11 de julho de 2026
LEGISLATIVO

‘Vou conduzir com transparência e facilitar as investigações’, diz presidente da Câmara

Por Xandu Alves | Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação
Vereadora Debora Palermo lidera a Câmara em meio a uma das maiores crises do Legislativo

Primeira mulher a assumir a presidência da Câmara de Campinas nos 224 anos de história da Casa, a vereadora Debora Palermo (PSC) lidera em meio a uma das maiores crises do Legislativo.

Ela assumiu o cargo por 30 dias, no final de setembro, após o pedido de afastamento do presidente Zé Carlos (PSB), que é alvo de investigação do Ministério Público sobre suposta corrupção passiva.

Alvo de operação do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) em agosto, Zé Carlos anunciou o afastamento após ser pressionado por vereadores da Casa.

A decisão ocorreu após a divulgação de áudios que indicam supostas tratativas de propina em esquema de favorecimento de empresários em contrato para prestação de serviço da Câmara.

Em entrevista, a presidente Debora Palermo falou sobre a investigação, o fato de ser a primeira mulher a presidir a Câmara de Campinas e dos desafios de melhorar o trabalho do Legislativo. Confira.

Por que a senhora decidiu assinar a CPI para apurar um suposto esquema de cobrança de propina envolvendo o presidente licenciado da Câmara, Zé Carlos?

Eu tinha decidido assinar desde que ela foi lançada. Mas na condição de vice-presidente da Câmara ficava muito complicado porque poderia soar como se eu estivesse querendo pegar o lugar, o cargo do presidente, uma situação de oportunismo para poder exercer a presidência da Câmara.

Longe disso. Num momento difícil desses, de crise, com denúncias de suposta corrupção faltando dois meses e meio para terminar o mandato. Então, não era isso, mas preferi esperar a decisão do então presidente Zé Carlos de se afastar para poder assinar com mais tranquilidade e mais lisura.

Qual será a postura da senhora frente às investigações envolvendo o vereador Zé Carlos?

Vou conduzir com a maior transparência e facilitar todas as investigações, tanto da CPI quanto para o Ministério Público, que investigue tudo. Como o próprio presidente Zé Carlos falou, que se faça uma devassa, que seja apurado tudo e todos que estão envolvidos. No que depender de mim nessa Casa, enquanto estiver à frente desta Casa, vou conduzir com a maior transparência e tranquilidade para que todos tenham acesso a tudo o que for necessário para esclarecer essas denúncias.

A senhora acha necessário fazer uma auditoria pessoal nos contratos da Câmara?

Já estava nos meus planos verificar todos os contratos assim que assumisse. De forma alguma deixarei de fazê-lo. Devemos isso à sociedade. Como presidente, já iria e vou fazer isso, mesmo em paralelo à comissão e verificando todos os contratos. Vou ao Ministério Público conversar com os promotores. Campinas merece que seja esclarecido. É um pedido do próprio presidente Zé Carlos. Ele pediu que se abra tudo para que ele possa se defender. É uma obrigação nossa frente ao cargo que ocupamos, prestar esses esclarecimentos à população e à Justiça.

O Legislativo está cheio de desafios e como pretende qualificar a produção da Casa?

Essa foi uma das pautas que fiz na reunião no meu gabinete, com o pessoal. Tenho ficado muito incomodada com as pautas que temos tido, só nomes de rua e honrarias, numa cidade que tanto a se fazer e a produzir. O problema é que tem muitos projetos parados nas comissões. Vou conversar com o presidente das comissões e com os vereadores para que analisem esses projetos e possam trazer para a pauta da Câmara.

Como é ser a primeira mulher no cargo?

Não deixa de ser uma honra de ser a primeira mulher em 224 anos. Para nós mulheres é uma conquista importante. Nesse tempo todo de história da Câmara nenhuma mulher ter assumido esse cargo, a não ser em situações pontuais. Mas eu preferiria que fosse de outra forma. Gostaria de ter sido eleita. Eu não fui eleita presidente, mas vice-presidente. Então, não deixa de ser uma honra e uma conquista para nós mulheres, mas acho que temos que conseguir chegar por meio do voto direto, o que vai ser mais bacana.

Que desafio a senhora deve enfrentar num ambiente majoritariamente masculino, e por vezes com atitudes machistas?

Nunca tive dificuldade com isso. Sei que existe a questão do machismo, é cultural. Muitas vezes sou a única mulher num bloco de homens, mas isso não me intimida de forma nenhuma. Quero cada vez mais mostrar às mulheres que não devemos nos intimidar e que temos que encarar com tranquilidade, com a força e capacidade que temos enquanto mulher. Não devemos bobear, senão podermos ser canceladas (risos. As quatro mulheres desta Casa estão mostrando que têm muita força e competência para estar no Legislativo ou em qualquer área da sociedade.

Se houver episódios de machismo, a senhora pretende se posicionar de uma forma mais firme?

Já me posicionei nessa Casa quando teve, mas não sou muito de levantar bandeira de feminismo. Respeito o ser humano independente de gênero, da cor ou religião. Sempre quanto me deparar com qualquer tipo de discriminação, vou me posicionar contra porque acho inadmissível que isso ainda ocorra na sociedade.

A senhora pretende permanecer no cargo?

Quanto a continuar na presidência da Câmara, isso não faz parte dos meus planos.

Quais os principais desafios neste final de ano?

Vou procurar manter o ritmo e não adiar nada, não deixar nada para trás. Apesar da crise, os vereadores precisam continuar trabalhando. Precisamos continuar tocando e Campinas vendo os projetos e os trabalhos dos vereadores. A questão das emendas impositivas, tivemos a última audiência pública, estivemos conversando com o secretariado e vamos tocar na normalidade.

Pesquisa mostra que 43,6% dos entrevistados classificam a Câmara de Campinas como ruim e péssimo e 12,5% como bom e ótimo. Como a sra. vê esses dados?

Primeiro, é bom frisar que, neste ano, até o final de setembro, os vereadores produziram quase 9.000 procedimentos, entre projetos, requerimentos, moções entre outras ações, sem contar as reuniões diárias das Comissões Temáticas que avaliam as proposituras protocoladas na Casa. E em 2022, a Câmara de Campinas disponibilizou de seu orçamento R$ 4,3 milhões para a prefeitura, que pode aplicar essencialmente nas áreas da saúde e educação, sendo que se somarmos anos anteriores esses valores ultrapassam as dezenas de milhões.

Porém, a Câmara entende que há espaço para melhoria de seus trabalhos. Está em curso uma ação interna para qualificar ainda mais as discussões e projetos, que sofreram um pouco com o impacto da pandemia, quando foram suspensos todos os trabalhos presenciais, e mais recentemente com as eleições.