Os ataques, atos de agressão e ameaças de massacres a escolas no Vale do Paraíba e em São Paulo, nas últimas semanas, reacendem o debate sobre as causas da violência em ambiente escolar.
A reação diante do fato de um estudante de 13 anos invadir uma escola e matar uma professora de 77 anos e ferir outras quatro pessoas a facadas, como ocorreu na capital na última semana, é a de se perguntar o motivo. A perplexidade é a regra ante tamanha brutalidade vinda de uma pessoa tão jovem.
Para piorar, esse tipo de episódio trágico vem se tornando mais comum no Brasil nos últimos anos.
De acordo com levantamento do Instituto Sou da Paz, o Brasil registrou 16 episódios de ataques com armas de fogo e facas em escolas nos últimos 20 anos – seis deles apenas em 2022. O saldo é de 39 pessoas mortas (incluindo alguns dos próprios agressores) e 48 feridos.
Em comparação, o ano letivo nos Estados Unidos entre agosto de 2021 e maio de 2022 registrou o triplo de ataques a escolas do que o período anterior. Foram 193 incidentes com armas de fogo em escolas americanas contra 62. Apenas no ano de 2021, o país acumulou 59 mortes e 138 feridos em ataques a escolas.
O Brasil estaria importando a violência escolar americana, cujo marco é o massacre de Columbine, em 1999? Na época, dois jovens de 17 e 18 anos invadiram a escola, fortemente armados, e mataram 13 pessoas e feriram 24, cometendo suicídio em seguida.
As imagens desse ataque reverberam pela internet até hoje, assim como as do ataque à escola em Suzano, em 2019, cujo saldo foi de oito pessoas mortas. O jovem de 13 anos que matou uma professora na última segunda-feira tinha como inspiração um dos invasores de Suzano.
Essa reverberação de um caso a outro, potencializada pelas redes sociais, fez o secretário estadual de Segurança Pública, Guilherme Derrite, pedir para cessar o compartilhamento das imagens do mais recente ataque.
“O efeito contágio é uma realidade e está demonstrando na prática o que acontece quando um caso é divulgado exaustivamente dessa maneira”, disse ele.
Gravemente ferida neste ataque, a professora Ana Célia Rosa, 58 anos, atribuiu a violência do episódio a um sentimento de “raiva do mundo” que o aluno nutria.
SENTIMENTOS
Com mais de 20 anos de experiência em consultório, a psicóloga clínica Fabiana Luckemeyer, que atende adolescentes, disse que os casos de violência grave podem esconder problemas ou transtornos mais sérios do que apenas sentimentos como raiva.
“Em geral, quando você tem um ataque de fúria, que chega a ter morte, assassinato, pode ser que a pessoa tenha uma doença ou transtorno mental que anteceda o episódio.”
Mas ela admitiu que o processo de bullying que o jovem sofra no ambiente escolar também age como gatilho para casos mais graves de violência.
“O peso do bullying é significativo. Às vezes, o jovem guarda aquele sentimento por ano, sofrendo e com muita angústia. E não se sabe o quanto psiquicamente a pessoa é forte ou fraca”, afirmou, acrescentando que a forma como foi educada pelos pais também influencia nesse aspecto.