11 de julho de 2026
FÉ & POLÍTICA

Bolsonarista, ‘Cinturão da Fé’ no Vale vira munição para Lula com ataques em Aparecida

Por Xandu Alves | São José dos Campos
| Tempo de leitura: 3 min
Reprodução
Bolsonaristas hostilizam profissional da imprensa na praça da Basílica Velha, em Aparecida

A fé na berlinda.

Candidato à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) venceu com folga o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas cinco cidades que compõem o chamado ‘Cinturão da Fé’, região dentro do Vale do Paraíba que abriga espaços sagrados da Igreja Católica, como o Santuário Nacional de Aparecida.

No entanto, episódios recentes de violência política misturada à intolerância religiosa na região, como em Aparecida e Jacareí, deram munição ao petista na ‘guerra santa’ travada pelos bolsonaristas contra Lula, que vem desmentindo fake news de que irá fechar igrejas e de que tenha ligação com satanistas, por exemplo.

Somando os votos válidos das cinco cidades (145.706) – Guaratinguetá, Lorena, Aparecida, Canas e Cachoeira Paulista --, o resultado das urnas revelou Bolsonaro vencendo nestes municípios com 92.804 (63,69%) contra 52.902 de Lula (36,31%).

Guaratinguetá foi a terceira cidade de toda a região a dar mais votos a Bolsonaro, com 57,88% dos votos válidos (41.721) contra 30,90% de Lula (22.274).

Na sequência, Bolsonaro teve mais votos em Lorena (57,74%), Aparecida (55,51%), Canas (52,67%) e Cachoeira Paulista (51,88%).

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Vitorioso nas urnas, o presidente vem sofrendo desgaste principalmente entre católicos após os recentes episódios de violência na região que repercutiram em todo o país.

Ataques ao arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, a um padre durante missa em Jacareí e, principalmente, o episódio de bolsonaristas ameaçando parar o ressoar de sinos em homenagem a Nossa Senhora Aparecida, em pleno 12 de outubro, para realizar uma oração em favor de Bolsonaro.

Os episódios colocaram o ‘Cinturão da Fé’ da RMVale no centro da disputa religiosa que permeia a campanha eleitoral, como nunca acontecera no país.

Em Jacareí, por exemplo, uma mulher apoiadora de Bolsonaro parou uma missa no meio para contestar o sacerdote que havia citado Marielle Franco, vereadora assassinada no Rio de Janeiro em 2018, durante a homilia.

“O senhor não vai falar de Marielle Franco dentro da casa de Deus. O senhor não vai falar de Marielle Franco, uma homossexual, uma envolvida com o tráfico de drogas, o senhor não vai falar de Marielle Franco dentro da casa de Deus. Uma esquerdista do PSOL, uma homossexual, que quer a ideologia de gênero dentro da escola das crianças”, disse a mulher, aos gritos, repetindo mentiras sobre Marielle.

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Episódios semelhantes têm ocorrido em outras igrejas do país, católicas e evangélicas, principalmente, mas também ocorrem ataques a religiões de matriz africana e espíritas.

Líder do Grupo de Estudos do Protestantismo e Pentecostalismo da PUC-SP, Edin Sued Abumanssur, doutor em Ciências Sociais e professor, disse que Bolsonaro não consegue diferenciar as esferas pública e privada e faz seu discurso religioso como “jogo eleitoral”.

“Bolsonaro deveria ter sido educado para isso [separar Estado da religião], mas não teve educação política suficiente. Ele não tem outro tipo de educação também, mas a educação política, formação política, leitura política, ele não tem. Ele deveria compreender que uma coisa é a esfera pública, outra coisa é a privada. Ele confunde as duas esferas”, afirmou.