A guerra é aqui.
Capital da violência no estado de São Paulo, o Vale do Paraíba acumula mais mortes em homicídios e latrocínios em duas décadas do que o total de civis mortos na Guerra na Ucrânia.
De acordo com o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, cerca de 8.500 civis foram confirmados como mortos desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro do ano passado.
Foram registradas 22.734 vítimas civis na Ucrânia entre o início da invasão até 9 de abril de 2023 – com 8.490 civis mortos e 14.244 feridos.
De 2001 a maio de 2023, o Vale contabiliza 9.177 pessoas mortas em homicídios e latrocínios, média de uma vítima de crime violento por dia. A região registra 8.678 vítimas em homicídios e 499 em latrocínios desde 2001.
O levantamento é de OVALE com dados oficiais da SSP (Secretaria de Estado da Segurança pública).
A situação agrava se somadas as vítimas em acidentes de trânsito, que chegam a 3.112 mortes entre 2015 e maio de 2023, de acordo com o Infosiga (Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo).
No total, a região acumula 12.289 pessoas assassinadas e mortas em acidentes de trânsito, de acordo com a série histórica da SSP (desde 2001) e do Infosiga (início em 2015).
Mas os números não têm rostos ou nomes. As vítimas, sim.
Uma delas era um jovem de 23 anos que, segundo a irmã, estava “no lugar errado e na hora errada” quando foi morto por tiros no Vale Histórico, no ano passado.
“Era um garoto bom. Ele juntava dinheiro para fazer a faculdade. Foi assaltado voltando para casa. O criminoso levou o que ele tinha e deu um tiro nele. Meu irmão morreu na hora”, contou a irmã, que pediu para não ter o nome e nem a cidade revelados.
E a violência na região atinge tanto jovens quanto idosos.
No final de abril deste ano, um homem de 98 anos foi torturado e assassinado dentro da própria casa, na região central de São José dos Campos. Segundo a polícia, dois criminosos invadiram a residência para roubar e o mataram com um golpe de mata-leão.
Os dois casos são sintomas de uma epidemia, que migra das grandes para as médias e pequenas cidades do Vale.
De 2001 a 2017, as cidades de São José, Taubaté e Jacareí responderam por 46% dos crimes violentos na região. A partir de 2018, os três maiores municípios da região reduziram o percentual para 33%, enquanto Cruzeiro, Lorena, Caraguatatuba, Pindamonhangaba e Guaratinguetá, que representavam 24%, aumentaram a participação nos crimes violentos para 37,8%.
O Vale do Paraíba é a região mais violenta do estado de São Paulo desde 2010, com a maior taxa de vítimas de homicídio por 100 mil habitantes. Nos últimos 12 meses, o índice da região chegou a 13,11, o que representa 175% acima da taxa da capital (4,76).
Nada menos do que seis cidades do Vale lideram o ranking estadual da taxa de homicídio: Cruzeiro, Caraguatatuba, Lorena, Caçapava, Ubatuba e Guaratinguetá.