altura do km 142 da rodovia, na pista sentido Rio de Janeiro. Alegando temer ser alvo de sequestro, a estudante de 20 anos se jogou do carro. Casado e pai de dois filhos, S.W. diz que foi acusado injustamente de tentar sequestrar a passageira e quer provar a sua inocência. Após o incidente, ele foi bloqueado pelo aplicativo, que é seu ganha-pão, tem dificuldade para dormir, para comer e já sofreu até mesmo ameaçado de morte.

"Eu alugo o carro, é o meu ganha-pão, não posso me dar ao luxo de ficar com medo, tenho filhos, pago pensão, tenho contas para pagar", disse o motorista, que está na função há um ano e meio, com carga horária que varia de 12h a 15h por dia. Ele enviou um print da corrida, mostrando estar seguindo o caminho indicado no GPS. "É uma ferida que eu vou carregar a vida toda", afirmou ele sobre o episódio com a passageira que se atirou do veículo.

A OVALE, S.W. fala com exclusividade e destaca que seguiu o GPS durante a corrida, orientando-se pelo caminho indicado pelo aplicativo. Ele afirma que chegou a imaginar que a estudante havia perdido a vida, quando ela saltou do veículo em movimento. "Eu achei que ela ia estar morta, não sei a que velocidade eu estava quando ela abriu a porta. Ela só falou 'moço, é ali a entrada', eu olhei e vi que ela tinha aberto a porta, um palmo aberto, uns 20 cm de porta aberta. Falei para ela não pular, fui para o acostamento, reduzi a velocidade e ela se jogou", narrou o motorista.

Nesta segunda-feira, o motorista prestou depoimento no 5º DP (Distrito Policial) de São José, na Vila Tesouro. Após o incidente, no último dia 6, ele ja havia tentado, em vão, registrar a ocorrência em outras oportunidades, em três delegacias e junto ao 190. Agora, S.W. afirma que busca apenas esclarecer o caso e retomar a sua rotina. "Sou trabalhador, não sou sequestrador, não sou estuprador, Deus me livre, não consigo nem dormir direito. Eu estou falando a verdade, é a minha vida", afirmou S.W.

Confira os principais trechos da entrevista:

Há quanto tempo você trabalha como motorista de aplicativo? Como é a sua rotina?

S: Faz um ano e meio, eu fui e voltei, parei um tempo e depois voltei. Eu tento trazer pelo menos R$ 300 para casa [por dia], livre. Isso gira em torno de 12 horas, 15 horas trabalhadas. Tenho a meta diária. Eu costumo trabalhar durante o dia, durante a semana, e no fim de semana de madrugada, mas depende muito do dia, de como está a situação, se tem algum show, se é feriado, se tem barzinho lotado, se está compensando ficar na rua.

Você comentou que perdeu o seu ganha pão e sofreu ainda uma série de outros danos, emocionais, familiares, pessoais, etc.  Você comentou que chegou até mesmo a sofrer ameaça à sua vida. De que forma o episódio ocorrido interferiu na sua vida?

S: É uma ferida que eu vou carregar a vida toda. Graças a Deus, ela [passageira] não morreu. Quando saí do carro, não achei que ia encontrar alguém que se machucou, pensei que ia ver um cadáver. Foi muito rápido, quando eu vi que ela abriu a porta já joguei para o acostamento e reduzi a velocidade, foi o que livrou [do pior]. Perdi meu trabalho na Uber, um absurdo, com as quase 2.000 corridas que eu tenho, havia sido parabenizado um tempo atrás. Isso interferiu no meu ganha-pão, uma andorinha só não faz verão, quem trabalha com aplicativo, trabalha com os dois [99 e Uber]. Isso [o caso] atrapalhou muito, agora estou só com a 99.

Tenho um filho com o mesmo nome que eu, ficamos com medo de mandar ele para a escola, acabou respingando nos meus filhos, eu tenho uma filha de 18 anos, outro adolescente, então a gente fica com medo.

Você chegou a sofrer ameaça de morte?

S: Desde o começo, foi uma acusação muito grave. Estupro? Eu moro em um bairro de periferia, aqui 'escreveu não leu, o pau comeu', nao tem essa. A gente já viu muita coisa na internet de pessoas que foram confundidas com gente que cometeu algum crime e foram mortas no tribunal do crime, vamos dizer assim. Amigos me mandaram mensagem, dizendo 'toma cuidado, tem gente falando de você aí'. Minha ex-sogra, que é minha amiga, mandou mensagem: "toma cuidado, pelo amor de Deus, um rapaz me parou no bairro e falou 'cadê aquele seu filho? estamos atrás dele'. Ele explicou eu era seu ex-genro. Ela me pediu para não sair de casa, mas eu não sou nenhum rato, não cometi nenhum erro, não vou me esconder embaixo da cama. O certo prevalece, mas tenho medo, até explicar que focinho de porco não é tomada... mas eu pago o carro por semana, alugo o carro, é o meu ganha-pão, não posso me dar ao luxo de ficar com medo, tenho filhos, pago pensão, tenho contas para pagar.

O que aconteceu durante aquela corrida?

