10 de julho de 2026
VIOLÊNCIA

Dor na escola: ataques e ameaças de massacres assustam pais e elevam o nível de tensão

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação / Fernando Frazão / Agência Brasil
Homenagem às vítimas do ataque na capital

Território do saber, da descoberta e da integração, as escolas têm se transformado em espaços de violência e dor, para a apreensão de pais, alunos e educadores e a perplexidade da sociedade.

Foi o que aconteceu na escola estadual Thomazia Montoro, na Vila Sônia, zona oeste de São Paulo, na segunda-feira (27).

Armado com uma faca, um adolescente de 13 anos invadiu a unidade de ensino e atacou professores e alunos. Uma educadora de 71 anos morreu e quatro ficaram feridos.

O jovem agressor foi apreendido. Em carta deixada aos pais antes do crime, ele cita que bullying, tristeza e ódio o levaram a fazer “uma besteira”.

Não se trata de caso isolado. O adolescente apreendido utilizava em uma rede social apelido que fazia menção a um dos atiradores do massacre em escola de Suzano, em março de 2019.

Na ocasião, dois jovens (17 e 25 anos) invadiram a escola e mataram oito pessoas, cometendo suicídio em seguida. Por sua vez, eles tentavam imitar o massacre na escola de Columbine, no Colorado (EUA), em 1999, quando dois alunos assassinaram 13 pessoas e feriram 24.

Columbine serviu de inspiração para um adolescente de 14 anos invadir uma escola em Goiânia, em 2017, e matar a tiros dois estudantes e ferir outros quatro. Ele foi apreendido pela polícia.

Antes disso, um ex-aluno da escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, no Rio de Janeiro, matou 12 crianças e feriu 13 em um ataque com arma de fogo em 2011. O atirador de 23 anos se matou após ser baleado por um policial.

Os casos têm em comum a admiração dos invasores por atos de violência cometidos anteriormente em escolas e alegações de rejeição, bullying e ódio por seus colegas e professores. Uma espécie de “raiva do mundo”.

Esse efeito viral é potencializado pelas redes sociais, marcadas nos últimos dias por mensagens de supostos massacres em escolas da região.

A Polícia Civil de São Paulo registrou, entre 27 e 28 de março, sete boletins de ocorrência envolvendo “planos de adolescentes em relação a ataques em ambiente escolar“. O governo estadual determinou reforço de policiamento em escolas estaduais.

“Precisamos prevenir esse tipo de atitude que a pandemia aflorou ainda mais Precisamos ter um olhar cada vez mais atento nas escolas estaduais. Vamos dar todo o apoio”, disse Felicio Ramuth (PSD) durante visita ao Vale no dia do ataque à escola na capital. Na ocasião, ele falava como governo de São Paulo em exercício. “Temos a obrigação de fazer de tudo para prevenir ataques a escolas estaduais”.

RMVALE

Tais ameaças de ataque a escolas explodiram no Vale do Paraíba após o episódio na capital, levando a Polícia Militar a reforçar a segurança nas unidades.

Em São José dos Campos, na quarta-feira (29), uma ameaça de massacre na escola estadual Estevam Ferri, no Monte Castelo, elevou o clima de apreensão e fez a PM ir até a unidade de ensino. Havia relatos de que a parede do banheiro tinha sido pichada anunciando um ataque para 30 de março.

Na manhã da mesma quarta, um aluno foi detido na Univap (Universidade do Vale do Paraíba), na zona oeste de São José, por portar bombinhas e uma arma de airsoft – réplica de arma de fogo usada em esportes que simulam ataques militares. O jovem foi conduzido para a delegacia de polícia.

No dia anterior, duas alunas brigaram em sala de aula na escola estadual Antônio de Moura Abud, no Jardim América, em Taubaté, usando estiletes. Elas tiveram que ser contidas e trancadas no banheiro.

Para piorar o cenário de violência, pais teriam trocado tiros no lado de fora da unidade. Os professores relataram uma situação de pânico.

“Foi horrível e até chorei. Deus me livre. Nunca tinha visto isso em 15 anos em sala de aula. Eu vi o tiro de perto”, escreveu uma educadora em grupo de mensagem, ao qual OVALE teve acesso. Ela disse ter precisado se esconder na casa de uma vizinha para fugir dos tiros.

INVESTIGAÇÃO

A região já havia sido destaque no noticiário nacional por ter duas das três escolas identificadas por uma agência de segurança americana com planos de ataques. O caso ocorreu duas semanas antes do episódio na capital.

Três adolescentes estavam envolvidos em planos de ataque a escolas de São José dos Campos e Caçapava. Eles foram identificados e levados à delegacia, sendo liberados após depoimentos.

“O aumento vertiginoso do número de ataques evidencia a urgência da compreensão do problema. Apenas a partir do diagnóstico de suas causas será possível elaborar e fortalecer medidas de prevenção”, escreveu Priscilla Bacalhau em artigo publicado na internet. Ela é doutora em economia, consultora de impacto social e pesquisadora da FGV (Fundação Getúlio Vargas).