O preço da liberdade é a eterna vigilância.
A frase atribuída ao 3º presidente dos EUA, Thomas Jefferson (1801-1809), inspira o ‘gabinete paralelo’ que Eduardo Cury (PSDB) vai coordenar no Senado.
Convidado pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição no Senado, o ex-deputado federal Eduardo Cury (PSDB) recruta especialistas para montar e coordenar um ‘gabinete paralelo’ que vai fiscalizar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
A estrutura é ligada ao gabinete da oposição no Senado, com 22 senadores, e vai se dedicar a analisar as ações do governo para além do viés político, que ficará a cargo de quem tem mandato.
“Nosso objetivo é apontar os erros do governo e oferecer alternativas. É um grupo técnico. A questão política fica em segundo plano”, disse Cury, que dá detalhes sobre o grupo, critica o governo Lula: “Errático” e também fala de eleições em São José. Confira.
Qual é o cargo do sr. no Senado?
O senador Rogério Marinho foi escolhido para ser líder da oposição no Senado. Ele foi meu colega como deputado na Câmara e já havia trabalhado com ele em alguns projetos. Ele me convidou para montar um grupo técnico para fiscalizar o governo. Esse tipo de organismo é chamado de 'shadow cabinet', espécie de ‘governo espelho’. Ele me convidou para montar esse grupo e coordená-lo, e é isso que tenho feito há um mês. Estamos na fase de contratação de pessoas.
Como se liga à estrutura do Senado?
Não será ligado ao gabinete de Rogério Marinho, mas sim ao gabinete da oposição. Nós vamos representar os 22 senadores do gabinete da oposição. Nosso gabinete dará auxílio a esses senadores.
Está recrutando?
Já começamos a trabalhar no gabinete, mas ele não está totalmente estruturado ainda. Estamos recrutando primeiro os servidores de carreira do Senado, como especialistas em economia, agronegócio, saúde e educação e outros. Também estamos garimpando primeiro os servidores de carreira do Executivo, da Câmara e algumas pessoas de fora, que estamos avaliando.
Quantas pessoas formarão o grupo?
Acho que ele ficará com algo em torno de 15 pessoas.
Como será o trabalho desse gabinete? Será um órgão de aconselhamento à oposição no Senado?
Esse é um dos objetivos, o de municiar os parlamentares da oposição. Nosso objetivo principal é interagir com a sociedade e a imprensa e municiá-los com dados mostrando que alguma medida ou projeto do governo é equivocado e pode prejudicar a população. E também oferecer uma alternativa.
Esse tipo de gabinete é inédito no Brasil?
Geralmente se faz alguma coisa mais política, e estamos tentando ter um trabalho técnico, o que é uma novidade no país. É mais comum na Europa. Estamos tentando inovar aqui e, para cada ação do governo que a gente considere equivocada, mostrar porquê está errada, os números e a alternativa para que ele possa corrigir.
É para forçar o governo a não cometer erros, melhorar e, consequentemente, melhorar o Brasil, com uma posição responsável. Não tenho notícia de que isso já tenha sido feito no parlamento.
Quais áreas vocês vão cobrir?
Vamos cobrir oito áreas: infraestrutura e energia; agronegócio e meio-ambiente; inovação, ciência, tecnologia e comunicações; saúde e educação; trabalho, previdência e área social; turismo; economia, tributária e orçamento e depois juntamos as outras áreas do governo, os ministérios menores, porque muitos deles são criados só para fazer composição política, e encaixotamos num único grupo de trabalho.
O gabinete paralelo vai fazer projetos de lei?
Pode chegar a esse nível. Vamos contrapor os dados, ver o que está errado e propor emendas e projetos e, inclusive, propor ao líder entrar com ação judicial no Supremo Tribunal Federal se for uma coisa muito grave.
O Judiciário será vigiado também?
Não, trata-se de um grupo técnico que vai olhar para o governo federal, as coisas erradas que está fazendo. A questão política fica em segundo plano. Não será papel pedir impeachment de ministro do Supremo. O posicionamento político será dos senadores, de quem tem mandato.
Na prática, como vão operar no Senado?
Teremos uma sala e eu e todos os coordenadores, mais os assessores, teremos uma mesa em que cada um vai trabalhar. Na prática, vamos nos alimentar do diário oficial, da imprensa e de ‘inside information’ (informação privilegiada), de coisas que ficamos sabendo com amigos ou pessoas que trabalham no governo.
Também algo que o presidente tenha falado, e ele fala muito e acaba se traindo. E aí já começamos a preparar uma análise sobre isso. São três formas de entrada e a saída dos nossos dados será por meio do líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, e dos senadores da oposição.
Vocês já estão analisando atos do governo?
Sim, estamos analisando os 100 dias do governo e mais algumas coisas pontuais, de erros do governo, como a exigência de visto para turistas estrangeiros de países ricos entrarem no Brasil, o que é uma burrice. A questão das passagens aéreas mais baratas para alguns grupos e encarecendo para outros, o que o governo já suspendeu.
