11 de julho de 2026
PERSONAGEM

'Colecionador' de crimes: com mais de mil recortes, pedreiro arquiva a violência no Vale

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 8 min
Naiara Oliveira / OVALE
Marcos Eduardo com uma das pastas nas quais coleciona notícias de crimes cometidos na região

Há quem colecione selos, moedas e tampas de garrafas. Ou itens como carros e até aviões. Mas não Marcos Eduardo dos Santos. Ele coleciona crimes.

O ajudante de pedreiro de 56 anos, morador da zona sul de São José dos Campos, atualmente desempregado, tem mais de mil recortes de jornais sobre crimes ocorridos na região desde a década de 1960.

Ele também guarda dezenas de fotos e objetos como cápsulas de balas e de drogas, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha que coleta em locais de crimes.

Mesmo sem ter tido a chance de completar os estudos e cursar uma Faculdade de Jornalismo, Marcos atua como um repórter das ruas e das mazelas do Vale do Paraíba, região mais violenta do estado de São Paulo.

Tal qual o cineasta britânico e mestre do suspense Alfred Hitchcock (1899-1980), de quem possui semelhança física, Marcos historia o sofrimento mais bárbaro que humanos são capazes de produzir.

Ele mantém suas peças em um armário com mais 10 pastas carregadas com as histórias de homicídios, latrocínios e sequestros na região. Há desde tiroteios entre bandidos e policiais até chacinas, passando por massacres e execuções, mais ainda os julgamentos.

“Enquanto tiver dinheiro, desavenças, problemas financeiros e passionais, os crimes vão ocorrer. Há os criminosos que vivem do crime, como os sequestradores e traficantes. E há quem cometa um crime eventualmente ou por uma circunstância. Um vizinho pode perder a cabeça e matar o outro por causa de um som alto, de paixão ou briga no trânsito. Por isso a violência não acaba”, reflete o pesquisador do submundo.

INSPIRAÇÃO

Marcos se inspira em lendas do jornalismo policial como o repórter Octávio Ribeiro (1902-1984), o Pena Branca, um dos mentores do jornalista Caco Barcellos, autor do livro “Rota 66: A Polícia que Mata”.

As entrevistas concedidas por Pena Branca ao jornal Pasquim foram publicadas no livro “Barra Pesada” (1977), o primeiro que Marcos ganhou na vida. Hoje ele tem várias obras que abordam o universo policial.

“Com ‘Barra Pesada’ comecei a me interessar por literatura de crimes e do mundo policial. Eu também ouvia os programas de rádio de Gil Gomes (1940-2018) e Afanásio Jazadji. O pessoal me chamava para jogar bola e eu só ia depois de escutar o Gil”, conta Marcos. “Queria ouvir as histórias das pessoas até chegar à morte, o que aconteceu com aquela pessoa até chegar ao crime”.

Sem saber, o joseense também guarda semelhança com o personagem da famosa reportagem “O segredo de Joe Gould” (1964), do jornalista americano Joseph Mitchell (1908-1996).

O texto conta a história de um homem que vivia como um mendigo (Gould), perambulando pela cidade de Nova York (EUA), e que escrevia em cadernos com a pretensão de publicar um livro sobre a “História oral do nosso tempo”.

PRIMEIRO CRIME

Marcos teve o primeiro contato com o submundo da violência aos 9 anos, quando viu a polícia chegando com uma viatura Veraneio trazendo dois irmãos que moravam em frente da casa dele e um terceiro rapaz. Eles estavam amarrados com uma corda.

“Ficava vendo aquilo, esses caras amarrados na cordinha, e comecei a me interessar. Tinha esses dois irmãos e um terceiro rapaz, um tal de Jairinho, que morava no Jardim Satélite [região sul de São José] e que foi morto pela polícia quando invadiu uma casa em 1977.”

O primeiro homicídio que Marcos viu também foi no Satélite, em 1990, de um homem chamado Amarildo. “Fiquei acompanhando o trabalho policial até tirar o corpo”.

Desde então, Marcos, que mora no Campo dos Alemães, adotou a prática de ir ao local dos crimes para acompanhar o trabalho policial. Também coleta o que pode, como cápsulas de bala e outros itens eventualmente deixados pela polícia.

Após o contato com a cena do crime, quando este é possível, ele passa a buscar informações na imprensa sobre a ocorrência. As principais fontes de informação de Marcos são os jornais Valeparaibano e OVALE. Ele coleciona cópias de matérias sobre crimes de 1967 a 2015, guardadas nas suas valiosas pastas.

“Tenho umas 10 pastas com recortes e cada pasta tem 100 páginas. Tenho pasta emprestada para policial e jornalista. Eu tiro cópia das matérias e também imprimo da internet, quando me mandam, porque não sei mexer com a internet”, diz Marcos.

REFLEXÃO

Marcos começou a frequentar o arquivo da imprensa em São José em 1997. Pesquisava sempre que podia, às vezes ficando até tarde da noite. Ele procurava as matérias sobre crimes, tirava cópias e fazia anotações. Ele diz que o trabalho o empolgava a ponto de servir de reflexão.