S.: Naquele dia, sexta-feira, eu estava ali no Vale Sul, tinha acabado de deixa uma passageira no shopping, aí tocou outra corrida, uma corrida boa, de R$ 30, ali na Anhembi Morumbi, na faculdade de Medicina, para a zona leste [Novo Horizonte], e eu moro na zona leste, então acabou sendo viável, eu ia [depois] passar em casa para pegar água, usar o banheiro, enfim.

No caminho para a faculdade, eu vi que meu carro estava com pouco combustível, estava na reserva. Então, pensei: vou até a passageira, quando chegar eu digo que estou com pouco combustível e que vai ser necessário passar no posto. Cheguei na faculdade, falei pra moça que a gente precisava passar no posto, ela disse que tudo bem e a gente seguiu viagem. Eu segui no GPS, fui ali pela Fundo do Vale, saindo da faculdade, e fui seguindo.

A gente chegou na Vila Industrial, na avenida principal, do lado do Teatrão tem um posto de esquina de um lado e outro BR do outro. Meu combustível acabou bem ali. E aí eu fui pedir ajuda do frentista, a moça [passageira] perguntou se eu queria que ela descesse, eu disse que não precisava. Empurramos o carro até o posto, estava bem próximo do posto, por sorte, e abasteci R$ 40 [de etanol]. O posto estava cheio, com só dois rapazes trabalhando, eu aproveitei e bebi um pouco de água também. E beleza, ela continuou dentro do carro, estava com o telefone na mão, acredito que falando com o namorado dela.

E depois?

S.: A gente foi e seguiu viagem. A gente foi e desceu, tem ali uma concessionária da GM. Você sobe em cima de uma ponte, tem a rotatória e segue sentido zona leste, pega a Dutra, seguindo o GPS, ele mandou ir pela Dutra, porque é melhor. Quando a gente passou pela primeira entrada, que é a entrada do Spani, que entra para o Vista Verde, a moça falou 'aqui que é a entrada'. Na hora que eu olhei para o GPS, que eu fui explicar para ela, ela abriu a porta e falei 'não moça, não moça'. Ela abriu a porta e eu, rapidamente, fui, por instinto, na direção do acostamento, reduzi a velocidade e ela foi e pulou. Na hora que ela pulou, eu parei imediatamente, para dar o suporte. Sai do carro e vi ela caída, deixei o carro com a porta aberta e no ponto morto. Quando olhei de novo para o carro, que estava com a porta aberta, tive medo de passar um caminhão e bater, aí vi que o celular dela estava lá no assoalho. Peguei o telefone e comecei a sinalizar com a mão e gritar 'moça, moça'. Aí, ela levantou e começou a correr, cambaleando para o lado da direita, para o lado da Dutra, da pista, e o pessoal da romaria vindo, eu botei a mão na cabeça e pensei 'nossa, se ela for para o meio da Dutra o caminhão vai pegar'.

O que aconteceu na sequência?

S.: Aí o pessoal da romaria foi e ela ficou mais próxima, no meio daquele monte de gente, aí eu fui correndo, gritando 'moça, moça, moça', cheguei perto dela e perguntei: 'moça, por que você fez isso, pelo amor de Deus? Você poderia ter morrido'. E ela só ficava quieta. Logo atrás estava vindo um carro vermelho, com um casal, e parou. O motorista me falou 'calma, calma, eu vi tudo'. Eu disse pra ele 'não fiz nada, estou seguindo o GPS' e ele, que também é motorista, me orientou a tirar um print da corrida. Eu tirei o print. O casal ficou junto com ela e eu também, dei o telefone para ela, de imediato. Falei que a bolsa dela estava dentro do carro, ela pegou a bolsa. Ela [passageira] estava toda ralada e eu perguntava 'moça, o que você fez? Por que você fez isso?' Ela ficava quieta, só teve um momento em que ela respondeu 'você estava demorando' e só. E comecei a gritar com ela. 'Como eu estava demorando? Só parei para abastecer, avisei que precisava fazer isso'. Aí olhei para o casal e pedi, pelo amor de Deus, para eles me ajudarem, não sabia o que fazer, se falava com a Uber, precisava falar com a polícia. Pedi para que o casal ajudasse a moça, levasse ela para o médico, por favor. O casal disse que eu poderia ficar tranquilo, que ela ia ser levada para a família dela, para o hospital. E no meio desse nervosismo, não peguei o telefone do casal, até peço que o casal entre em contato comigo, era um rapaz moreno e uma moça de pele clara em um carro vermelho.

O que pensou no momento em que a passageira pulou do carro?

S.: Eu achei que ela tinha morrido, para ser sincero foi isso que eu pensei, de imediato, na Dutra, eu pedindo a Deus para nenhum carro passar por cima dela, foi o que eu pensei na hora. Quando ela levantou deu um alívio no meu coração.

APLICATIVO.

Em nota à reportagem de OVALE, a Uber informou que acompanha as investigações do caso. “A Uber esclarece que leva todas as denúncias a sério e que o motorista teve sua conta desativada temporariamente da plataforma enquanto aguardamos as investigações. Nos colocamos à disposição para colaborar com as autoridades, nos termos da lei.”