11 de julho de 2026
CARTAS PERDIDAS

Escritas no Vale, cartas de amor a Brumadinho são encontradas 4 anos após tragédia

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação
Voluntários do Vale enviaram mais de 450 cartas para as famílias de Brumadinho, em fevereiro de 2019

Os tesouros na lama.

Responsável pelo administrativo do Cras (Centro de Referência da Assistência Social) Cohab em Brumadinho, cidade de 41 mil habitantes em Minas Gerais, Jaqueline Silvério encontrou há cerca de 20 dias um tesouro escondido nos armários.

Dezenas de cartas em caixas dos Correios guardadas há quatro anos, sem chegar aos destinatários. Os misteriosos envelopes contêm mensagens, desenhos e poemas enviados aos atingidos por um dos maiores desastres humanitário e ambiental do país.

A pacata cidade mineira tornou-se mundialmente conhecida com o rompimento da barragem da empresa Vale, em 25 de janeiro de 2019, tragédia que completa quatro anos. A avalanche de lama deixou 272 pessoas mortas, chamadas pelos familiares e sobreviventes de ‘joias’, os ‘tesouros’ que continuam vivos na memória.

De acordo com o Ibama, a lama destruiu uma área equivalente a quase 300 campos de futebol. Mais de 100 hectares de vegetação nativa de Mata Atlântica foram devastados.

Na semana em que Brumadinho recorda as vítimas da tragédia, Jaqueline transformou o mistério das cartas em pura emoção, que contagia o pacato município.

Em contato com a Avabrum (Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão), ela descobriu que as cartas foram enviadas por voluntários do Vale do Paraíba para familiares das vítimas de Brumadinho, em fevereiro de 2019, ainda no calor da tragédia.

Lendo os textos escritos à mão, Jaqueline se emocionou com as mensagens de consolação, solidariedade e para compartilhar a dor que não se mede, e nem se apaga. Desenhos, poemas e frases construídas com amor e encaminhadas àqueles cujo coração ardia em dor. Naquelas linhas, Brumadinho vivia no Vale.

“A primeira cartinha que abri era de uma criança, um desenho de um sol, uma paisagem muito bem colorida”, conta Jaqueline. “Como moradora de Brumadinho, por ter vivenciado essa tragédia (crime) que mudou totalmente nossas vidas, e ver tanto carinho como poemas, desenhos e frases de conforto, é como um abraço bem apertado”.

As cartas também emocionaram a vice-presidente da Avabrum, Andresa Rodrigues, professora de 45 anos que perdeu seu único filho Bruno, aos 26 anos, em meio à lama da barragem. “Comecei a ler as cartas e estou encantada e emocionada. São tão reais, apesar dos quatro anos. A solidariedade nas cartas se faz necessária cada dia mais”.

Andresa, Jaqueline e diversos moradores de Brumadinho se surpreenderam ao saber que os envelopes foram enviados pelo projeto ‘Cartas Perdidas’, criado em 2012 pelo jornalista e editor-chefe de OVALE, Guilhermo Codazzi. Em 2019, a ação ganhou um braço social.

“Não conhecia o projeto. É incrível que as cartas tenham ficado perdidas e encontradas num momento de ainda tanta dor, de lama de sangue. O sentimento das cartas ganhou força nesses quatro anos”, diz Andresa.

Segundo ela, a associação vai encaminhar as cartas aos familiares das vítimas de Brumadinho (leia texto nesta página), como previa o projeto em 2019, quando enviou mais de 450 cartas para a cidade mineira. Desta vez, elas chegarão aos destinatários com um sentimento ainda mais especial.

“Abri uma carta e ela me trouxe algo muito forte. Veio com dois papéis amarelos, nos quais se lê: ‘Você é mais forte do que imagina’ e ‘Cole esse recado no lugar que sempre veja e dê para alguém especial’. Isso chegou para nós no momento em que precisávamos”, disse Andressa.

Para Guilhermo Codazzi, a ‘descoberta’ das cartas perdidas em Brumadinho provoca espanto e dá a certeza de que as mensagens de amor, fé e esperança surgem acima da lama da tristeza quatro anos depois da tragédia. Elas também sobreviveram.

“Cada palavra é como uma semente, capaz de dar bons frutos. Esperamos que as cartas sejam sementinhas de esperança, de recomeço. Além de mostrar às vítimas da tragédia que elas não estão só”, disse o jornalista.

Não estar só é um dos maiores desejos dos familiares das vítimas de Brumadinho. Elas não querem ser esquecidos e cobram que a Justiça condene os responsáveis pela tragédia. Duas empresas e 16 réus foram indiciados pelo rompimento da barragem.

Tia de uma das vítimas, a pedagoga Janaina Almeida, 30 anos, foi uma das primeiras a saber do reencontro das cartas do Vale para Brumadinho. Ela e a filha Alice Jolie, 9 anos, leram juntas algumas mensagens.

“O sentimento é muito vivo, apesar dos quatro anos, pois a dor permanece em nós. Mesmo que distante e com palavras, numa das cartas uma pessoa nos manda um abraço em forma de palavras. E pode ser ofertado agora, em forma de acalento”, afirmou.

A dor permanece, é verdade, Janaina, assim como a esperança, carta de amor antes perdida e agora encontrada em Brumadinho -- CEP: 35460-000.