Como a santa de Aparecida esteve um dia, o Brasil está em pedaços, marcado por ódio, polarização, racismo e movimentos antidemocráticos, negacionistas e obscurantistas. Sem esquecer a pandemia do coronavírus, que vitimou mais de 687 mil brasileiros.
Quem faz um paralelo entre a condição da imagem estilhaçada de Nossa Senhora Aparecida e o país é Maria Helena Chartuni, 79 anos, escultora, pintora, restauradora, desenhista e ilustradora.
Ela foi a responsável pela restauração da imagem em terracota da Padroeira do Brasil, fragmentada em quase 200 pedaços após um atentado ocorrido em 1978, na Basílica Velha, em Aparecida.
Para ela, a pandemia colocou a humanidade “de joelhos” e mostrou que “somos todos muito frágeis”. “Essa pandemia mostrou que nós, seres humanos, não temos controle da nossa vida em nada. Tudo vem de Deus. Pensamos que temos controle, mas não temos”.
RESTAURAÇÃO
Em 2017, a imagem restaurada por Maria Helena foi o centro da celebração dos 300 anos da santa, cuja estatueta enegrecida de terracota foi encontrada por pescadores nas águas do rio Paraíba, em 1717.
Naquele ano, com a participação de cerca de 400 mil fiéis em Aparecida, o Santuário Nacional se transformou no símbolo da reunificação e da restauração do país, mensagem ainda mais necessária às vésperas do segundo turno da eleição de 2022, marcada por ataques, violência e exploração da fé.
“Amar a Deus sem amar os irmãos, sem ter solidariedade com os marginalizados, estamos mutilando a metade do Evangelho”, disse o arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, que assumiu a Arquidiocese de Aparecida no começo de 2017.
DEFESA DA VIDA
Ele também se tornou um símbolo da defesa da fé combinada à vida e contra toda forma de violência, negacionismo e obscurantismo.
Não à toa, o religioso já bateu de frente com posturas do presidente Jair Bolsonaro (PL), que usará na campanha eleitoral um evento religioso em Aparecida, nesta quarta-feira (PL), dia da Padroeira do Brasil.
Bolsonaro vai participar do evento “rosário pelo Brasil em Aparecida”, convocado pelo Centro Dom Bosco, que tem sede no Rio de Janeiro e é considerado ‘símbolo da nova direita católica’.
O evento será realizado às 15h, na frente da Basílica Velha, no mesmo horário e local da Consagração Solene a Nossa Senhora Aparecida, esta promovida pelos missionários redentoristas que administram a Basílica.
O Santuário Nacional e a Arquidiocese de Aparecida informaram, por meio de nota, que o evento bolsonarista não é promovido e nem conta com a anuência de ambas as instituições. O mesmo fez a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
POLARIZAÇÃO
Em entrevista a OVALE, o diretor da Academia Marial de Aparecida e ex-reitor do Santuário Nacional, padre José Ulysses da Silva, lembrou que o governo brasileiro falhou no combate à pandemia, quando era a vida do povo que estava em jogo, especialmente dos mais pobres.
“Certamente tivemos mais mortes do que precisávamos ter. Um milagre não ter ocorrido com maior força. Houve absolutamente omissão da liderança. Deixaram o carro no ponto morto, ladeira abaixo, e ninguém para conduzir nada, a não ser para piorar.”
O sacerdote disse ainda que a polarização “veio com certa imaturidade nossa, principalmente nas redes sociais, em que todo mundo se torna valente e sábio”.
E completou: “Mas há uma irresponsabilidade grande. Não há necessidade de agressividade, de incitar o povo. E um determinado comportamento que não é saudável e que não ajuda a nossa gente a dialogar. A polarização é interesseira, para ganhar eleições e obter vantagem. Não é para o bem do povo”.