Era em São José dos Campos no tempo em que não havia comunismo nem fascismo pra nos tirarem o sono. Só havia pirilampos imitando o céu nos campos. Tudo parecia certo. O horizonte estava perto. Havia erros nos votos, mas a soma estava certa.
Esse é o trecho de um dos poemas mais conhecidos de Cassiano Ricardo: A flauta que me roubaram, publicado em 1964. O texto do poeta joseense, nascido na véspera do aniversário da cidade, em 1894, espanta por ser atual e quase profético.
A perspicácia de sua escrita lhe rendeu projeção nacional fazendo de Cassiano Ricardo um dos grandes escritores brasileiros. Quem nos dera voltar a viver a paz das lembranças do poeta. “Tudo parecia certo, admiravelmente certo”, finaliza ele no seu reconhecido poema a sua terra natal.
São José é do poeta, das rimas e do verso. A cidade que completa 256 anos é inspiração para uma efervescente geração de poetas que aqui vive e reconhece nas suas esquinas, ruas, cartões postais, o cenário ideal para compor suas bem traçadas linhas.
Com sensibilidade, celebram suas virtudes, sem deixar de lado o olhar crítico de quem vive o dia a dia na maior cidade da Região Metropolitana do Vale do Paraíba.
"Entre prédios e árvores
nesta cidade de sonhos e contrastes
a poesia se esconde
nos detalhes"
Daniella Peneluppi
ORLA DO BANHADO
Vaga-lume do Vale
o que pisca
além das montanhas?
Entre verde e
o negro
do horizonte
Poste
Pastos
Pistas
Casas de pessoas
a passar
pelo tempo
Sonhos
em meio
aos Campos
Casebres
de árvores mortas
e amassado de barro
Casarões
com telhados
de palácio
Construções
em linhas retas
E ladrilhos a brilhar
Terá sido antes... Baía?
Parte do Oceano?
Haverá fósseis de dinossauros?
Sambaquis escondidos
pelo vento?
Conchas pequeninas descoloridas na neblina?
Ao longe... Ouça!
Apertado apito de trem
emaranhado junto
as memórias e montanhas
Escorrem
pelos morros
Entre ervas daninhas
que dormem
Dentes de leão
Doce orvalho... brisa...
E o reflexo da cidade
em bolhas de sabão!
Wallace Puosso
mirante
Clarice Sabino
depois de uma pernada no Calçadão
Zenilda Lua
Poeta Marcelo
José Guilherme
Moraes
FADE IN:
EXT. SJCAMPOS / DIA
Plano aéreo da cidade. O Banhado num final de tarde.
Corta para PP. Agora o Banhado é visto pela janela do interior de um carro em movimento.
Sol amarelado. Avenida reta, sem movimento. Ao fundo, uma paisagem de colinas.
Diferentes tons de verde.
O carro para. Corta para PA. Um casal sai do carro, dirige-se ao Mirante e se beija. Ardentemente.
Uma voz ao fundo grita:
- Corta!
FAD OUT
você é mais bonito que as cheias do rio Paraíba do Sul
você é mais bonito que o arco-íris formado pelos molhos do Kadu
você é mais bonito que as curvas do Anel Viário
que as curvas do tobogã do Thermas
mais bonito do que comprar tempeiro no Mercadão
mais bonito que o Estradão, em dia de clima ameno,
até chegar no Interlagos
você é mais bonito que o frio na barriga que dá na ladeira do Habibs
mais bonito que um pastel na feira do Novo Horizonte depois da missa
que um filhote de capivara
que uma pipa em pleno ar
você é mais bonito que a Fundação Cultural do lado do Parque da Cidade
você é mais bonito que o aeroporto do CTA de noite
você é mais bonito que a chama da Petrobras de longe
que a SP50 de tardezinha, depois de Monteiro Lobato
você é mais bonito que a caixa d’água-disco voador logo em frente ao Tênis Clube mais bonito que uma cerveja bem gelada no Território Bar e Bilhar
mais bonito que a Andrômeda vazia em horário de pico
que a Avenida dos Astronautas para entrar no INPE
você é mais bonito que um bolinho caipira
mais bonito que a ponte do bolinho caipira
mais bonito que o Vidoca,
que nasce em lugar nenhum e vai para não sei onde
olha,
você é tão bonito quanto o Vicentina no carnaval
e quase tão bonito
quanto um pôr do sol no Banhado
ou ali na ladeira do Urbanova
enquanto o trem passa
lá embaixo e de repente
começa a esfriar
São José dos Campos!
Parabéns, linda Cidade
meu canteiro de saudade
sou feliz morando aqui
na cadência do poema
te agasalho em melodia
São José da poesia,
de gente linda e da FLIM
Do Banhado e CTA
quaresmeiras, manacás
violeiras, figureiras
de aviões pelos ares
de avenidas floridas
Pinheirinho dos Palmares
Mercado Municipal
e Fundação Cultural
SESC, ITA, EMBRAER
Comunidade Santa Cruz
neblina, em grafites azuis
te AMAMOS São José!
São José (e Maria) dos Campos
São José dos Campos
são campos de protestos
são Marias, São Josés
são justos manifestos.
Somos céu e chão sagrado
somos o arco da inovação
somos secos e banhados
somos a flecha e o coração.
E o que a gente ainda não é
um dia havemos de ser
Respeitar Maria, acolher José
Um lugar bom (bom mesmo) de se viver.
PAISAGENS DISSONANTES
Para Evaldo Eras
elipse natural
(ou um desenho
vítreo de eras)
expele brilho e sal,
da maneira como deve suspirar
uma falsa orla, oras!,
encantando primos vulcões
sedentos de soluções de mar
(ou poéticas), tanto faz
grávido de vento do rio,
o arco tenso de terra
é também desvario
(altar geológico
sem santo
exposto ao frio da razão)
montanhas enamoradas,
flagradas ao longe,
verdes resilientes
(ainda agarrados
a macacos, talvez)
e um rachante sol elétrico
morrem e renascem aos olhos,
em pé de guerra
cotidiano, assimétrico
pensam que protegem
do tempo
a concha o tempo todo,
uma metade de xícara
nascida de goles
e golpes (toda lascada)
toda cacos
(ex)pressão do ramo pós-imobiliário
regado a cimento e álcool-gel
passeando de carro, lá-lá-ri lá-lá...
casa modernista dos médicos,
bendito theatro,
aparelhos para biceps,
caminhos vermelhos para bikes
(tudo tão civilizado! tudo tão esg!)
a avenida são josé
com beleza despista;
esconde da vista
seus zés
e não é que gente surfa
lá embaixo,
abaixo do colarinho,
esganando
a amarga turfa
maldita neoincendiária
e não é que gente
sonha em paralelo,
lá embaixo,
(que droga!)
névoa, algodão,
e, talvez, quem sabe, um dia,
utopia!,
doce mar
de marshmellow!
BANHADO
O BANHADO ADORMECIDO
É SOLIDÃO QUE ALIMENTA
O CURSO DOS VENTOS
RUMINANDO O TEMPO