O azul do céu não deixa mentir: quer coisa mais bonita do que um dia de sol? Aquele azulzinho infinito é quase boleiro, um imenso campo de futebol que ainda não esverdeou.
É bom que se saiba que a cor azul e o futebol têm relação estreita e transcendental.
Tem aquele azulão da camisa francesa na final da Copa do Mundo de 2018, na Rússia.
Tem o azul celeste da bandeira brasileira, por cinco vezes hasteada no mais alto pódio do futebol mundial.
Mas é o azul celestial, o do manto de Nossa Senhora Aparecida, que faz do nosso futebol um milagre. Um mistério da alegria e da fé humana.
“A maravilha de aquarela que surgiu / O manto azul da padroeira do Brasil / Nossa Senhora Aparecida”, canta a saudosa Clara Nunes em “Portela na Avenida”, samba de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte.
De 1958 a 2022, é em Aparecida, a capital católica do país, que nasce a convocação para nosso time voltar com a taça, desta vez o inédito hexacampeonato mundial. A relação entre a padroeira e a seleção vem de longe.
Disputada no Brasil, a Copa do Mundo de 1950 estava no papo. Ninguém podia segurar o escrete comandado por mestre Zizinho. Mas a bela camisa branca com golas azuis usada na final contra o Uruguai não trouxe sorte: 2 a 1 para a Celeste em pleno Maracanã. Trauma histórico.
Oito anos depois, na Suécia, o Brasil estava de volta à final da Copa do Mundo. Desta vez, vergando a amarelinha, o tradicional uniforme patrício. Mas os suecos também jogavam de amarelo e o Brasil precisou trocar. Vai de branco de novo? Não, deu azar em 1950.
Foi então que Paulo Machado de Carvalho, chefe da delegação brasileira, mandou comprar camisas azuis e costurar o emblema e o número dos jogadores. Para convencer a molecada, disse-lhes: “A seleção vai jogar com a cor do manto de Nossa Senhora Aparecida”.
E o milagre aconteceu: 5 a 2 para o Brasil, com show do jovem Garrincha e de um garoto de 17 anos que viraria o nosso Rei Pelé.
Desde então, Nossa Senhora Aparecida sempre esteve ali por perto da seleção canarinho, que muitas vezes jogou de azul, em vitórias e derrotas. Nas Copas de 1994 (EUA) e 2002 (Japão/Coreia), a seleção usou o azul na campanha que resultou em títulos.
Na Copa asiática, Ronaldo Fenômeno também foi marcado pela fé na Padroeira do Brasil. Antes do torneio, ele tentava superar várias lesões, principalmente nos joelhos, para poder jogar bem o mundial. Esteve no Santuário Nacional de Aparecida para pedir proteção da santa. Não só jogou a Copa inteira, como foi campeão e artilheiro com oito gols.
Após o feito, Ronaldo deixou um objeto de cera, em forma de joelho, na Sala das Promessas do Santuário Nacional. Também deixou lá a camisa da seleção autografada, hoje uma das principais atrações da Basílica. Em troca, o craque ganhou uma escultura em tamanho natural no Museu de Cera de Aparecida.
“O boneco de cera representa muito para mim. Minha vida tem sido abençoada”, disse Ronaldo por ocasião da inauguração de sua estátua de cera, em 2016.
Na Copa do Qatar, novamente Nossa Senhora Aparecida e seu manto azul terão papel especial. O técnico Tite é devoto da santa e faz questão de manter uma imagem dela sempre por perto, normalmente no vestiário. Também carrega nos braços pulseiras de vários santos, sem esquecer a de Nossa Senhora Aparecida.
Nos altares improvisados em vestiários, Tite faz orações e pede a proteção para os times que dirige. Foi assim com o Corinthians campeão do Mundo em 2012 e oxalá repita o feito 10 anos depois, dirigindo a Seleção Brasileira.