Corria o ano da graça de 1938. Véspera do Halloween nos Estados Unidos. A rádio CBS interrompe a programação para noticiar uma invasão de marcianos.
Tratava-se, na verdade, de dramatização do livro de ficção científica ‘A Guerra dos Mundos’, do escritor inglês Herbert George Wells. O responsável pela peça de radioteatro era o diretor Orson Welles (1915-1985).
A audiência da rádio foi nas alturas – 6 milhões de ouvintes –, mas a ‘notícia extraordinária’ desencadeou pânico em várias cidades norte-americanas. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Dessas, 500 mil causaram congestionamentos gigantes tentando fugir do perigo.
Salto para 2022. Véspera de Dia do Saci no Brasil. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é eleito presidente da República. A imprensa dá a notícia por todo o país, mas milhares resolvem não acreditar.
Assim como os ‘marcianos’ de Welles levaram crédito há 84 anos, uma massa de brasileiros resolve acreditar em teorias da conspiração e negar a realidade.
Teses esdrúxulas passaram a alimentar desejos golpistas entre seguidores do presidente Jair Bolsonaro (PL). Derrotado nas urnas, o mandatário adotou o silêncio e deixou a desinformação espalhar-se pela internet como fogo em mato seco.
Antes da eleição, além das conhecidas teses amalucadas de fraude nas urnas, que voltariam com força depois do pleito, os ataques bolsonaristas apostavam em mentiras de que Lula, se vencesse, fecharia igrejas e implantaria o comunismo no país.
Pós-segundo turno, as teorias conspiratórias ficaram ainda mais bisonhas: o Brasil seria invadido por nações estrangeiras governadas pela esquerda; Lula estaria à beira da morte; a eleição seria anulada por comprovação de fraudes nas urnas; as Forças Armadas tomariam o poder e manteriam Bolsonaro na presidência.
Vídeos de bolsonaristas autointitulados ‘patriotas’ viralizaram no Brasil e até no exterior, provocando disputas entre as imagens mais bizarras: bolsonarista pendurado em caminhão, gritando por socorro em quartel do Exército, rezando para pneu e caminhões, pelotões de crianças marchando, comemorando as prisões (inexistentes) de Alexandre de Moraes e de Lula e a vitória (inexistente) de Bolsonaro.
Não satisfeitos, apoiadores de Bolsonaro renovaram o estoque de teorias da conspiração na última semana para manter piquetes às portas de unidades militares do Vale do Paraíba e em diversas cidades brasileiras, sempre cobrando “intervenção federal e militar” dos aquartelados.
A primeira delas diz que o resultado da eleição ainda pode ser revertido antes de 19 de novembro, data marcada pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para a diplomação de Lula e do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB). Trata-se de uma espécie de “gol aos 48 do segundo tempo” para a narrativa bolsonarista.
Para justiçar o tal ‘gol de ouro’, o submundo da desinformação bolsonarista espalha áudio apócrifo de um suposto juiz (sem identificação alguma) que teria uma decisão judicial para reverter o resultado das eleições e prender Lula e o presidente do TSE, Alexandre de Moraes (ele de novo).
Sem pé nem cabeça, a teoria se sustenta numa mentira para manter pessoas protestando nas ruas e insuflar o clima de desestabilidade, na avaliação do cientista Social e Político Sérgio Amadeu da Silveira, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC) e consultor de Comunicação e Tecnologia.
Para ele, as fake news são fabricadas pela rede bolsonarista com motivação política. “É uma rede distribuída, sem um único centro, mas uma estratégia política de desinformação. Não dá para saber se elas acreditam nisso ou se estão no trabalho intencional de disseminar uma mentira”.