10 de julho de 2026
EXTREMISMO

‘Grupos neonazistas estão crescendo no Brasil’, diz advogado do Centro Simon Wiesenthal

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Divulgação / Polícia Civil do Distrito Federal
Apreensão de material ligado ao nazismo em Santa Catarina

O ódio ao outro em ebulição.

Há um renascimento de grupos neonazistas no Brasil, segundo avaliação do advogado Ariel Gelblung, diretor para a América Latina do Centro Simon Wiesenthal.

Fundado em 1977, o centro é uma organização internacional de direitos humanos com sede em Los Angeles, cujo principal enfoque é a questão do Holocausto.

Para o argentino Gelblung, que vive em Buenos Aires, tais grupos extremistas cresceram em meio a dois fenômenos recentes: a pandemia do coronavírus e os governos dos presidentes Donald Trump, nos Estados Unidos, e Jair Bolsonaro, no Brasil.

“Toda essa mensagem de ódio foi crescendo durante e após a pandemia e cresceu também com a linguagem usada durante os governos de Trump e Bolsonaro”, disse o advogado a OVALE.

“Não significa que os governos tenham empurrado oficialmente para os extremos. Mas membros da extrema direita se acharam no direito de expressar e dizer qualquer coisa", afirmou.

“E parece contraditório. Bolsonaro, que foi favorável à política de aproximação a Israel, ao mesmo tempo teve um discurso que favoreceu o crescimento de grupos neonazistas. O mesmo com Trump. Há coisas que devem exigir atenção, como a convivência com a extrema-direita.”

EPISÓDIOS

Recentemente, um jovem de 17 anos foi detido por atirar bombas caseiras do tipo coquetel molotov feitas com garrafas pet e pregos em uma escola estadual de Monte Mor, na Região Metropolitana de Campinas.

O rapaz também portava uma machadinha e tinha uma suástica, um símbolo nazista, estampada no braço. Houve duas explosões, mas ninguém se feriu.

A Polícia Civil de Santa Catarina descobriu a existência de uma filial de um grupo internacional de supremacia branca no Brasil. Segundo as investigações, o coletivo tinha um plano para implantar uma célula radical de supremacia branca no país. Dez homens foram presos.

Frases de apologia ao nazismo e de apoio a Adolf Hitler também têm sido identificadas em escolas e grupos de mensagens de jovens estudantes brasileiros, aumentando a preocupação das autoridades para o fenômeno.

Para Gelblun, a pandemia foi propícia para o aparecimento de “ideias conspirativas, mensagens de ódio e de grupos que buscam culpados” e também de “banalização de comparações com o Holocausto”, de como se “estivéssemos todos dentro de campos de concentração”. E completou: “Todas essas coisas foram muito propícias ao crescimento dos neonazistas no país”.

INTOLERÂNCIA

O advogado argentino disse que há um “altamente preocupante” aumento da intolerância e da mensagem de ódio em vários países. Dependendo do local, tal movimento engloba grupos extremistas de direita ou de esquerda.

“Isso se sucede porque estamos na época em que as pessoas têm a maior parte das relações no mundo virtual, e quem pensa diferente é bloqueado ou cancelado. Vivem numa bolha. A convivência entre contrários é positiva. Confio que hoje temos mais elementos para procurar mais racionalismo. Por outro lado, temos países armando-se para a guerra.”

Nesse contexto, Gelblun defende que haja uma regulação das redes sociais, na perspectiva de barrar discursos de ódio.

“Os provedores de redes sociais são empresas comerciais, com objetivo do lucro. São importantes para o contato entre pessoas distantes, mas ao mesmo tempo servem para ocultar o surgimento de um fenômeno que é a mensagem de ódio”, afirmou o especialista. “Tem à frente agora um problema novo. Existe uma necessidade internacional de regulação das redes sociais”.

NÚCLEOS EXTREMISTAS

Uma das maiores referências em pesquisa sobre o neonazismo no Brasil, a antropóloga Adriana Dias, que morreu em janeiro deste ano, apontava a existência de pelo menos 530 núcleos extremistas no país, universo que pode chegar a 10 mil pessoas.

Segundo ela, os extremistas são beneficiados pela falta de leis contra discursos de ódio, o que causa obstáculos a aplicação de punições.