Após a reclusão imposta pela pandemia, Tulipa Ruiz está do jeito que mais gosta: com o pé na estrada e o vozeirão nos palcos. Vencedora do Grammy Latino, a cantora, compositora e ilustradora apresenta, no próximo sábado (20), no Sesc Taubaté, canções inéditas de seu novo álbum “Habilidades Extraordinárias”.
“Estou com saudade de tocar em Taubaté e muito curiosa em saber se o disco chegou aí. Se as pessoas que vão ao show já ouviram o disco. Estou indo com esse show novo, de peito aberto e com muita saudade e espero que o público mergulhe no show e nas músicas do disco, porque elas foram feitas com muito amor e respeito”, disse Tulipa a OVALE.
Este é o quinto disco da artista e foi gravado de forma analógica, com canções autorais. “É um disco pra você se relacionar”, declara. Com sua voz marcante e diversas outras habilidades, Tulipa também está desenvolvendo projetos de vídeo, ilustração, livros e moda.
O show de Tulipa Ruiz será no Sesc Taubaté, no próximo sábado (20), às 20h. Os ingressos estão à venda no site: centralrelacionamento.sescsp.org.br. E para saber mais sobre a produção do disco e a turnê, confira abaixo um trecho da entrevista que Tulipa Ruiz concedeu a OVALE:
Você tem algum vínculo pessoal com a região do Vale do Paraíba?
Eu sou de São Lourenço, no sul de Minas, e muitos amigos iam estudar em São José dos Campos ou em Taubaté, faculdade era o destino. E uma das minhas primeiras apresentações musicais foi em um festival no Parque da Cidade, em São José. E também gosto muito de São Luís do Paraitinga, dos carnavais. Tenho um carinho por essa região.
Sobre o seu quinto disco, por que você escolheu esse nome “Habilidades Extraordinárias”?
Eu já sabia que o disco teria esse nome antes de saber como seria o disco e isso foi uma coisa inédita pra mim, porque normalmente nome de disco eu descubro depois ou durante o processo. A primeira vez que eu me deparei com esse termo habilidades extraordinárias foi em 2019, quando eu fui tirar visto de trabalho para tocar nos Estados Unidos. No consulado me perguntaram se eu tinha alguma habilidade extraordinária. Na hora eu não soube responder, disse que eu não tinha, porque eu pensei que era alguma coisa fantástica, tipo voar, equilibrar prato (risos), fiquei paralisada com a pergunta. E aí meu irmão foi mais ligeiro e disse “sim, a gente tem um Grammy latino”. Na hora o cara carimbou nossa documentação e eu descobri que existe um tipo de documentação que é de habilidades extraordinárias, que é quando você tem proficiência no que você faz, no seu ofício. E que alguns prêmios podem facilitar essa documentação, um Grammy ou um Prêmio Nobel. Eu saí do consulado achando isso super interessante, porque cada vez mais nos últimos anos, os trabalhadores e trabalhadoras das artes têm sido muito descredibilizados e atacados. Saí pensando que fazer arte e explicar o que acontece no meu país para o mundo é uma habilidade extraordinária. Esse termo ficou muito na minha cabeça. E quando chegou a pandemia, eu fui percebendo que habilidades extraordinárias eram coisas absolutamente cotidianas nesse contemporâneo tão difícil, como, por exemplo, a gente conseguir, sendo mulher, sair na rua sozinha. Ou simplesmente conseguir dormir, levantar da cama. Esse exercício de ir pensando e me empoderando dessas habilidades e tendo empatia das habilidades das outras pessoas, foi tão interessante que eu falei ‘esse vai ser o nome do disco’. E aí todas as músicas se desenrolaram em torno dessa sensação. A primeira frase da música que dá nome ao disco é "lembrar de olhar pro céu". Olhar pro céu é uma habilidade extraordinária, ter a sensibilidade de não esquecer disso.
Qual o impacto que a pandemia teve na obra?
