11 de julho de 2026
+EDUCAÇÃO

Pequenos cientistas: educação reforçada na infância resulta na formação de adultos mais preparados

Por Gabriele Maciel |
| Tempo de leitura: 5 min

Curiosidade genuína e imensa vontade de compreender o mundo ao redor é o que transforma cada criança em potencial cientista. Na infância, os muitos ‘porquês’ passam a impulsionar descobertas, e outubro se aproxima para lembrar que um caminho para manter esse ímpeto tão importante ao aprendizado e à construção do futuro é investir em educação científica: será mês de celebrar os dias da Criança (12) e da Ciência e Tecnologia (16). Em São José dos Campos, polo de pesquisas tecnológicas, e em outras cidades do Vale do Paraíba, museus e escolas têm esta consciência e oferecem iniciativas práticas que complementam conteúdos curriculares.

As iniciativas vão ao encontro, ainda, do fato de que a ONU (Organização das Nações Unidas) com a Unesco estabeleceu o período de julho deste ano a julho de 2023 como o Ano Internacional das Ciências Básicas para o Desenvolvimento Sustentável. Assim, incentiva centros de ensino e institutos de pesquisa na divulgação do papel fundamental da ciência ao progresso.

“Não temos dúvida de que a educação científica começa desde cedo e é uma questão de cidadania. Uma criança que não entende porcentagem será um adulto que não entende direito o que é inflação, como ela é calculada”, exemplifica Cláudia Linhares Sales, secretária geral da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência).

Todos os anos, a instituição promove o SBPC Vai à Escola, grande evento de ciência ao público infantojuvenil e com formação de professores dos ensinos fundamental e médio. “Se apropriar da cultura científica garante que você desenvolva suas habilidades e realize seu potencial”, complementa Cláudia. Thais Campos, mestre em Ciências pela USP (Universidade de São Paulo), reforça essa ideia.

Ela, que é professora na rede municipal de São José, montou em 2018 um Clube de Ciências na escola Professora Palmyra Santanna, da zona norte. “Percebi que mais que transmitir conhecimento precisava desenvolver habilidades nos alunos.”

Entre as atividades do grupo, incentivava a observação de fenômenos científicos e a criação de projetos práticos. “A ciência é ferramenta poderosa, por exemplo, contra fake news, pois a percepção de que as descobertas científicas são resultado do acúmulo de conhecimento e de que os resultados de uma pesquisa passam pela revisão e validação de outros especialistas permite que o senso comum seja superado pela valorização dos progressos metodológicos”, diz.

INICIATIVAS
A escola municipal Professora Dosulina de Andrade, na zona norte de São José, e o colégio Objetivo do Jardim Aquarius, zona oeste, seguem a mesma trilha, cada um com seu Clube de Astronomia. “Nós promovemos observação celeste com o telescópio, conhecimento sobre planetas e estrelas e também mostramos aos alunos como a história da humanidade está ligada às constelações”, diz Alessandra Marin, professora do projeto da rede pública.

O interesse dos alunos dessa escola é tão grande que mais de 200 deles participaram da OBA (Olimpíada Brasileira de Astronomia) em maio deste ano. Oito saíram medalhistas.

Já alunos do Moppe, colégio particular da zona oeste, participaram da Mobfog (Mostra Brasileira de Foguetes) em maio e, em agosto, de uma atividade diferente: a simulação de um Fórum Latino-Americano. Na proposta, estudantes de 8º e 9º anos assumiam o papel de representantes de países da América Latina e buscavam realizar acordos bilaterais sobre produção e integração da ciência, entre outros temas.

“Usamos várias habilidades para o consenso de qual país apresentava a proposta mais importante ao desenvolvimento sustentável”, conta Murilo Destaole, 14 anos.

MAIS AÇÕES
No projeto de extensão Show de Ciências, a USP Lorena estimula alunos de Engenharia a percorrer cidades da região demonstrando conteúdos de ciência de forma descontraída por cerca de 1h30 (o agendamento é feito pelas redes sociais @showdeciencias).

Desde 2019, ainda, o IFSP Campus São José (Instituto Federal de Educação de São Paulo) promove a mostra Com Ciência nas Escolas, com trabalhos de alunos dos ensinos fundamental, médio e técnico. Segundo a coordenação, 30 projetos de cinco escolas públicas já estão inscritos para a próxima edição, em 18 de outubro.

CONTEXTO
A pandemia de Covid-19 evidenciou que investir na ciência é essencial na superação de desafios. No Brasil, os investimentos em Ciência e Tecnologia foram reduzidos aos menores patamares desde 2014. Naquele ano, segundo dados do Portal da Transparência, foram aplicados R$ 8,6 bi em desenvolvimento científico; em 2021, R$ 1,07 bi.

Em agosto do atual ano, o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) editou a medida provisória nº 1136/22, que contingencia por cinco anos o orçamento do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia). O fundo é a maior fonte de recursos para pesquisas no país e é formado por contribuições de empresas privatizadas que precisam, por lei, investir em Ciência e Tecnologia.

“Essa medida provisória é gravíssima, porque ela contingencia os recursos até 2027, ou seja, ela mata a possibilidade do próximo governo, qualquer que seja ele, fazer investimentos necessários em ciência”, afirma Cláudia, da SBPC. Para ela, desestímulo à formação de cientistas e desprestígio do setor são consequências.

Aprendizado é divertido no Museu de Ciências
Crianças e adultos são convidados a mergulhar em conceitos de física, biologia, química e astronomia enquanto se divertem nas instalações e atividades oferecidas no Museu Interativo de Ciências, em São José. O local dispõe de mais de 50 atrações que visam despertar a curiosidade do público e aproximá-lo do mundo científico.

É possível, por exemplo, arrepiar os cabelos em uma das atrações preferidas do museu, o Gerador de Van de Graaff, além de ver de perto o trem da inércia em funcionamento.

O museu fica na rua Felício Savastano, s/n, na Vila Industrial. As visitas duram duas horas e devem ser agendadas pelo telefone (12) 3922-0004 ou por meio do site da prefeitura.