11 de julho de 2026
IGREJA

Em carta, CNBB critica juros altos, descaso com indígenas e pede união contra fake news

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação / CNBB
Nova direção da CNBB tomando posse em Aparecida

Com mais de 450 bispos reunidos no Santuário Nacional de Aparecida, a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) encerrou na sexta-feira (28) a sua 60ª Assembleia Geral, divulgando uma mensagem ao povo brasileiro após eleger a nova direção da entidade. O encontro começou em 19 de abril.

Na mensagem deste ano, os bispos criticam os juros altos cobrados no Brasil e o descaso com indígenas, além de pedir a união de todos os brasileiros para enfrentar situações como autoritarismo, polarização e desinformação.

Realizado em Aparecida desde 2011, o encontro anual do episcopado brasileiro foi realizado em meio ao clima de polarização que toma conta do país, além de ataques à Igreja Católica por grupos de cristãos ultraconservadores.

Um dos alvos preferenciais foi a CF (Campanha da Fraternidade) de 2023, lançada na Quaresma e que abordou a fome. Extremistas atacaram a ação da CNBB e classificaram trechos do texto-base da CF como contrários à doutrina da Igreja e próximos do comunismo.

Antes da sua 60ª Assembleia Geral em Aparecida, a CNBB realizou um evento de preparação par debater a polarização na Igreja, que propôs “refletir sobre as ameaças à comunhão Eclesial no atual contexto sociopolítico e pastoral”.

A mensagem ao povo brasileiro surge nesse contexto de ataques e de polarização política e religiosa, dando um tom bastante crítico à carta da CNBB.

“Nós temos famílias, comunidades e expressões do clero divididas, portanto é um trabalho desafiador e complexo ao mesmo tempo”, disse o arcebispo de Porto Alegre (RS), dom Jaime Spengler, eleito presidente da CNBB.

“Que Oxalá os próximos quatro anos sejam para nós um tempo de trabalho vigoroso e, certamente, os tempos que se delineiam diante de nós trazem sim uma complexidade que vai exigir de todos nós discernimento, bom senso e capacidade de colaborar para deixar as nossas comunidades, a nossa igreja e também o nosso Brasil um pouco melhor para as futuras gerações”, disse Spengler, sobre como colaborar nesse tempo de polarizações.

MENSAGEM

No texto endereçado aos brasileiros, a CNBB diz que vive-se num tempo “marcado por grandes desafios que, longe de nos desanimarem, estimulam a Igreja na promoção do Reino de Deus”.

“Nossas comunidades estão respondendo, com solidariedade fraterna, às consequências das tragédias socioambientais; com compromisso cidadão na defesa da democracia e, com responsabilidade social, ao drama da fome que nos assola. Com alegria, reconhecemos que esse é o autêntico e eficaz testemunho de que o mundo necessita”, diz trecho da mensagem.

Em outro, os bispos fazem menção à guerra na Ucrânia e a diversos males que assolam os brasileiros.

“Além do flagelo das guerras, muitas outras situações nos preocupam, como os autoritarismos, as polarizações, as desinformações, as desigualdades estruturais, o racismo, os preconceitos, a corrupção, a banalização do mal e das vidas, as doenças, a drogadição, o tráfico de drogas e pessoas, o analfabetismo, as migrações forçadas, as juventudes com poucas oportunidades, as violências em todas as suas dimensões, o feminicídio, a precarização do trabalho e da renda, as agressões desmedidas à ‘casa comum’, aos povos originários e comunidades tradicionais, a mineração predatória, entre tantas outras, que fragilizam o tecido social e tencionam as relações humanas.”

Os bispos falam ainda da “criminosa tragédia ocorrida com o povo Yanomami” e criticam os altos juros cobrados no país, que “têm origem na opção por um modelo econômico cruel, injusto e desigual”.

“Por trás da palavra ‘mercado’ existe um sistema financeiro e econômico autônomo, que protagoniza ações inescrupulosas, destrói a vida, precariza as políticas públicas, em especial a educação e a saúde, adota juros abusivos que ampliam o abismo social, afeta a cadeia produtiva e reduz o consumo dos bens necessários à maioria do povo brasileiro”.