“Por momentos, visto de dentro da água, o oceano assume tons azuis incaracterísticos, uma catedral vazia onde o Sol ondula como um ponto na abóbada das ondas. Os raios descem como se fossem filtrados por um vitral. No momento seguinte, o oceano enche-se de atuns-rabilhos gigantes. Assumem a forma de um torpedo: o maior mede mais de quatro metros de comprimento e pesa mais de meia tonelada. Sob a luz solar refratada pelo mar, os seus flancos pálidos brilham e cintilam como escudos polidos. As suas barbatanas fixas reluzem como sabres. Movimentando-se velozmente, as caudais conduzem a formação, levando a velocidades estonteantes, num incessante ritmo staccato. Num ápice, o oceano volta a parecer vazio. Aqui e além, uma pequena galáxia de escamas assinala o local onde um atum engoliu um arenque. As escamas da vítima rodopiam com a turbulência do atum, que entretanto se afastou a alta velocidade. Por fim, os remoinhos abrandam e param. As escamas cintilam enquanto se afundam. Depois, esbatem-se e apagam-se com a profundidade.” Este texto maravilhoso pela plasticidade da descrição é do escritor Kenneth Brower, que tem se dedicado às causas ambientais. Outra admiradora do citado peixe, Barbara Block, da Universidade de Stanford, proeminente especialista em biologia, explicou em estudo sua importância econômica e cultural: “O atum-rabilho ajudou a construir a civilização ocidental”. O romancista norte-americano Ernest Hemingway também sucumbiu aos seus encantos. Chamou-o “o rei de todos os peixes”, em artigo publicado no “Toronto Star Weekly”, depois de ver cardumes ao largo de Espanha.
Regularmente capturado no Mediterrâneo, o atum faz migrações anuais, entrando pelo estreito de Gibraltar. No Bósforo, até o século XIX, havia 30 palavras diferentes para nomeá-lo. Centenas de pescadores acorriam ao local para lançar suas gaiolas que tinham nomes diversos, de acordo com o país de origem. A captura gerava muito dinheiro. Comercializado desde priscas eras, figurava nas moedas grega e céltica.
Thunnus thynnus foi o nome que lhe deram inspirados observadores de seu comportamento: atum dos atuns. Entre as oito espécies que vivem nos oceanos, é o preferido pelos japoneses que o consideram ideal para os sashimis. Em janeiro de 2013, um atum gigante foi vendido em Tóquio por 1 milhão de euros. O preço extraordinário deveu-se em parte a golpe publicitário e em parte a um ritual japonês: a licitação do primeiro atum vendido em cada lote começa num valor exorbitante, até para os padrões japoneses. Mas mesmo o valor normal de um atum de tamanho médio (entre 7 mil e 14 mil euros, consoante a qualidade) é indicador surpreendente de quanto os japoneses do século XXI valorizam o maguro, o sushi de atum-rabilho. É igualmente uma sinalização daquilo que este peixe enfrenta, tornando a sua demanda cada vez maior que a sua oferta. Dizem especialistas que no século XXII existirão apenas meia dúzia de atuns nos oceanos. Com tanta fama e consumo, eles andam correndo risco de extinção. Enquanto isso não ocorre, vamos aproveitá-los, pois dizem os nutricionistas que sua carne, mesmo quando o peixe é enlatado, é importante para o organismo humano. Cada pessoa deveria consumir pelo menos 200 gramas por semana. Fica a dica, acompanhada por uma receitinha que vai agradar pela simplicidade e sabor.
Abra a lata de atum e escorra numa peneira. Ele deve ficar bem sequinho. Enquanto isso acontece, retire o requeijão do copo e coloque numa tigela. Em outra vasilha bata os ovos- claras e gemas juntos. Ao requeijão junte a farinha de trigo (previamente misturada ao fermento) às colheradas, mexendo de cada vez. Reúna a massa aos ovos, sempre mexendo para integrar todos os ingredientes. A esta altura, o atum já deve estar livre do excesso de óleo. Acrescente-o à mistura da tigela. Estando a massa homogênea, agregue os temperos: pimenta do reino, salsa (ou cebolinha), pitada de sal. Teste para ver se está do seu gosto. Se for preciso, acerte o sal. Tirar é impossível, acrescentar é fácil. Assim, vá na base da pitada para não estragar a receita. Agora chegou a hora de fritar as doze panquequinhas. Pincele com azeite uma pequena frigideira de revestimento tefal. Leve à chama alta. Coloque duas colheres de sopa de massa de cada vez e baixe o fogo. Frite (dois a três minutos) um lado, vire, frite do outro. Vá amontoando uma panqueca sobre a outra para obter um efeito bonito. Quando todas estiverem prontas, decore com metades de tomates cereja, folhinhas de manjericão e molho de alho supersimples de ser preparado. Basta colocar no liquidificador um copo de iogurte ou de leite gelado, um dente de alho descascado, uma pitada de sal. Em seguida, é só ligar e ir pingando em fio o óleo- cerca de meia xícara de chá. Quando estiver na espessura de maionese, desligue. Coloque uma colherada de molho no topo da coluna de panquecas e sirva o restante à parte, numa molheira.
INGREDIENTES
1 copo de requeijão (pode ser o light)
4 colheres de sopa (rasas) de farinha de trigo
1 colher (chá) de fermento em pó
3 ovos
200 gramas de atum em conserva
2 colheres de salsa (ou cebolinha) picada
Sal a gosto
Pimenta do reino moída na hora
Fio de azeite para fritar
Molho de alho
1 pote de iogurte (ou de leite) bem gelado
1 dente de alho
1 pitada de sal
Óleo até dar ponto de maionese
porção: 12
dificuldade: fácil
preço: econômico