O ódio no fermento.
Para o escritor Michel Gherman, professor de Sociologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e pesquisador do Centro de Estudos do Antissemitismo da Universidade Hebraica de Jerusalém, o presidente Jair Bolsonaro (PL) flerta com ideários nazistas durante toda a sua carreira política.
“Bolsonaro traz um discurso vinculado ao nazismo com uma estética nazista e uma perspectiva nazista”, apontou o intelectual e pesquisador em artigo.
“Ele faz o discurso autoritário, muito bem-vindo por setores da sociedade brasileira, e que, no caso de Bolsonaro e dessa ascensão da extrema direita, incluiu elementos carismáticos. Essa mistura é explosiva: uma tradição autoritária, um discurso carismático e uma estética nazista”.
Para o acadêmico, que vê com preocupação a ascensão de grupos de extrema direita ativos no Brasil, a derrota de Bolsonaro no segundo turno serviu como uma espécie de ‘passe-livre’ para os radicais saírem das sombras.
“Isso é absolutamente preocupante. Estão organizados, internacionalmente vinculados, com estrutura e estão em ascensão, não em declínio. A derrota do seu líder acabou colocando-os de maneira mais livre para se expressar”, afirmou Gherman.
Segundo ele, há uma “extrema direita organizada e pronta para ataque” no Brasil. “Não há país no mundo que entre 2018 e 2022 tenha registrado mais crescimento de grupos neonazistas. Estou falando em crescimento, em número de células. Isso não tem a ver com Mercúrio retrógrado, isso tem a ver com Bolsonaro”, completou.
Pesquisa da antropóloga Adriana Dias, que se dedica a estudar o neonazismo no Brasil desde 2002, mostra que existem pelo menos 530 núcleos extremistas no país, um universo que pode chegar a 10 mil pessoas. Isso representa um crescimento de 270% de janeiro de 2019 a maio de 2021.
Segundo ela, os núcleos extremistas se beneficiam pela falta de leis contra discursos de ódio, o que causa obstáculos à aplicação de punições. Ela também vê “traços neonazistas” na forma de agir de Bolsonaro.
“Sempre teve. E as instituições no Brasil têm que parar de fazer carta de repúdio. Acho que nazismo não resolvemos com carta de repúdio. Precisamos fazer algo a mais. A população precisa ser conscientizada”.