Também estamos trabalhando muito no arcabouço fiscal, que prevê aumento de impostos na ordem de R$ 150 bilhões e não se sabe de onde vai sair, mas vai impactar a sociedade.
A sua rotina voltou a ser Brasília?
Durante a semana fico aqui em Brasília e nos finais de semana retorno para São José.
Qual sua avaliação dos 100 dias de governo?
Estou vendo um governo muito perdido. Ministros descoordenados, cada um dando um tiro para um lado, sem nenhuma ordem. Ninguém sabe para onde o governo quer ir. Mas também há muitos erros. É surpreende a quantidade de erros desencadeados de alguém [Lula] que já foi presidente. O mais grave é a questão que o desemprego está subindo e estão errando muito na economia, e isso vai ficar caro para o Brasil.
A economia dará mais trabalho?
É, porque o governo fala uma coisa e faz justamente o contrário. Disse que quer reduzir a taxa de juros, mas tudo o que está fazendo é para aumentar a taxa de juros. Causa insegurança dizendo que vai ganhar mais para se endividar, e os juros sobem.
Quem empresta fica desconfiado. Fala uma coisa e vai na direção contrária. Isso causa insegurança e afasta os investidores. As pessoas acabam não apostando no Brasil e isso não gera emprego. Uma questão nefasta para o país.
Vai mudar de partido?
Não, os senadores do PSDB fazem parte da oposição. Não mudo de partido. E nem posso trocar de partido porque sou suplente na Câmara. Se for chamado a qualquer momento e tiver mudado de partido, eu perco o mandato. Não há conflito político.
Se tiver que assumir como deputado vai deixar o gabinete?
Sim, vou deixar. Mas a possibilidade de assumir é remota no curto prazo. Isso muda daqui a dois anos, quando haverá eleição para prefeito. Hoje a chance é pequena, só por licença de algum deputado ou alguma fatalidade, o que ninguém quer.
Governo Lula vai ter dificuldade de negociação no Congresso?
A primeira coisa é decidir o que quer fazer, porque ninguém sabe. O governo está errático. Não há nem como cobrar apoio de alguma coisa na qual o partido não sabe aonde o governo quer chegar.
É um governo errático e com cada ministro atirando para um lado. Isso não passa segurança. O governo tem 37 ministérios, deu cargos para vários partidos e não tem coragem de mandar um projeto polêmico porque não tem maioria simples. Isso mostra que, na questão da política, tem sido bastante equivocada.
Essa dificuldade não seria por causa da frente ampla criada em torno de Lula?
A frente ampla foi um engodo, conversa para boi dormir. Tem 17 ministérios para o PT. A esquerda é minoritária no país. Juntando todos os deputados de esquerda são 140 em 513.
Lula tem feito um governo para seus seguidores e isso não acaba bem, em minha opinião. Vai cobrar um preço caro do país. A grande maioria da população vai ficar excluída. O Lula tem a pior avaliação dele e é baixa para um presidente que acabou de sair da eleição.
Acha que a polarização e os candidatos que se elegeram pela internet vão continuar fortes no país?
É uma grande interrogação. Acho que os ânimos vão se arrefecer, mas acabar a polarização ainda vamos ter que esperar para ver. O Lula ainda não desceu do palanque. Todo mundo imaginou que ele iria governar para o Brasil e ele resolveu governar para o PT. Não desceu do palanque.
Se ele continuar nessa toada, a chance da polarização é se manter. Já estão falando em impeachment, o que não é bom para o país. Mas se cometer muito erro pode ser que a população peça impeachment, porque é ela quem faz esse movimento. Por fim, é o próprio político e suas atitudes que causam o seu impeachment.
O imediatismo nas redes sociais atrapalha o governo?
Não vejo essa cobrança [imediata]. O governo está sendo criticado pelos erros dele e não pela demora de as coisas acontecerem. Ninguém está cobrando alguma coisa que prometeu que levaria quatro anos para fazer. Está sendo cobrado pelas besteiras que já fez, como a questão dos juros, de atacar o Banco Central, o que afugenta quem investe no Brasil. Está sendo cobrado pelos erros.
Tem acompanhado o governo Tarcísio?
Não tenho acompanhado, mas acho que o Tarcísio fará um excelente governo.
E São José em 2024? Vai se envolver com a eleição?
Tenho uma parceria com o Emanuel [Fernandes] para preparar novas lideranças, mas não tem uma ligação direta com 2024 ou com a eleição. É para gente nova entrar na política, do mesmo jeito que fizemos em 1992. Vamos transferir o conhecimento para essas pessoas entrarem mais preparadas na política. E se alguém eventualmente quiser disputar um cargo político, será melhor para o Brasil.
O PSDB de São José está discutindo candidatura a prefeito?
Eu e o Emanuel estamos preocupados somente com formar quadros e não tratamos de nomes e nem de candidatos. Temos uma escola ali e queríamos realimentar isso. Achamos que muito tempo de poder você acaba não permitindo que pessoas novas participem e precisamos realimentar esse processo.