“Quando ia ao jornal fazer pesquisa, era como se fosse um jornalista ou escritor. Também para refletir sobre todas as histórias que ouvia e lia, para não ser vítima e não ser autor de algumas dessas histórias. Era um momento de reflexão.”

Mas é nas ruas que a adrenalina corre pelas veias. Além de colecionar recortes, Marcos conta histórias sobre os bastidores dos crimes e o que acontecia com ele próprio nos locais da violência.

“Houve um caso de um senhor morto atropelado. Fui lá e chegou um morador de rua com uma cerveja. Ficamos tomando cerveja e vendo o morto: ‘Vamos comemorar que nós estamos vivos’, ele me disse. Ficamos eu, ele e a polícia até tirar o corpo da rua”, lembra Marcos.

AMEAÇA

Já tendo sido ameaçado e confundido com policial e bandido, Marcos tenta manter-se neutro nas coberturas que faz, mas muitas vezes cada lado da história suspeita da sua conduta. Ele já foi acuado em enterro de bandido, quando achavam que era policial. E não é incomum que policiais suspeitem dele na cena do crime ou com suas pastas recheadas de casos de violência.

“Já passei por ameaça. Também policiais já desconfiaram de mim porque eu sempre estou nos locais dos crimes. Uma vez estava no ônibus e a polícia dando geral, quando viu um material que estava comigo sobre um traficante, e a polícia suspeitou.”

No Fórum de Taubaté, ele levantou suspeita ao tentar acompanhar o julgamento sobre o assassinato de José Ismael Pedrosa, ex-diretor da Casa de Custódia de Taubaté, ocorrido em outubro de 2005. “Fui interrogado antes de entrar. Também gosto de assistir a júris”.

BIN LADEN

Marcos guarda seus objetos ligados aos crimes em uma garrafa que ganhou de um primo que trabalhava no Judiciário. Lá estão balas de borracha, bomba de gás lacrimogêneo da confusão do Pinheirinho, pino de cocaína do Bin Laden, Pablo Escobar e Covid 14, cachimbo de fumar crack e cápsulas de armas. Uma delas ele comprou de um menino na rua por R$ 1. “Foi a que usaram para matar um cara”.

Ele conta que um homem baleado na barriga entrou na casa dele para pedir socorro. Marcos o ajudou ligando para a polícia do telefone público (orelhão), ainda com fichas. “Os caras que deram tiro nele estavam numa padaria, e a polícia pegou os caras”.

Noutra oportunidade, Marcos trabalhava em um telhado quando viu um homem ser baleado na rua.

Dois dos homicídios que mais lhe marcaram foram o de um bandido do Campo dos Alemães, que ele conhecia, e o das jovens Juanita (21 anos) e Michele (19), cujos corpos foram encontrados crivados de balas em uma cova clandestina na Favela Santa Cruz, em São José, após mais de um mês de desaparecimento. O caso é de 2001.

“Eu frequentava a Santa Cruz. Essas histórias me marcaram. Já vi gente apanhando também. Impossível não ter mais crimes para guardar”, afirma Marcos.

RESPEITO

Marcos recebe o respeito e o reconhecimento pelo trabalho que faz de repórter das ruas. Respeito de gente graúda, e alguns até perigosos.

Ele conta que um bandido matador bem perigoso de São José, que morreu de morte natural com mais de 60 anos, apelidado de Toquinho, pedia para Marcos mostrar a pasta com matérias antigas que muitas vezes falam sobre ele, o bandido.

“Achei uma foto dele de 1974 e levei para ele. Às vezes ele pedia para mostrar a minha pasta para os bandidos das antigas que ele conhecia. Vira referência para os bandidos”, brinca o pesquisador.

Em outra ocasião, um recorte que Marcos levou para um advogado o ajudou na defesa de um homem falsamente acusado de um crime. “Sempre que posso vou a julgamentos, principalmente do Tribunal do Júri”.

Marcos também teve a oportunidade de conversar com diversas pessoas famosas ao longo desses anos, em São José e em São Paulo.

A lista traz três dos quatro integrantes do grupo Racionais MC’s -- Mano Brown, Ice Blue e Edi Rock --, o rapper carioca MV Bill, o pessoal do grupo de rap Facção Central e até João Gordo, vocalista da banda Ratos de Porão. Mas um dos papos mais interessantes para Marcos foi com o escritor Ferréz, autor do livro “Capão Pecado” (2000).

“Quando conversava com alguns desses caras, as pessoas diziam que eu parecia com um jornalista ou repórter por causa das perguntas”, diz ele, com orgulho do reconhecimento.

Com alma de repórter e espírito de historiador, Marcos mantém seu hobby de colecionar crimes na região. Mesmo acostumado com a violência, ele admite que muitas vezes se surpreende com o que ouve, como quando escutou o termo “esgoto social” dito durante uma conversa de rádio. As duras palavras serviram como adjetivo para os problemas das ruas, especialmente nos locais mais pobres.

Marcos sabe que o termo é carregado de preconceito, mas também sabe que o submundo da violência não é para qualquer um. De policiais a bandidos, cada um tem a sua história para contar. É o seu hobby colecionar a história do crime. Feito um filme de Hitchcock.