Presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e arcebispo de Belo Horizonte (MG), dom Walmor Oliveira de Azevedo condenou a manipulação religiosa da política e se mostrou preocupado com o crescimento de um “cristianismo torto no Brasil”.
Em artigo publicado no site da CNBB, dom Walmor reflete sobre a mistura de poder, justiça e paz e diz que “não basta defender uma parte dos valores cristãos”.
“O adequado exercício do poder não se relaciona à conquista de espaços para obter favorecimentos de qualquer tipo. Menos ainda quando esses favorecimentos levam à manipulação de interesses que comprometem os direitos de todos, prejudicando, especialmente, os mais pobres”, apontou o religioso.
Ele disse que uma grande tarefa dos cristãos na contemporaneidade é “capacitar-se sempre, para a experiência da reconciliação, compreendendo o poder como serviço, e não motivo para disputas insanas”.
A declaração foi dada antes da instauração do ambiente de beligerância que tomou conta do país após a derrota do presidente Jair Bolsonaro (PL), nas eleições do último domingo (30). Nesse sentido, o texto do presidente da CNBB se mostra premonitório.
“Não se orientar, simplesmente, por ideologias e interesses, pois muitos estão na contramão do respeito à vida plena, em todas as suas etapas. E não basta defender uma parte dos valores cristãos”, afirmou dom Walmor.
Ele escreveu ainda que é preocupante o “crescimento de um cristianismo torto no Brasil, apontando graves comprometimentos civilizatórios”.
“É preciso estar atento às crescentes estratégias de manipulação que promovem a mistura entre fé, política e religião, obscurecendo e confundindo mentes, esvaziando as possibilidades reais de uma nova configuração social que favoreça a justiça e a paz.”
Sem citar Bolsonaro, o arcebispo disse que “deve-se refletir e ponderar sabiamente, para ter clareza de que seres humanos, no exercício do poder, não são deuses, para se evitar a idolatria de indivíduos”.
“As eleições são importantes, essenciais na configuração da democracia, mas não esgotam a responsabilidade de cada cidadão. Todos precisam seguir irmanados na permanente tarefa de edificar uma sociedade melhor, o que inclui promover todo o conjunto dos valores cristãos.”
Procurado, o Santuário Nacional de Aparecida informou que não comentou as eleições no Brasil no último domingo, tampouco os resultados. Também a Arquidiocese de Aparecida fez qualquer comentário sobre o pleito.