Um transatlântico de luxo sai de Barcelona com destino a Buenos Aires, na Argentina. Seriam cerca de 30 dias de viagem.
Oficialmente, o barco levava 580 passageiros, mas há versões que apontam mais de 700 clandestinos viajando apertados no porão, para fugir da Primeira Guerra Mundial. Corria o ano de 1916.
A bordo também havia grande quantidade de metais, vinho, fios elétricos, 12 estátuas de bronze e muito ouro.
Na madrugada de 6 de março de 1916, com pouca visibilidade e mar agitado, o navio bate na laje submersa da Ponta da Pirabura, no mar em Ilhabela. O casco rasga, caldeiras explodem e cerca de 450 pessoas morrem. O navio afunda em cinco minutos.
O desastre em Ilhabela ocorreu quatro anos após o naufrágio do Titanic, no Atlântico Norte, em sua viagem inaugural da Inglaterra aos Estados Unidos. O navio afundou com mais de 1.500 pessoas a bordo, um dos maiores desastres marítimos de toda a história.
A tragédia foi lembrada nesta semana com o anúncio, pela Guarda Costeira dos EUA, da morte dos cinco tripulantes do submersível Titan, da empresa OceanGate. O veículo tentou visitar os destroços do transatlântico Titanic e desparecerem no mar. A expedição levava os turistas a 3.800 metros de profundidade.
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ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA
Mais de um século depois do desastre em Ilhabela, o mergulhador Cesar Gentile, de Caraguatatuba, registra mais de 400 expedições aos destroços do Príncipe de Astúrias, o navio espanhol que ficou conhecido como ‘Titanic brasileiro’.
Gentile faz parte de um seleto grupo de mergulhadores profissionais que “caçam” tesouros debaixo d’água, prática tecnicamente conhecida como “arqueologia subaquática”.
Mergulhador e instrutor com mais de 22 anos de experiência, maior parte deles explorando naufrágios pelo mundo, Gentile lista ao menos 10 navios naufragados no mar do Litoral Norte, como os ingleses Aymoré (1883-1920), Velasquez (1906-1908) e Dart (1882-1884) e o alemão Sigmund (1905-1919), depois rebatizado de Therezina, além do Astúrias.
Cavernas e naufrágios estão entre os mergulhos que exigem melhores técnicos dos profissionais, em razão da profundidade, visibilidade e condições precárias das embarcações.
“É preciso usar cabo para não se perder, há perigo de desmoronamento, enrosco, perda de visibilidade, chuva de sedimentos, correnteza e o mergulhador tem que saber manejar itens como lanterna, carretilhas e gás”, conta Gentile.
Mergulhador Cesar Gentile
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LIVRO
Em 2015, a escritora Isabel Vieira lançou o livro “Príncipe de Astúrias – O Titanic brasileiro” (Editora Moderna), baseado na história real do transatlântico espanhol que afundou em Ilhabela há 107 anos. O lançamento ocorreu na Secretaria de Cultura de Ilhabela.
Quatro anos após o naufrágio do Titanic, no Atlântico Norte, a tragédia se repetia, dessa vez em águas brasileiras. Isabel partiu dos fatos reais para construir a história ficcional, que mistura personagens e situações verdadeiras, colhidas de relatos de sobreviventes, com outras inventadas.
O romance entre o argentino Emilio e a paulistana Mariana começa pela internet e acontece na Ilhabela atual, onde eles se encontram. O jovem mergulhador busca informações sobre o navio que trazia seu avô.
A garota, cuja bisavó mora na Ilha, acaba encontrando diário da trisavó, também de nome Marianna. Nas páginas envelhecidas, descobre um segredo de família que irá ajudar Emilio e uni-los ainda mais.
O livro traz fotos do navio, cedidas pelo mergulhador Jeannis Platoon. A riqueza do enredo fica por conta da minuciosa pesquisa da autora em livros, jornais da época e Museu Náutico de Ilhabela, onde se encontram peças, fotos e outros registros sobre grandes naufrágios do litoral paulista.
MUSEU
Em julho do ano passado, o novo Museu Náutico de Ilhabela foi inaugurado no prédio da antiga cadeia e fórum, na Vila, centro histórico da cidade.
O museu exibe coleção de peças provenientes de naufrágios, principalmente do Príncipe de Astúrias, além de 21 painéis com informações e imagens, e um painel de seis metros com a linha do tempo, indicando naufrágios desde 1825 até 1990.
No arquipélago de Ilhabela há registro de 16 embarcações naufragadas e documentadas, mais 12 que necessitam confirmação e outras desconhecidas, encontradas por mergulhadores.
Cronologicamente, as documentadas situam-se entre os anos de 1882 e 1990. Quase metade das embarcações naufragou entre 1900 e 1920. Entre elas, está o navio Príncipe de Astúrias, que naufragou em 1916.