Cinco décadas e meia. Esse foi o tempo de trabalho de Luiz Carlos Teixeira na Prefeitura de São José dos Campos. O servidor mais antigo da cidade se aposentou aos 74 anos no último dia 1º de junho, depois de 54 anos e meio dedicados ao serviço público.
“O que eu recebi da Prefeitura foi ótimo. O serviço público é uma escola. Fiz muitas amizades”, disse a OVALE.
Luiz iniciou sua carreira no município sob a gestão do prefeito Elmano Ferreira Veloso, em plena ditadura. Até o dia de sua aposentadoria, Luiz passou por 18 prefeitos.
Nascido em São José dos Campos, Luiz é advogado e entrou na prefeitura em 1968, quando ainda era estudante, depois de ter sido aprovado em uma seleção para escriturário. Na época, Luiz foi escalado para ser “pagador” dos salários dos servidores. “Pagava eu e um rapaz, nós éramos os pagadores. Depositavam o dinheiro na nossa conta e a gente repassava, porque não pagava salário pelo banco”, lembra.
E esse não foi seu primeiro emprego. Luiz já tinha atuado por dois anos no Banco do Nordeste, trabalho que conseguiu por saber datilografar muito bem, habilidade adquirida ainda criança, aos nove anos de idade. “No banco era muito sacrificante. Eu trabalhava demais viu, eu não atendia gente no balcão não. Eu era aquele que fazia o lançamento das contas de um dia para o outro, pra ver se batia”, conta.
Na prefeitura, Luiz passou por diferentes funções, entre elas a de diretor de fiscalização e receita até ser convidado, em 1993, para trabalhar como advogado no IPSM (Instituto de Previdência do Servidor Municipal), onde ficou por mais de 30 anos. Luiz ajudou a estruturar o Instituto como órgão próprio e ocupou o cargo de procurador até se aposentar. “A parte previdenciária era uma novidade. E eu era mais do cumprimento da lei”.
Questionado sobre seu maior legado, ele diz orgulhoso que é o fato de nunca ter faltado um dia sequer de trabalho, em 54 anos e meio de atuação. “Nunca apresentei um atestado de saúde. Pra mim foi sorte, porque ninguém quer ficar doente. A única vez em que precisei sair foi para fazer uma cirurgia no tímpano, mas preferi tirar 15 dias de férias. No meu currículo, não consta nenhuma falta e nenhuma licença para tratamento de saúde. Eu tive esse privilégio”.
Entre os momentos mais marcantes que viveu na prefeitura, ele recorda a decisão do prefeito Sérgio Sobral de Oliveira de impor regras sanitárias para conter a epidemia de meningite que atingiu o país na década de 1970.
“Foi um problema igual essa pandemia do coronavírus, só que era meningite, isso em 1973. E o prefeito da época determinou que os estabelecimentos de São José seguissem 21 itens médicos e se não cumprisse cada item o estabelecimento comercial seria fechado. Aí São José foi uma cidade que teve menos casos de meningite, porque naquela época meningite matava, igual a Covid”, conta.
Filho de um ex-combatente da segunda guerra mundial, Luiz conta que a família prezava pela educação de qualidade. “Meu pai pagava um colégio caríssimo aqui de São José. Tanto que na classe só tinha 20 e poucos alunos”, lembra sobre o Colégio Ayres de Moura (Olavo Bilac).
Luiz sonhava em ser jornalista. Era leitor assíduo do Pasquim, jornal alternativo da época da ditadura, e diz que ainda “adora” comunicação. Ele até chegou a começar uma graduação em jornalismo na UMEC (Universidade de Mogi das Cruzes), mas acabou desistindo por causa do regime militar E se formou em Direito pela Fundação Valeparaibana de Ensino, atual Univap (Universidade do Vale do Paraíba), em 1973.
Ele também se aventurou nos cursos de educação física e filosofia. Amante das artes, Luiz declara que seu autor preferido é o alemão Hermann Hesse e, sempre que pode, assisti ao filme O Álamo, clássico dos anos 1960.
A primeira coisa que fez depois que se aposentou há três semanas foi uma bela faxina em sua casa. “Sabe aqueles sacos pretos de lixo? Já enchi cinco desses jogando papel fora. Você vai acumulando papel que não tem mais interesse, holerite antigo, por exemplo”.
Devoto de Nossa Senhora de Aparecida, Luiz ensina que o segredo para a longevidade é se manter saudável e respeitar as pessoas. “A parte de saúde a pessoa tem que fazer viu. Temos que considerar todo mundo, na família e no trabalho. Eu não tenho inimigo nenhum e levo a minha vida”.
Casado há 35 anos, Luiz tem um filho de 28 anos, que está perto de se formar em direito como o pai. No próximo dia 28 de junho, Luiz completará 75 anos e diz que agora só quer viajar para a praia. “Cumpri minha obrigação. Quando a gente encerra uma atividade, não olha para trás, viu. Encerrei sem deixar nada pra resolver. Eu pretendo é viajar com liberdade, não para a Europa, mas para Caraguatatuba”, conclui.