Matéria atualizada às 16h33 do dia 29 de novembro de 2022
O ‘Velho Testamento’ da bola.
Perdido através do tempo, não se sabe ainda se no primeiro ou segundo, um surrado pedaço de papel guarda um tesouro de valor inestimável para os amantes do esporte mais popular do planeta. Escrita de próprio punho, essa tábua de mandamentos do camisa 10 traz o passo a passo para a conquista do mundo, para a eternidade, em uma batalha que transformou 11 simples mortais em verdadeiros ‘deuses da bola’, consagrando um deles como rei absoluto. E aí, prezado leitor, arrisca um chute?
Escrita em 1970, só quatro meses antes da Copa do Mundo no México, uma redação explicou -- minuciosamente -- qual era o plano da Seleção Brasileira para dar a volta por cima após o vexame de 1966, na Inglaterra, e volta a conquistar a Taça Jules Rimet. Na assinatura, a redação escolar trazia o nome do aluno famoso: Edson Arantes do Nascimento, conhecido como Pelé, o ‘Rei’ do futebol.
O título? Já falaremos da taça, ainda estamos falando da redação. Qual era o título da redação, que hoje tem paradeiro incerto? “Só com muito esforço poderemos vencer”.
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PLEBEU.
Essa redação, uma espécie de ‘evangelho’ perdido das Copas, foi escrita pelo Rei em Taubaté, onde o craque viveu uma semana como plebeu, em 1970, para fazer o exame do Madureza -- o supletivo da época. “Enquanto eu treinava com o pessoal da Seleção, minha esposa e o Zoca ficaram procurando os locais onde eu poderia prestar exames. Minha sorte foi que eles descobriram que em Taubaté os exames seriam realizados agora, justamente numa folga dos treinamentos da Seleção”, disse à época ao Jornal do Brasil.
No período, mesmo consagrado, Pelé hospedou-se em uma pensão na rua das Palmeiras e chegou a lavava as próprias roupas. “Pelé, como qualquer cidadão comum, descia de calção e sandálias e lavava suas próprias peças íntimas. Eu e o meu colega de quarto, Rochinha, que hoje é juiz de Direito, parávamos de lavar nossas cuecas e ficávamos encantados, olhando para o enorme pé do famoso atleta”, narra o escritor Jader Ferreira no livro de crônicas “Histórias do João Macaco” (ver texto nesta página).
EXAME.
Se dentro de campo a meta de Pelé era o Tri no México, fora a ideia era fazer o supletivo para no futuro cursar Educação Física. Na prova de Conhecimentos Gerais, o Rei, leitor assíduo de jornais, tirou de letra.
Se em 1966, alvo de botinadas violentas, o camisa 10 foi vencido pelos portugueses, em 1970, por sua vez, foi bem no exame de Português, na redação.
O tema era o Mundial no México. Pelé sabia -- e muito bem -- o quanto seria difícil reconquistar a Copa. Hoje celebrada pela Fifa como a melhor seleção de todos os tempos, com o Rei e outros craques históricos, como Jairzinho, Rivelino, Gérson, Carlos Alberto e Tostão, a Seleção partiu para a competição sob desconfiança.
Havia quem dissesse que Pelé -- acredite -- era pé frio em Copas e tinha problema na vista.
Bom de bola e de letra, o camisa 10 mostrou, no Madureza e no México, que sabia qual era o caminho certo -- foi aprovado e levantou a taça, fazendo lindos gols e jogadas.
É, pelo jeito, Pelé escreve certo por linhas tortas...
Onde está o ‘Velho Testamento’ deste Deus da bola?
Nesta quinta-feira (29) Pelé morreu aos 82 anos, vítima do câncer no cólon.