09 de julho de 2026
VIOLÊNCIA

Criado no Vale, PCC tem lucro bilionário com império de violência e ‘exército do crime’

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
PCC surgiu no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté, em agosto de 1993

A multinacional do crime.

Em três décadas, um time de futebol de oito presos do Anexo da Casa de Custódia de Taubaté transformou-se na maior organização criminosa da América do Sul.

A história do PCC (Primeiro Comando da Capital) se mescla com o Vale do Paraíba, região mais violenta do estado de São Paulo. E a violência é o que une passado e presente.

Os oito fundadores do PCC cumpriam pena em Taubaté e disputaram um torneio de futebol no Anexo da Casa de Custódia, local batizado de ‘Piranhão’ pelos funcionários do sistema prisional.

Quando um preso era assassinado ali, o sangue dele era bebido pelos criminosos, que chamavam o lugar de ‘Caverna’ ou ‘Campo de Concentração’.

O time ganhou o nome de Comando Capital em razão de os criminosos serem os únicos oriundos da cidade de São Paulo. A partida foi disputada contra o Comando Caipira, em 31 de agosto de 1993.

Segundo o livro ‘PCC - A Facção’ (Editora Record, 2007), da jornalista Fátima de Souza, naquela noite foi escrito o estatuto da facção e traçado o plano para tomar a cadeia. Os fundadores usaram o futebol para atrair os presos que mandavam na unidade prisional. O jogo terminou num banho de sangue.

“A cadeia já tinha seu chefe e o PCC queria tomar o poder, para isso precisava matar. Durante o jogo mataram o líder e jogaram bola com a cabeça dele. Na época não acontecia de decepar cabeça. Foi um choque absurdo para todo mundo”, disse a autora em entrevista ao portal UOL.

Na hora de batizar a facção, ainda em Taubaté, as lideranças aproveitaram o nome do time de futebol. A violência ganhou seu maior partido ou sindicato, e nasceu o PCC.

Atualmente, o grupo tem 40 mil integrantes batizados que comandam outros milhares de criminosos em diversas quadrilhas. E o número segue crescendo.

EMPRESA

A lógica por trás da violência é a do mundo corporativo. O PCC adota práticas empresarias e criou um Estado paralelo, com regras rígidas, código de conduta e justiça própria.

As principais diretrizes estão na ‘Cartilha de Conscientização’, documento criado pelo grupo em 2007, um ano após a série de ataques a autoridades. São normas e condutas para orientar os integrantes e seus familiares.

A existência da cartilha foi revelada pela primeira vez pelo repórter Guilhermo Codazzi, editor-chefe de OVALE. As reportagens feitas em 2007 sobre o documento foram citadas em alguns livros sobre o PCC.

Entre outras coisas, a cartilha pregava a expansão do PCC para todo o Brasil, a luta para que os presos tivessem direito a voto e a importância do monitoramento das autoridades.

“Aposte e acredite no aperfeiçoamento e na conscientização para diminuir as perdas nas lutas, para vencer procurem estudar, procurem conhecimento e principalmente procurem aprender essa nova mudança, essa nova era”, diz trecho do documento.

Desde então, a facção lucra milhões com o tráfico de drogas, um dos principais meios econômicos do grupo. Mas não só.

O PCC expandiu seus negócios para aluguel de armamentos, roubo de carga, financiamento de quadrilhas e diversas outras atividades criminosas, além de investimentos em imóveis, carros e outros bens. Estima-se que o PCC fature mais de R$ 5 bilhões por ano.

A facção ampliou seus tentáculos por todo o Brasil e no exterior, sendo o principal grupo criminoso em diversos países da América do Sul. Há alguns anos, o PCC passou a buscar aumentar também a influência política, por meio da cooptação de parlamentares e da formação de seus próprios quadros políticos.