Político mais ilustre da história de Pindamonhangaba e um dos mais conhecidos do país, Geraldo Alckmin (PSB) foi dado como ‘politicamente morto’ após as eleições de 2018, quando ficou em quarto colocado na corrida presidencial e teve o pior desempenho da história do PSDB.
O prêmio de consolação seria disputar mais uma vez o governo de São Paulo em 2022. Alckmin liderava as pesquisas de intenção de voto. Mas o ex-governador de São Paulo optou por deixar três décadas de PSDB e filiar-se ao PSB, tornando-se candidato a vice-presidente ao lado de Luis Inácio Lula da Silva (PT), para quem perdera a eleição presidencial em 2006.
O movimento dividiu opiniões de amigos e antigos aliados no Vale do Paraíba, mas mostrou-se a decisão acertada após o resultado das urnas em 30 de outubro, quando mais de 60 milhões de brasileiros elegeram Lula e Alckmin para comandar o país pelos próximos quatro anos.
Além de vice-presidente e nome natural na sucessão presidencial em 2026, Alckmin foi escolhido por Lula para comandar o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.
Com Alckmin, a pasta ganha importância adicional. Lula espera que o ministério consiga reverter o processo de desindustrialização do Brasil e gerar empregos, além de tornar-se interlocutor dos setores mais conservadores e ligados à direita.
Em janeiro, entre os dias 16 e 18, Alckmin deve chefiar a delegação brasileira que vai ao Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. Também irão ao evento os futuros ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva (Rede).
TRAJETÓRIA
Alckmin começou sua carreira em Pindamonhangaba, onde nasceu em 1952. Médico e professor, ele foi eleito vereador, presidente da Câmara e prefeito da cidade. Em 1982, foi eleito deputado estadual e federal em 1986.
Ao lado de Mário Covas, Alckmin elegeu-se vice-governador de São Paulo em 1994. Com a morte de Covas, em março de 2001, assumiu o governo paulista e se reelegeu em 2002. Foi ainda secretário de Desenvolvimento do Estado em 2009, na gestão de José Serra (PSDB), e novamente eleito governador em 2010 e reeleito em 2014, renunciando em abril de 2018 para disputar novamente a presidência.
Portanto, a longa trajetória política de Alckmin no PSDB deixou muitos amigos e antigos aliados surpresos ao vê-lo mudar de partido e tornar-se vice na chapa com Lula, a quem já teceu críticas severas no passado. Alckmin deixou o PSDB e filiou-se ao PSB em 2022 e foi oficializado, em julho, como vice na chapa com Lula.
RESPEITO
Amigo de longa data de Alckmin e ex-coordenador regional do PSDB, Francisco de Assis Vieira Filho, o Chesco, disse que a decisão do ex-tucano de mudar de legenda e aderir à campanha de Lula foi estritamente pessoal, sem consulta partidária.
Ele também destacou que Alckmin conta com respeito e admiração entre os ex-aliados políticos da região, mas que isso pode não se traduzir em votos.
“Os amigos, a família e a população de Pindamonhangaba têm um respeito grande pela decisão dele. Não conseguimos mudar a regra do jogo. Foi decisão muito pessoal. Ele se sentiu preterido em São Paulo e saiu do partido. Depois que saiu, ele sabe da amizade do Vale do Paraíba com a história dele”, disse Chesco.
“É campanha, né. Tem oposição, mas é importante que a decisão do Geraldo foi pessoal, sem ingerência de amigos ou parceiros ou quem pudesse contestar. Ele pediu inspiração a Deus e decidiu.”
“Pinda tem carinho imenso pelo filho mais ilustre da cidade. Temos o nome político mais forte. Geraldo conta com o respeito, mas isso não necessariamente significa voto”.
Chesco disse que segue “a cartilha da dona Lu Alckmin [mulher de Geraldo]”: “O Geraldo pode ser candidato a nada ou a qualquer coisa e sabe que pode contar comigo, a Lu disse isso. A política é assim”. E completa: “Provocou várias surpresas a ida dele [para o PSB e a chapa de Lula], mas de forma muito respeitosa”.
Ele também disse que o PSDB no Vale “mergulhou de cabeça” na campanha à reeleição do governador Rodrigo Garcia. Para presidente, o PSDB é vice na chapa da senadora Simone Tebet (MDB), com a senadora tucana Mara Gabrilli.
CRÍTICAS
Agora, há os ex-aliados na RMVale que viraram adversários políticos, e vice-versa. Felicio Ramuth (PSD) é um deles. O também ex-tucano tornou-se um duro crítico da decisão de Alckmin de aderir à campanha de Lula.
O ex-prefeito de São José dos Campos e eleito vice-governador de São Paulo ao lado de Tarcísio de Freitas (Republicanos) disse que a decisão de Alckmin foi uma “decepção”.
“Governador aqui da nossa região, o Geraldo, passou a vida lutando contra o mundo político. E agora por causa da eleição joga toda a coerência de uma vida para apoiar o Lula. Quem está de fora acha que tem que ser assim. Não é verdade”, afirmou Felicio durante a campanha, em um clube de tiro em Tremembé.
Também admirador e amigo de longa data de Alckmin, o ex-prefeito de Aparecida, José Luiz Rodrigues, o Zé Louquinho (PL), mesmo estando no partido do presidente Jair Bolsonaro, disse que tem muito respeito pelo político de Pindamonhangaba.
“Política é assim. Um dia você é adversário, outro é aliado. Faz parte do jogo político. Tenho muito respeito pelo Geraldo e admiro a trajetória dele”, afirmou.
PRÓ E CONTRA O PT
Prefeito por quatro mandatos em Pindamonhangaba, Vito Ardito Lerário disputou a eleição de 2018 para deputado estadual pelo PP, mas não se elegeu. Ele também é um entusiasta de Alckmin, mas crítico do PT, e acha que as pessoas não votarão no conterrâneo por causa do Lula. “Tem muitos vídeos do Geraldo criticando o Lula”.
Na contramão, o metalúrgico, sindicalista e vereador eleito pelo PT em Pindamonhangaba, Herivelto Vela, mantém as críticas que sempre fez a Alckmin, mas disse que o momento é de “buscar convergência” e apoiar a chapa Lula-Alckmin.
“Surpreendente para nós”, disse o deputado federal Eduardo Cury (PSDB) na época da saída de Alckmin do partido. Mesmo adotando uma postura discreta nesse assunto, em maio deste ano, Cury retuitou uma postagem do escritor Augusto de Franco, sobre a chapa Lula-Alckmin.
“Alckmin não é uma aliança. É um golpe de propaganda eleitoral. É um pretexto para Lula dizer que o PT não está sozinho numa frente de esquerda, que busca uma composição com todos, até com representantes da centro-direita”, escreveu Franco.