O arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, defendeu a reconciliação do povo brasileiro dividido pela polarização política e disse que não há saída que não seja pela democracia.
Em homilia da missa das 9h desta quarta-feira (7), celebrando a 35ª Romaria das Trabalhadoras e dos Trabalhadores e o Grito dos Excluídos no Santuário Nacional de Aparecida, Brandes optou por uma reflexão baseada no tema da romaria, que defende a vida.
“A vida está tão ferida, machucada em nosso país. Em primeiro lugar está a vida. Deus nos conduz à vida, que precisa do pão e da fraternidade”, afirmou o arcebispo.
Comentando passagem do Evangelho, Brandes disse que a “corrupção mata a vida” e que é “uma maldição” ao país. Afirmou também que o “consumismo mata a vida” e que as pessoas querem a “pátria definitiva”, com “justiça e fraternidade”.
Sobre a celebração do 7 de Setembro, o arcebispo de Aparecida disse que a independência do Brasil “não está completa”.
“Há muita escravidão e colonizados. Precisamos continuar o processo de independência, com democracia e fraternidade. O Brasil deveria ser a pátria mais justa e fraterna do mundo”. E completou: “Somos o maior país católico no mundo e nossa fé ajuda a restaurar o que está quebrado”.
Segundo Brandes, a pátria deve ser feita com “liberdade e respeito” e olhando “para os pequeninos”. “Precisamos nos tornar cidadãos, porque somos todos irmãos. Temos que exercer a cultura do cuidado”.
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VOTO
Na parte final da homilia, Brandes falou mais diretamente sobre as eleições no Brasil e defendeu que as pessoas votem com consciência.
“Para mudar a pátria, temos que exercer o poder do voto. Não são outras coisas que vão decidir, mas o poder do voto, que é o poder do povo, isso é democracia”.
Brandes disse que “votar é também uma missão” e que o “voto tem o poder de mudar”.
“Com liberdade, devemos exercer o grande poder de mudar que está em nossas mãos, de votar, que foi conquistado com muita luta”, afirmou.
POLÊMICA
Ao contrário de anos anteriores, Brandes não entrou em polêmica com o presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores, como ocorreu em outras celebrações na Basílica.
Em outubro do ano passado, em razão da missa da Padroeira do Brasil, o arcebispo virou alvo de bolsonaristas após defender um país sem corrupção, pobreza, mentiras e armas.
No sermão da missa solene da festa, Brandes pediu para que a sociedade construa “uma pátria amada. Para ser amada, não pode ser pátria armada”. Ele também pediu uma nação sem mentiras e corrupção, além de pedir o combate à pobreza.
Após a celebração, Brandes ainda disse que “criança não precisa de fuzil, mas de outras ‘armas’, como a oração”.
Na festa de 2020, Brandes também voltou a ser alvo de apoiadores do presidente ao dizer que o povo deve “fugir da idolatria, da polarização e da violência”.
“Devemos nos despir de tudo o que é idolatria, às vezes até idolatrando pessoas autoritárias, que tomam o lugar de Jesus. Despir-se da arrogância, do armamento”, afirmou o religioso.
Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, Brandes também causou polêmica ao dizer que a direita é “violenta e injusta” e criticar o que chamou de “dragão do tradicionalismo”.
“Todo mundo sabe o que é direita, nós temos muitas pessoas que não aceitam o Vaticano, o Papa, por visão tradicionalista. São grupos muito antigos, sempre houve na Igreja a ideologia da esquerda e a ideologia da direita e nós não podemos ser ideológicos, precisamos ser pessoas da verdade. A ideologia sempre procura os próprios interesses. Já a verdade é uma pessoa: Jesus Cristo, e o seu Evangelho”, afirmou o arcebispo, na ocasião.