Zucchini para os italianos, courgette para os franceses, abobrinha para os brasileiros, é um legume que comparece com frequência na mesa de milhões ao redor do mundo. Nas regiões mediterrâneas é insubstituível em dezenas de pratos elaborados por chefs de restaurantes estrelados. Ao contrário do que acontece no Brasil, onde é considerada ingrediente muito plebeu. Ir a restaurante e comer abobrinha? Imagine! Tão relegada a patamares inferiores entre nós, ganhou sinonímia de algo irrelevante. Fulano de Tal? Ah, só fala abobrinha...
Cultivada o ano todo, ela é excelente fonte de fibras e contendo grande quantidade de água em sua composição, torna-se de fácil digestão. Se salva a vida da dona de casa pela praticidade com que se transforma rapidamente numa “mistura”, pode fazer a fama de um chef que nela investe seus saberes. Batidinha e refogada rapidamente no azeite com pitada de sal no cotidiano, pode se transformar em fritada se lhe juntarmos ovos; farofa, se agregarmos farinha, suflê se misturarmos bechamel. Fritas à milanesa, são antepasto irrecusável. Cozidas al dente e aciduladas com limão, ótimas saladas. Conservadas em vinagre e sal tornam-se um aperitivo sempre da hora. Misturadas aos molhos de massas longas ou curtas fazem a festa na cozinha napolitana exportada ao mundo.
Recheadas com carne moída elas resgatam a tradição árabe que se firmou ao longo dos séculos com as berinjelas. Muito antes da descoberta do Novo Mundo, onde os conquistadores espanhóis encontraram abobrinhas vicejando do sul dos Estados Unidos ao Peru, os árabes já recheavam suas berinjelas. Levadas à Europa as duas espécies mais apreciadas de abobrinhas- a Cucurbita moscato e a Cucurbita pepo, a primeira se adaptou melhor nas regiões mais quentes e claras do mar Mediterrâneo. Entre nós, de língua portuguesa, passou a ser conhecida como “abobrinha italiana”, pois sempre foram as preferidas dos imigrantes da Bota aqui chegados. Por oposição, a outra foi chamada de brasileira.
Dia desses flagrei uma cena no mínimo curiosa em varejão onde faço minhas compras. Vi uma senhora com jeito de avó explicar a uma jovem com jeito de neta a diferença “anatômica” entre duas abobrinhas. Ela exibia duas Cucurbitas para a mocinha, uma em cada mão, e explanava didaticamente: “Olhe, são dois corpos femininos diferentes. A italiana é reta, não tem curvas; a brasileira tem cintura fina e quadris largos”. Olhei para a velha senhora e não pude conter o riso, quase lhe perguntando se já havia assistido a algum filme de Sofia Loren. Mas achei interessante a analogia que serve, sim, para esclarecer quem não tem muita intimidade com as coisas da cozinha, pois, na verdade, se ambas são abobrinhas, não se habilitam para as mesmas receitas. Assim, quando a intenção for rechear, a escolhida deve ser a italiana.
Obviamente, depois de fazer a opção, observe se ela está firme, sem partes escuras, amolecidas ou machucadas. A abobrinha saudável e fresca tem a casca brilhante. Aliás, é na casca que se encontra o melhor de seus nutrientes. Então, lave bem, enxugue e raspe com a faca apenas a superfície, antes de empregá-la nos pratos escolhidos. A nossa sugestão é uma abobrinha recheada com carne moída temperada com alho, cebola, sal e pimenta, misturada ao miolo que se retirou do legume para torná-lo uma barquinha, e salpicada com mistura de pão e queijo parmesão- ambos ralados. Um fio de azeite, um tempo no forno e pronto! É servir como prato principal, a ser acompanhado de arroz branco, no inverno, ou de salada verde, no verão.
Escolha abobrinhas do mesmo tamanho para que a apresentação fique bonita. Lave, enxugue, parta ao meio no sentido do comprimento. Com a ponta de uma faquinha ou estilete faça sulcos verticais e horizontais na região do miolo, formando um xadrez. Em seguida, usando uma colher de chá, retire a polpa, com cuidado pra não perfurar a casca. Reserve. Numa frigideira larga aqueça o azeite, frite a cebola picadinha, acrescente o alho, agregue a carne moída, se possível passada duas vezes pela máquina. Mexa bem com grafo até dourar e ficar soltinha. Afaste para um lado da frigideira (viu como ela precisa ser larga?), abrindo espaço para o miolo da abobrinha. Antes de juntá-la ao preparo acrescente mais uma colher de azeite à frigideira. Quando o miolo estiver cozido, o que deve levar dois minutos, misture tudo- a carne moída que ficou de lado e o miolo. Acrescente a farinha de trigo, mexa bem, regue com meia xícara de água. Espere levantar fervura e junte as pimentas, a páprica, o sal. Passe as barquinhas pela água fervente por dois minutos. Retire e disponha-as lado a lado numa assadeira untada. Usando uma colher de sobremesa preencha o vazio com a mistura de carne. Depois passe as pontas de um garfo na superfície para eriçar o recheio. Misture numa tigelinha metade de pão ralado (ou farinha de rosca) e metade de parmesão passado no lado fino do ralo. Salpique delicadamente sobre o recheio e corra um brevíssimo fio de azeite. Leve ao forno, que já deve estar bem quente, por vinte minutos. Teste a textura das abobrinhas com um palito. Elas não podem ficar duras, muito menos moles demais. Estando no ponto, retire e sirva imediatamente.
INGREDIENTES
5 abobrinhas italianas
½ quilo de patinho moído
4 colheres de azeite
1 cebola média picada
1 dente grande de alho amassado
1 colher (café) de páprica doce
1 colher (café) de pimenta síria em flocos
1 colher (sopa) de farinha de trigo
½ xícara (chá) de água
Sal
Pimenta-do-reino
½ xícara de farinha de rosca
½ xícara de parmesão ralado
porção: 10
dificuldade: fácil
preço: econômico