A epidemia da violência.
Em apenas quatro dias na última semana, sete pessoas foram assassinadas no Vale do Paraíba, algumas delas com requintes de crueldade. É uma morte violenta a cada 13 horas. Quase duas por dia.
Todas as vítimas eram homens, entre 27 e 72 anos. Dois idosos foram encontrados mortos a facadas, em Tremembé e Cunha. Os demais foram baleados, sendo que três assassinatos ocorreram em Cruzeiro, que acumula 12 homicídios neste ano e se tornou a cidade com a maior taxa de vítimas de homicídio por 100 mil habitantes do estado de São Paulo.
O estrago da violência na região só não foi maior porque dois jovens de 23 anos sobreviveram a tentativas de homicídio, em Cruzeiro e São José dos Campos. Ambos foram baleados e socorridos a unidades de saúde.
Além de colecionar casos de violência extrema, alguns deles de repercussão nacional, o Vale tornou-se a região mais violenta do estado de São Paulo e o principal desafio para a política de segurança pública do governo Tarcísio de Freitas e Felicio Ramuth.
NÚMEROS
As estatísticas oficiais da SSP (Secretaria de Estado da Segurança Pública) mostram que a região assumiu o primeiro posto no ranking da violência em 2010 e mantém a dianteira desde então, com a maior taxa de vítimas de homicídio por 100 mil.
Nesse período, seis políticos dirigiram o governo estadual e nenhum deles conseguiu tirar o Vale da liderança da violência. O sétimo a tentar é Tarcísio de Freitas, que assumiu a gestão estadual colocando o Vale como prioridade na segurança pública.
VIOLÊNCIA
Os números da SSP revelam o drama do Vale.
Em 2001, início da série histórica de estatísticas da SSP, as 10 primeiras posições do ranking estadual da violência eram dominadas por oito cidades da Grande São Paulo e duas da Baixada Santista.
As três primeiras eram todas da região metropolitana paulistana: Embu das Artes, Itaquaquecetuba e Itapevi, respectivamente com 101, 77 e 74 vítimas de homicídio por 100 mil habitantes.
A cidade de Campinas aparecia na 11ª posição da lista, com 568 vítimas de homicídio em 2001 e taxa de 57,93 por 100 mil.
A primeira cidade do Vale na lista era São Sebastião, que ocupava a 19ª colocação, com 29 pessoas assassinadas em 2001 e taxa de 48,81. São José dos Campos, Lorena e Caraguatatuba estavam nas posições 25,26 e 27 do ranking.
No geral, naquele ano, o Vale tinha seis cidades entre as 50 mais violentas do estado, grupo completado por Jacareí (41º lugar) e Ubatuba (46º).
AUMENTO
O panorama começou a mudar a partir de 2010, ano em que a região obteve uma taxa de 15,16 vítimas de homicídio doloso por 100 mil habitantes e tornou-se a mais violenta do estado de São Paulo.
De seis cidades no ‘top 50’ do ranking estadual em 2001, o Vale pulou para nove em 2010 e assumiu as duas primeiras colocações, com Caraguatatuba (36 homicídios e taxa de 35,77) e São Sebastião (22 / 29,81). Ubatuba veio na quarta posição, com 18 pessoas assassinadas e 22,87 de taxa de homicídio.
Outras cidades do Vale entre as 50 mais violentas de São Paulo eram: Guaratinguetá (10ª), Taubaté (15ª), Jacareí (17ª), Caçapava (30ª), Lorena (34ª) e Pindamonhangaba (37ª).
São José dos Campos conseguiu diminuir a violência e caiu para a 62ª colocação do ranking de 2010, longe da 25ª posição de 2001.
LIDERANÇA
De 2010 até 2023, a violência cresceu no Vale a ponto de a região alcançar a liderança absoluta do ranking estadual da violência, sem qualquer ameaça de outras regiões.
Dez cidades do Vale estão no ‘top 50’ da violência em São Paulo, sendo que seis delas ocupam as primeiras posições: Cruzeiro, Lorena, Caraguatatuba, Caçapava, Ubatuba e Guaratinguetá, todas com taxa de vítimas de homicídio por 100 mil entre 21 e 32 – OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica locais com taxa acima de 10 como “zona epidêmica para a violência”.
Nenhuma outra região chega perto da violência no Vale. A RMC (Região Metropolitana de Campinas), por exemplo, tem apenas duas cidades no ‘top 50’, com Paulínia na 19ª posição e Campinas na 31ª.
A comparação das duas regiões no ‘top 50’ da violência paulista deixa ainda mais evidente o drama do Vale.
Em 2001, a região de Campinas tinha 6% das cidades no topo da violência estadual, com a cidade de Campinas na 11ª posição. O Vale tinha 12% e São Sebastião na 19ª colocação.
No ranking de 2010, a RMC manteve os 6% de participação entre as cidades mais violentas, e Campinas caiu para a 19ª posição da lista. O Vale aumentou a representação para 18% e Caraguatatuba e São Sebastião assumiram a liderança da listagem paulista, com Ubatuba ainda em quarto lugar.
Quase 13 anos depois, no ranking de 2023, a região assumiu 20% do ‘top 50’ e colocou seis cidades no topo da violência estadual, com um total de nove municípios com taxa de vítimas de homicídio por 100 mil acima de 12.
O governo Tarcísio aposta na colocação de mais câmeras de segurança, em operações especiais e no aumento do efetivo policial para tentar tirar o Vale do posto de região mais violenta do estado.
De fato, no primeiro trimestre de 2023, o número de vítimas de homicídio caiu 20,9% na região, com 53 mortes contra 67 em igual período de 2022, mas não o suficiente parta tirar a região e as cidades do topo da violência. A epidemia continua.