Motivados por problemas econômicos, problemas com vício à drogas e conflitos familiares, pessoas de São José dos Campos e outras cidades da região acabaram por passar a viver em situação de rua.
Em 2022, o número de pessoas sem um lugar para dormir foi maior em abril, com 159 pessoas oficialmente cadastradas no total, de acordo com o levantamento da Prefeitura de São José. No mês de junho deste ano, o número teve uma redução de 35%, registrando 102 pessoas na rua. Contudo, não é possível fazer uma comparação com 2019, já que a prefeitura não disponibiliza dados desse ano.
De acordo com José Dimas, diretor da Secretaria De Apoio Social Ao Cidadão da cidade, a presença de mais pessoas nas ruas foi mais evidente durante a pandemia devido à crise econômica provocada pela pandemia. "Intensificamos os atendimentos e a estrutura dos abrigos para melhor atender essa população", explica. Nesta semana, São José inaugurou mais dois abrigos.
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Segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a região sudeste do Brasil tinha 117.248 pessoas em situação de rua em 2019. Em março de 2022, o número foi para 124.698, um aumento de 6%.
A Casa de Assis, entidade ligada à diocese de São José dos Campos, recebe moradores em situação de rua em suas quatro unidades na cidade. Reinaldo Fernandes Leite, diretor da entidade, afirma que o número de pessoas na rua aumentou muito na pandemia. "Acreditamos que houve um aumento de pelo menos 30%. Tem muita gente na rua, pedindo doações em semáforos, por diversos motivos, principalmente pelo fator econômico", afirma Leite.
De acordo com ele, cerca de 300 marmitas são distribuídas todo o domingo pela entidade em praças. Assim como a Casa de Assis, Cleide Santos, da ONG Poder de Um, também distribui comida para quem precisa nas ruas de São José. Para ela, o aumento da população de rua na cidade é visível. "Eu diria uns 70% de aumento. Muita gente de fora vem para cá, por saber que São José é uma cidade acolhedora", explica ela.
Cleide afirma que a principal mudança nas ruas é a presença de famílias inteiras que perderam sua fonte de renda e perderam suas casas. "Tem pessoas que vão para a rua por motivos financeiros, mas acabam se viciando em drogas", finaliza.
MIGRAÇÃO
Para o secretário de Apoio Social, Antero Baraldo, o número de pessoas nas ruas de São José se manteve linear durante os dois últimos anos. Ele explica que esse número pode oscilar de acordo com as condições climáticas. "Quando o frio é muito severo, as pessoas procuram os abrigos ou saem das ruas. No verão, essas pessoas migram para cidades litorâneas", disse Baraldo.
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De acordo com o secretario, em épocas de grande movimento nos centros de compras, como no Natal, mais pessoas em situação de rua migram para São José. "O povo de São José gosta muito de doar. Por isso, acabam indo recolher mais dinheiro nas ruas", finaliza.
ACOLHIMENTO
A Prefeitura de São José realiza um trabalho de abordagem a pessoas em situação de rua com 10 equipes, que atuam 24 horas por dia, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Atualmente, a cidade possui 17 abrigos para vários públicos.
Apesar da oferta e qualidade dos abrigos da cidade, a equipe da Secretaria de Apoio Social ainda se depara com a resistência do público. "Essas pessoas, principalmente as que são viciadas em drogas, relutam para ir aos abrigos", explica o secretário Antero Baraldo.
De acordo com Cleide, a população prefere ficar nas ruas por saber que nos abrigos não poderá manter o vício e levar seus pertences. "Para eles, é difícil. Tem regras. Os agentes da prefeitura que vão para as ruas, muitas vezes têm medo dos moradores, acham que podem ser assaltados, não sabem como abordar", explica ela.
"O tratamento acaba não sendo tão humanizado, eles não conseguem criar vínculos com esses moradores de rua, então eles optam por não ir aos abrigos", completa Reinaldo, da Casa de Assis.
PERFIL
A pesquisadora Juliana Reimberg, mestranda em Ciencias Políticas da USP, explica alguns dos motivos para o aumento da população de rua, além do vício às drogas, são a perda de renda, o rompimento com o convívio familiar e a violência contra a mulher.
"Muitas pessoas foram despejadas durante a pandemia, perderam seus empregos. Também temos as pessoas que, durante a pandemia, tiveram que conviver mais com a família, o que gerou conflitos", explica ela.
Para ela, o aumento das pessoas em situação de rua demonstra não só um problema social, mas engloba falhas em uma série de políticas públicas, como saúde, educação, violência e distrubuição de renda. "O caminho para a solução do problema é pensar além da assistência, mostram onde devemos focar e melhorar", completa.
Sobre dar a 'esmola', a pesquisadora afirma que esse tipo de assistência não vai tirar as pessoas da rua, mas são medidas para essas pessoas não morerem de fome ou frio. "Essa assistência é fundamental para elas, ainda mais para quem está mais vulnerável. Contudo, ela não pode ser vista como solução dos problemas", finaliza Juliana.