Capital da fé católica do Brasil, o Vale do Paraíba está no epicentro da disputa ideológica que envolve Jesus Cristo e a cristandade no país.
Grupos políticos tentam associar Jesus aos seus próprios anseios e a fazer com que o homem nascido há dois milênios tenha 'lado ideológico'.
Tal polarização atinge o Santuário Nacional de Aparecida, maior templo mariano do mundo, e a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), órgão máximo da Igreja Católica no país.
Ambos são atacados desde o primeiro ano do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Tais arremetidas ganharam impulso nas eleições de 2022, a mais dividida da redemocratização, e durante a Quaresma deste ano.
Um dos alvos de grupos católicos ultraconservadores, apoiadores de Bolsonaro, foi a Campanha da Fraternidade de 2023, que aborda a fome. A CF foi apontada como 'desvirtuadora' dos preceitos tradicionais católicos e a CNBB chamada de 'comunista'.
Por outro lado, grupos à esquerda pressionam o governo de Luz Inácio Lula da Silva (PT) a encaminhar pautas como a liberação de drogas e a descriminalização do aborto, contrárias aos conservadores e à CNBB.
Em meio às disputas, a CNBB tenta reduzir a influência do pensamento que associa Jesus à extrema direita e a movimentos antidemocráticos, até mesmo dentro do clero.
"A polarização é a concretização atual da indiferença", disse o secretário-geral da CNBB, dom Joel Portella Amado, em palestra sobre o tema "Eucaristia e unidade em tempos de polarização".
EXCESSOS
Segundo Amado, a polarização que ataca a Campanha da Fraternidade é reflexo de um fenômeno mundial, mas não se deve ser complacente "com os excessos dos grupos ultraconservadores".
Ele explicou que a Igreja não tem "ingerência alguma" – a não ser religiosa, com a orientação por padres ou leigos – "sobre os grupos de inspiração católica", mesmo os mais radicais que fizeram ataques à Campanha da Fraternidade.
"O único modo de enfrentar esse tipo de atitude é o diálogo e, no caso das redes sociais, não compartilhar, não seguir", afirmou o bispo.
Amado disse ainda que, numa sociedade democrática, "todos têm o direito de se manifestar", mas que "deve-se, contudo, arcar com as consequências das manifestações, quando é o caso, perante a justiça civil ou criminal, por ser instituições apenas civis".
Um dos 'excessos' mais citados por bispos ligados à CNBB foram os ataques durante a Festa de Nossa Senhora Aparecida em outubro de 2022, espécie de 'embrião' que culminou nos atos golpistas de 8 de janeiro deste ano, em Brasília.
Na época, católicos bolsonaristas criticaram e ameaçaram padres do Santuário Nacional de Aparecida por supostamente impedir uma oração do rosário que teria a presença de Bolsonaro, que acabou desistindo de participar.