11 de julho de 2026
DOCUMENTO OVALE

São José é do poeta, das rimas e do verso: artistas apresentam poemas sobre a cidade

Por Daniela Borges | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min

Era em São José dos Campos no tempo em que não havia comunismo nem fascismo pra nos tirarem o sono. Só havia pirilampos imitando o céu nos campos.  Tudo parecia certo. O horizonte estava perto. Havia erros nos votos, mas a soma estava certa.

Esse é o trecho de um dos poemas mais conhecidos de Cassiano Ricardo: A flauta que me roubaram, publicado em 1964. O texto do poeta joseense, nascido na véspera do aniversário da cidade, em 1894, espanta por ser atual e quase profético.

A perspicácia de sua escrita lhe rendeu projeção nacional fazendo de Cassiano Ricardo um dos grandes escritores brasileiros. Quem nos dera voltar a viver a paz das lembranças do poeta. “Tudo parecia certo, admiravelmente certo”, finaliza ele no seu reconhecido poema a sua terra natal.

São José é do poeta, das rimas e do verso. A cidade que completa 256 anos é inspiração para uma efervescente geração de poetas que aqui vive e reconhece nas suas esquinas, ruas, cartões postais, o cenário ideal para compor suas bem traçadas linhas.

Com sensibilidade, celebram suas virtudes, sem deixar de lado o olhar crítico de quem vive o dia a dia na maior cidade da Região Metropolitana do Vale do Paraíba.

Mariana Zambon Braga

"Entre prédios e árvores

nesta cidade de sonhos e contrastes

a poesia se esconde

nos detalhes"


Daniella Peneluppi

ORLA DO BANHADO

Vaga-lume do Vale

o que pisca

além das montanhas?


Entre verde e

o negro

do horizonte


Poste

Pastos

Pistas


Casas de pessoas

a passar

pelo tempo


Sonhos

em meio

aos Campos


Casebres

de árvores mortas

e amassado de barro


Casarões

com telhados

de palácio


Construções

em linhas retas

E ladrilhos a brilhar


Terá sido antes... Baía?


Parte do Oceano?


Haverá fósseis de dinossauros?


Sambaquis escondidos

pelo vento?


Conchas pequeninas descoloridas na neblina?

Ao longe... Ouça!


Apertado apito de trem

emaranhado junto

as memórias e montanhas


Escorrem

pelos morros


Entre ervas daninhas

que dormem

Dentes de leão

Doce orvalho... brisa...

E o reflexo da cidade

em bolhas de sabão!

Wallace Puosso

mirante

FADE IN:

EXT. SJCAMPOS / DIA


Plano aéreo da cidade. O Banhado num final de tarde.

Corta para PP. Agora o Banhado é visto pela janela do interior de um carro em movimento.

Sol amarelado. Avenida reta, sem movimento. Ao fundo, uma paisagem de colinas.

Diferentes tons de verde.

O carro para. Corta para PA. Um casal sai do carro, dirige-se ao Mirante e se beija. Ardentemente.

Uma voz ao fundo grita:

- Corta!


FAD OUT

Clarice Sabino

você é mais bonito que as cheias do rio Paraíba do Sul

você é mais bonito que o arco-íris formado pelos molhos do Kadu

você é mais bonito que as curvas do Anel Viário

que as curvas do tobogã do Thermas

mais bonito do que comprar tempeiro no Mercadão

depois de uma pernada no Calçadão

mais bonito que o Estradão, em dia de clima ameno,

até chegar no Interlagos


você é mais bonito que o frio na barriga que dá na ladeira do Habibs

mais bonito que um pastel na feira do Novo Horizonte depois da missa

que um filhote de capivara

que uma pipa em pleno ar

você é mais bonito que a Fundação Cultural do lado do Parque da Cidade

você é mais bonito que o aeroporto do CTA de noite

você é mais bonito que a chama da Petrobras de longe

que a SP50 de tardezinha, depois de Monteiro Lobato

você é mais bonito que a caixa d’água-disco voador logo em frente ao Tênis Clube mais bonito que uma cerveja bem gelada no Território Bar e Bilhar

mais bonito que a Andrômeda vazia em horário de pico

que a Avenida dos Astronautas para entrar no INPE

você é mais bonito que um bolinho caipira

mais bonito que a ponte do bolinho caipira

mais bonito que o Vidoca,

que nasce em lugar nenhum e vai para não sei onde

olha,

você é tão bonito quanto o Vicentina no carnaval

e quase tão bonito

quanto um pôr do sol no Banhado

ou ali na ladeira do Urbanova

enquanto o trem passa

lá embaixo e de repente

começa a esfriar



Zenilda Lua

São José dos Campos!

Parabéns, linda Cidade

meu canteiro de saudade

sou feliz morando aqui

na cadência do poema

te agasalho em melodia

São José da poesia,

de gente linda e da FLIM


Do Banhado  e CTA

quaresmeiras, manacás

violeiras, figureiras

de aviões pelos ares

de avenidas floridas

Pinheirinho dos Palmares


Mercado Municipal

e Fundação Cultural

SESC, ITA, EMBRAER

Comunidade Santa Cruz

neblina, em grafites azuis

te AMAMOS São José!

Poeta Marcelo

São José (e Maria) dos Campos

São José dos Campos

são campos de protestos

são Marias, São Josés

são  justos manifestos.

Somos céu e chão sagrado

somos o arco da inovação

somos secos e banhados

somos a flecha e o coração.

E o que a gente ainda não é

um dia havemos de ser

Respeitar Maria, acolher José

Um lugar bom (bom mesmo) de se viver.

José Guilherme

PAISAGENS DISSONANTES

Para Evaldo Eras


elipse natural

(ou um desenho

vítreo de eras)

expele brilho e sal,

da maneira como deve suspirar

uma falsa orla, oras!,

encantando primos vulcões

sedentos de soluções de mar

(ou poéticas), tanto faz


grávido de vento do rio,

o arco tenso de terra

é também desvario

(altar geológico

sem santo

exposto ao frio da razão)


montanhas enamoradas,

flagradas ao longe,

verdes resilientes

(ainda agarrados

a macacos, talvez)

e um rachante sol elétrico

morrem e renascem aos olhos,

em pé de guerra

cotidiano, assimétrico


pensam que protegem

do tempo

a concha o tempo todo,

uma metade de xícara

nascida de goles

e golpes (toda lascada)

toda cacos

(ex)pressão do ramo pós-imobiliário

regado a cimento e álcool-gel


passeando de carro, lá-lá-ri lá-lá...


casa modernista dos médicos,

bendito theatro,

aparelhos para biceps,

caminhos vermelhos para bikes

(tudo tão civilizado! tudo tão esg!)


a avenida são josé

com beleza despista;

esconde da vista

seus zés


e não é que gente surfa

lá embaixo,

abaixo do colarinho,

esganando

a amarga turfa

maldita neoincendiária


e não é que gente

sonha em paralelo,

lá embaixo,

(que droga!)

névoa, algodão,

e, talvez, quem sabe, um dia,

utopia!,

doce mar

de marshmellow!

Moraes

BANHADO

 O BANHADO ADORMECIDO

 É SOLIDÃO QUE ALIMENTA

 O CURSO DOS VENTOS

 RUMINANDO O TEMPO