11 de julho de 2026
Documento OVALE

Com discursos golpistas, Bolsonaro tenta ‘sequestrar’ o 7 de setembro para uso político

Por Xandu Alves |
| Tempo de leitura: 4 min
Jair Bolsonaro no 7 de setembro

O país dividido.

Principal data cívica do país, o 7 de setembro ganha novos e mais preocupantes tons de ameaça golpista do que foi em 2021, exatamente dois séculos depois de Dom Pedro 1º gritar no Ipiranga: “Independência ou morte”.

Hoje, o grito por independência vira cacofonia entre aqueles que dizem defender a liberdade de expressão ao mesmo tempo em que pregam a ruptura institucional, o fechamento de instituições pilares da democracia e a quebra constitucional.

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A data vira teste definitivo para a democracia brasileira após novas convocações de manifestações em todo o país para defender o presidente Jair Bolsonaro (PL) e sua postura antidemocrática, de quem está mais preocupado com a reeleição do que com o país.

O candidato usa o presidente para tentar ‘sequestrar’ as cores e os símbolos nacionais em favor da sua campanha, como se fossem propriedade de si mesmo ou de seu partido.

No final de julho, durante convenção do PL no Rio de Janeiro que referendou o nome do presidente como candidato à reeleição, Bolsonaro fez um discurso e convocou seus apoiadores para o 7 de setembro.

Ele pediu às pessoas que fossem às ruas “pela última vez” e também criticou membros do Poder Judiciário.

“Convoco vocês agora, vamos às ruas no dia 7 de setembro pela última vez. Esses pouco surdos de capa preta [vestimenta dos ministros do STF] têm que entender o que é a voz do povo. Tem que entender que quem faz as leis é o Poder Legislativo e o Executivo”, disse Bolsonaro.

Para analistas políticos e historiadores, o discurso do presidente tenta ‘sequestrar’ os atos cívicos do 7 de setembro como uma defesa de seu governo e de si mesmo. Além disso, há a ameaça de conflitos violentos pelo país, haja vista o grau de polarização.

“Esse uso [do 7 de setembro] pelo atual governo é lastimável, ligado a um político ou partido. Deveria ter um sentido de reflexão e não o uso partidário, que é o que estamos vendo”, afirmou Maria Aparecida Papali, historiadora e professora da Univap (Universidade do Vale do Paraíba).

“Não sabemos o que vai acontecer, se haverá golpe ou não. É terrível o que está acontecendo hoje. É uma data para o povo, da população, não é de governo ou partido. Não é de uma determinada visão de mundo.”

LEGITIMAÇÃO

Para o historiador Carlos Fico, pesquisador e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o incentivo de Bolsonaro aos atos legitima manifestações autoritárias e antidemocráticas, que podem culminar em violência.

“O problema não são esses personagens mais caricatos das redes sociais, mas do próprio presidente. Ele tem influência muito grande e já expressou isso na ampliação da violência, no número de pessoas armadas e num certo esgarçamento das formalidades institucionais, que ele cultiva. O exemplo do Bolsonaro é deletério e já prejudicou muito as relações sociais, institucionais e tudo mais.”

Fico questiona a suposta defesa da liberdade de expressão por grupos bolsonaristas em situações de ameaça às instituições, bem diferente da crítica legítima. Ou seja, confunde-se liberdade com crime.

“Tendo a relativizar essa caricatura da figura burlesca e muito odienta das redes sociais. Com o tempo, a sociedade vai aprendo a ligar com as tentativas de manipulação, como fake news e negacionismo. O problema não é o meio, mas são os conteúdos. Quando são criminosos deveriam ser punidos”, disse o historiador a OVALE.

Emmanuel Colombié, diretor do Escritório América Latina da Repórteres sem Fronteiras, disse a OVALE que uma das ameaças são as fake news promovidas pelos bolsonaristas e pelo próprio presidente, que aumentam o clima de agitação.

“O presidente Jair Bolsonaro contribui para aumentar o número de mentiras em circulação e ataca quase diariamente a imprensa, numa tentativa de esconder sua incapacidade de resolver problemas reais”.

1964

Na avaliação da professora e pesquisadora Suzeley Kalil, que é mestre em Ciência Política e doutora em Ciências Sociais e membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional da Unesp, o Brasil vive o período mais conturbado desde 1964.

“De 2018 para cá, isso tem piorado bastante. Temos uma elite profundamente imediatista, não consegue ver além de uma semana, e isso é terrível. Vivemos o pior momento desde 1964, sem dúvida.” Segundo a pesquisadora, os poderes da República estão “ameaçados e aceitando ser tutelados pelo poder das armas. Não precisa de golpe no país”.