No domingo passado, dia 23, quando o calendário mostrava que faltava apenas uma semana para o segundo turno das eleições, uma bomba explodiu no país. Aliás, foram três granadas, para ser mais preciso.
As três granadas de luz e som, que consistem em um artefato não letal, causaram muito mais estragos do que os ferimentos provocados em dois agentes da Polícia Federal que cumpriam na cidade de Comendador Levy Gasparian, no interior do Rio de Janeiro, um mandado de prisão expedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal).
As granadas atingiram também em cheio a campanha à reeleição de Jair Bolsonaro (PL), já que foram disparadas por um aliado do presidente, o ex-deputado Roberto Jefferson. O ex-parlamentar também fez cerca de 50 disparos de fuzil em direção à viatura que transportava quatro agentes federais.
Àquela altura, Bolsonaro tentava criar uma agenda positiva que permitisse uma virada na semana derradeira de campanha, pois as pesquisas mostravam o presidente atrás do outro candidato, o ex-presidente Lula (PT). O ataque de Jefferson aos agentes deixou a campanha do aliado em curto-circuito.
Inicialmente, Bolsonaro chegou a determinar que o ministro da Justiça, Anderson Torres, fosse até o Rio para atuar presencialmente no caso, o que passou a impressão de que tentava proteger seu aliado. Após a repercussão negativa, o presidente recuou e começou a tentar desvincular sua imagem de Roberto Jefferson - chamou o ex-deputado de "criminoso" e disse que ele teve "tratamento" de "bandido" após atirar nos agentes federais.
Mais tarde, Bolsonaro chegou a dizer que não existia nenhuma foto de Roberto Jefferson com ele. Acabou desmentido por diversos registros dele com o ex-deputado - alguns deles publicados nas redes sociais do aliado. Posteriormente, levantamento feito a partir de agendas oficiais do próprio governo mostrou que o presidente de honra do PTB participou de pelo menos 10 reuniões com a cúpula do governo Bolsonaro em 2020 e 2021, antes de ser preso pelo STF acusado de atuar em organização criminosa digital para atentar contra a democracia.
Além disso, somente após os ataques de Jefferson aos agentes Bolsonaro repudiou publicamente as ofensas machistas do aliado contra a ministra Cármen Lúcia, do STF. O ex-deputado havia xingado a ministra, a comparando com "prostitutas", "vagabundas" e "arrombadas".
PRISÃO.
Na última quinta-feira (27), o ministro Alexandre de Moraes, do STF, converteu a prisão do ex-deputado em preventiva (por tempo indeterminado), sob a justificativa de que essa "é a única medida capaz de garantir a ordem pública" e a normalidade das investigações criminais contra ele. Jefferson estava em prisão domiciliar desde janeiro.
O aliado de Bolsonaro foi indiciado por quatro tentativas de homicídio – dos dois agentes feridos e dos outros dois que também estavam na viatura. Para o delegado Marcelo Villela, que foi um dos feridos, Jefferson agiu de forma premeditada.