Com segundo turno nas disputas pelo Palácio dos Bandeirantes e pelo Palácio do Planalto, apenas no fim do mês saberemos quem irá ganhar as eleições para governador de São Paulo e presidente da República. Mas a votação em primeiro turno, no dia 2 de outubro, já foi suficiente para definir quem foi o maior derrotado nesse pleito: o PSDB.
Na disputa nacional, essa foi a primeira vez, desde sua fundação, em 1988, que o PSDB não teve candidato como cabeça de chapa. Nos oito pleitos anteriores, o partido havia sido vitorioso duas vezes, ambas com Fernando Henrique Cardoso, e disputado o segundo turno em quatro ocasiões - duas com José Serra, uma com Geraldo Alckmin e outra com Aécio Neves. Dessa vez, sem qualquer destaque, teve Mara Gabrilli como vice na chapa da emedebista Simone Tebet.
Na disputa estadual, o tombo foi ainda maior. Com o governador Rodrigo Garcia fora até do segundo turno, o PSDB deixará de comandar São Paulo após 28 anos consecutivos - nesse período, iniciado por Mário Covas em 1995, seis diferentes tucanos passaram pelo Palácio dos Bandeirantes.
Na Câmara dos Deputados, em Brasília, o PSDB cairá de 23 para 13 parlamentares. Uma bancada menor do que a do PSOL, por exemplo, que terá 14 representantes.
Para explicar essa derrocada, analistas políticos e lideranças do partido têm a mesma interpretação: o PSDB, que até anos atrás era dominante entre o eleitorado de centro-direita, perdeu esse espaço após a eleição de Jair Bolsonaro para a presidência, em 2018.
“O PSDB perdeu para o bolsonarismo porque não tem posição. Há muitos anos, não se posiciona sobre grandes questões. O PT, enquanto o Lula for vivo, tem lugar cativo. O Bolsonaro pegou essa demanda de gente com uma série de temas mais liberais, à direita. Ele pode não ser a pessoa ideal para fazer isso, mas é o que tem hoje. As pessoas votam nele por falta de opção. E partidos como o PSDB não se posicionam sobre as questões, e aí o eleitor não consegue votar porque não sente firmeza sobre as posições do partido. Não só o PSDB, qualquer partido de centro”, analisou o deputado federal Eduardo Cury, que atribuiu justamente à ‘onda Bolsonaro’ o fato de não ter sido reeleito para um terceiro mandato consecutivo.
“Meu partido esperava fazer 10 deputados [federais por São Paulo] e fez três, aí não há planejamento que segure isso”, completou Cury.
“O eleitorado brasileiro polarizou a eleição para presidente. Com essa polarização, os partidos de centro-direita e centro-esquerda perderam um pouco o foco. Quem estava do lado da esquerda extrema e da direita extrema, se fortaleceu”, analisou o presidente do diretório do PSDB em São José dos Campos, José de Mello Correa.
Para o secretário da coordenadoria regional do PSDB em Taubaté, Francisco de Assis Vieira, o Chesco, o resultado da eleição do último domingo trouxe perplexidade ao partido. “Nós estamos em estado de choque”, resumiu. “A polarização de Brasília chegou a São Paulo. Dois padrinhos fortes de Brasília [Bolsonaro e Lula] fortaleceram candidatos no estado”, acrescentou.
Para Chesco, o cenário atual exigirá uma análise mais aprofundada por parte da legenda. “Não pecamos por omissão, mas a classe política precisa se rediscutir. O eleitor pensa de um jeito, e o político de outro. Vamos ter que reaprender essa reengenharia política. O partido precisa ressurgir”.
O secretário regional, no entanto, não descarta que, ao fim desse processo, o PSDB poderá ser extinto. “O PSDB vai ter que ser revisto de ponta a ponta. Estamos num prejuízo brutal. Temos que reciclar o produto, colocar gente nova. E, se não tiver solução, colocar uma pá de cal. Foi bom enquanto durou”.
FUTURO.
Embora Cury ainda não crave sua permanência no partido, o PSDB já se articula para disputar a Prefeitura de São José em 2024 - nesse caso, provavelmente contra o ex-tucano Anderson Farias (PSD), que comanda o Paço.
“Não podemos perder conquistas tão grandes que nós tivemos”, disse o presidente do diretório municipal. “A gente vê hoje transporte público obsoleto, a coleta de resíduos com problema, mudança radical no 156, 153. Em vez de concessionar alguns serviços, estamos trazendo de volta, inchando novamente a Prefeitura. Estamos vigilantes e se entendermos que a cidade está com projeto ruim, vamos nos preparar para 2024”, acrescentou.
“O PSDB de São José continua forte. Temos uma gama de projetos muito grande, e nome [de candidato a prefeito] não é problema, temos grandes nomes”, concluiu.