Esse disco fala muito sobre esse momento que a gente passou. Normalmente faço disco a cada dois anos, porque eu gosto de lançar e ficar bastante em turnê com o disco. Eu sou muito mais de palco, de show, de estrada do que estúdio. Seguindo a ordem natural, em 2020 viria um disco novo, mas veio a pandemia. Então tudo atrasou. E quando a gente parou pra gravar foi muito especial, porque a gente estava sem show, sem se encontrar e de repente a gente se encontra pra fazer música e gravar. A gente estava com muita saudade, fortaleceu muito o que a gente faz. Às vezes, o contemporâneo deixa a gente disperso e desencorajado das nossas habilidades extraordinárias que são cotidianas. Então, esse disco foi muito balsâmico. Ele foi gravado em fita, de uma maneira toda analógica e ao vivo. Isso determinou muita coisa para o processo do disco. E nesse momento agora da turnê, eu estou muito feliz porque foi muito gostoso gravar e eu gosto de fazer show de disco. Eu vou fazer o que eu gosto, sabe. Eu estava com saudade disso.
Sobre a gravação analógica, você queria de alguma forma se contrapor ao período em que a gente teve que mergulhar no mundo digital ou foi por outro motivo?
Faz sentido, mas foi pela sonoridade analógica. Os discos que eu mais gosto tiveram captação analógica. O digital está sempre perseguindo e simulando o analógico, tanto no som, quanto na imagem. Só que o digital também permite que a gente faça muita refação, que a gente grave muitas vezes, mas a ideia era que a gente gravasse de uma forma muito presente. E a fita determinou isso, porque a gente tinha um rolo de fita e poucos takes. Gravamos ao vivo e poucas vezes; e isso trouxe pra gente uma presença impressionante, porque não houve distorção, a gente estava inteiro ali tocando o tempo todo e junto.
Isso trouxe uma originalidade grande, a gente sente um certo acolhimento quando ouve, remete à memória, a algo histórico né?
Eu acho que quem escuta com atenção consegue acessar isso. Ele não é um disco para uma escuta dispersa. Mas quem se relaciona com o disco e presta atenção em todas as camadas, é um disco muito profundo. É um disco pra você se relacionar, pra escutar de uma maneira bem longeva.
Esse trabalho é um divisor de águas na sua carreira?
Esse disco me fortaleceu. Eu tenho muito orgulho dos meus discos, eu faço todos os discos com o meu irmão, Gustavo Ruiz, meu irmão e parceiro musical com que eu escuto música desde pequena. A gente tem uma maneira de trabalhar a música que é tão interessante quanto a nossa relação como apreciadores de música. Então, eu tenho muito orgulho dos meus sons, desde o Efêmera, que é o primeiro disco, de 2010. Mas o “Habilidades Extraordinárias” foi balsâmico porque é um disco em que me coloco muito como compositora. Eu declaro nesse disco que sou uma compositora, uma cancionista da música popular brasileira. É um disco que eu fiz com muita devoção, com muita certeza, muito respeito e que tenho visto que as pessoas têm ouvido de forma muito respeitosa, olhando para minha trajetória e para a maturidade desse disco.
E qual a sua expectativa para a apresentação de sábado em Taubaté?
Eu estou gostando cada vez mais de fazer esse show, porque sou de turnê. Quando a gente estreia um disco, nos primeiros shows de lançamento, a gente tem uma preocupação em ser muito fiel ao que a gente gravou. Depois que a turnê estreia, a gente passa a desfrutar do que a gente gravou. Então, eu estou exatamente nesse momento de desfrutar as músicas que a gente fez ao vivo. Vamos tocar as 11 músicas do disco, são todas inéditas. Estou com saudade de tocar em Taubaté e muito curiosa em saber se o disco chegou aí. Se as pessoas que vão ao show já ouviram o disco. Eu sempre falo que o show é uma troca, estou com saudades dessa troca. Então, estou indo para Taubaté com esse show novo, de peito aberto e com muita saudade e espero que o público mergulhe no show e nas músicas do disco porque elas foram feitas com muito amor e respeito.
Tem algum outro projeto que esteja desenvolvendo em paralelo à turnê?
Esse ano eu quero desdobrar o audiovisual, entender quais as imagens desse disco, então vou trabalhar os videoclipes das músicas. Em paralelo, tenho meu trabalho com a Brocal também, que é minha produtora de música e que produziu o último disco da cantora Liniker, que acabou de ganhar um Grammy. Produzi o último disco do Maurício Pereira e dentro da Brocal tenho um trabalho com a marca, com a loja onde eu sou estilista e ilustradora. Na Brocal é o lugar onde tem os desdobramentos gráficos das minhas músicas. Faço caderno, participo de um evento de moda autoral, que se chama Casa de Criadores, faço parte do line up dos estilistas, então minha cabeça está o tempo todo a mil. E agora que não estamos mais em isolamento, estou a milhão nos shows e nos projetos paralelos.