09 de julho de 2026
CONFLITO

Com milhares de mortos e refugiados, guerra na Ucrânia completa um ano

Por Agência Brasil | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Guerra na Ucrânia

Apagando vidas.

A guerra entre Rússia e Ucrânia completou um ano nesta sexta-feira (24).

Milhares de vidas foram perdidas, milhões de pessoas tiveram de deixar suas casas para tentar a vida em outros países e milhões de crianças abandonaram as escolas. Como em todo conflito, a verdade sucumbe e mentiras são espalhadas não apenas pela internet, mas também por fontes oficiais.

Para se ter uma ideia do desencontro de informações, o número de mortos varia, dependendo da fonte, de cerca de 7.000, segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), a mais de 300 mil, de acordo com fontes militares consultadas por mídias europeias.

Professor do Instituto de Relações Internacionais da UnB (Universidade de Brasília), Roberto Goulart Menezes, explicou que o embate vai muito além de duas nações, o que de certa forma lembra a antiga Guerra Fria, na qual os Estados Unidos e a União Soviética se enfrentavam indiretamente, na busca por ampliar áreas de influência em diferentes regiões do planeta.

“Podemos denominar o conflito como uma guerra por procuração, após a Rússia ter violado a soberania territorial e o direito internacional, quando invadiu a Ucrânia em 24 de fevereiro de 2022”, disse o professor.

Segundo ele, ao enfrentar a Ucrânia, a Rússia tem um embate “contra a Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e contra a principal liderança do grupo: os Estados Unidos, embora não estejam diretamente atuando no conflito”.

“O que está acontecendo, na realidade, não é guerra da Ucrânia. É guerra na Ucrânia. É uma guerra do Ocidente contra a Rússia”, afirmou Hector Luis Saint-Pierre, diretor do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

FRONTEIRA

Para os especialistas, a situação atual se deve, entre outros fatores, ao temor de avanço da Otan nos países próximos à fronteira com a Rússia, bem como ao receio de avanço de tropas russas em territórios de países vizinhos.

“O ponto inicial foi de expansão da Otan em direção às fronteiras da Rússia. Durante o governo de George Bush, entre 2001 e 2009, os EUA vinham desenvolvendo, por meio da Otan, uma espécie de escudo espacial para tentar neutralizar boa parte dos armamentos da Rússia que pudessem ser utilizados contra países europeus”, disse Menezes.

A hostilidade, lembrou o professor, só cresceu nos últimos 20 anos. “A Rússia até chegou a ter uma parceria especial com a Otan, mas a situação mudou, sobretudo a partir de 2014, quando invadiu e anexou a Crimeia”.

Menezes disse que o argumento reiteradamente utilizado pelo presidente russo, Vladimir Putin, foi de que, com a expansão da Otan em direção aos países do antigo Leste Europeu, a Ucrânia estava prestes a se tornar membro permanente do grupo liderado pelos EUA.

“Só que a Rússia considera que a Ucrânia na Otan significa a Otan em fronteiras russas, o que inclui o temor de nuclearização do território ucraniano”, completou o professor da UnB.

Para ele, o fato é que a Rússia invadiu a Ucrânia e não esperava a reação do país e o apoio da opinião pública que está recebendo, além do apoio militar. "Desde então, as relações entre Otan/EUA e Rússia tem degringolado cada vez mais”, afirmou Menezes, classificando a Rússia como “agressora”.

PRESIDENTE DEPOSTO

Na avaliação do diretor da Unesp, Saint-Pierre, um fator relevante para a situação atual foi o fato de a Ucrânia ter sofrido um golpe de Estado em 2014, após a destituição do presidente eleito Viktor Yanukovych, em meio aos violentos protestos da chamada “Revolução da Dignidade”, iniciada na capital Kiev.

O presidente deposto refugiou-se na Rússia, em meio a acusações de ser responsável pela morte de manifestantes. Foi então instalado um governo interino, com o apoio de grupos de direita. Nas eleições seguintes, em maio de 2014, foi eleito Petro Poroshenko, um político favorável à aproximação da Ucrânia com o Ocidente.

“O golpe de 2014 foi contra um governante eleito que não pretendia entrar na Otan. Por isso, foi golpeado e destituído. A partir daí, foi montada uma estrutura de avanço contra toda cultura russa, na Ucrânia e a na Crimeia, onde está boa parte da base naval russa”, argumentou.

OGIVAS NUCLEARES

Além da perda de vidas e dos milhões de refugiados, um dos efeitos colaterais mais temidos na guerra entre Rússia e Ucrânia é uma hecatombe nuclear. O tema está no meio do imbricado xadrez político entre os dois países e outras potências.

“O fato é que com sua independência, em 1991, a Ucrânia era o terceiro país no mundo em número de ogivas nucleares, com cerca de 1,9 mil dessas armas. Um acordo em 1994, envolvendo países europeus e os EUA, acabou resultando na transferência das ogivas à Rússia, com a concordância da própria Ucrânia, temendo um acidente nuclear ou mesmo a utilização ilegal desses armamentos por parte de grupos que não fossem do Estado ucraniano”, disse Roberto Goulart Menezes, professor da UnB.