08 de julho de 2026

Aletria na forma


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Prato light pode ser preparado em poucos minutos; fica gostoso e bonito

Fininho, bem amarelo, ele é encontrado sob várias marcas nos supermercados. Todas são boas. Vem em forma de pequenos ninhos, o que o torna bonito ao olhar. É bastante utilizado na culinária de origem árabe, seja na elaboração do arroz com cebolas, seja como base para um doce de amêndoas temperado com mel, duas especialidades da cozinha sírio-libanesa. Em italiano é conhecido por vermicelli e aparece comumente em caldos suculentos à base de carne ou como sopa, misturado a legumes. É o nosso conhecido cabelinho-de-anjo, cujo outro nome é aletria. Do árabe al irtia, filtrado pela Espanha andaluz e pelo Algarve português, espaços onde os mouros permaneceram durante séculos, influenciando a língua, a arquitetura, a culinária, as artes. Em nosso idioma o substantivo inspirou o maior ficcionista brasileiro, o universal Guimarães Rosa, a escrever um dos quatro intrigantes prefácios para o livro Tutameia, sob título Aletria e Hermenêutica. Nele, pela primeira vez, Rosa faz a distinção que se tornaria icônica: estória não é história. Mas é uma aletria reiventada, a do mineiro.


O cabelinho-de-anjo é enfim aquele macarrão cujo formato lembra os cabelos dos loiros anjos renascentistas pintados pelos artistas do período e por outros que os imitaram. Esta alusão sempre me remete à bela música de Álvarez Maciste que tornou popular na América Latina dos anos 70 o imortal poema do venezuelano Andrés Eloy Blanco (1897-1955):
“ Pintor nacido em mi tierra/ com el pincel extranjero/ pintor que sigues el rumbo/ de tantos pintores viejos// aunque la Virgen sea blanca/ pintame angelitos negros/ que también se van al cielo/ todos los negritos buenos// Pintor, se pintas con amor/ por qué deprecias su color/ si sabes que en el cielo/ también los quiere Dios?// Pintor de santos de alcova/ si tienes alma en el cuerpo/ por qué al pintar en tus cuadros/ te olvidaste de los negros?// Siempre que pintas iglesias/ pintas angelitos bellos/ pero nunca te acordaste/de pintar um angel negro...”


Quem disse que a denúncia não pode ser lírica?


Mas deixando de lado, ao menos por instantes, este mundo onde impera a beleza de sons, imagens e imaginação, vamos voltar ao do paladar e olfato com a receita que já faz parte dos cardápios de quem precisa se sujeitar à dieta hipocalórica mas muitas vezes sente vontade de comer massa. Esta é bem levinha e gostosa. Se quiser tentar, comece preparando o caldo de galinha. Dissolva um tablete light em um litro de água fervente e coloque o macarrão. Deixe três minutos sobre fogo alto, vá separando os fios para que não colem, escorra. Reserve. Corte em cubinhos uma cebola grande ou duas pequenas. Pique um maço de salsinha da foma mais delicada que conseguir. Numa tigela quebre três ovos e bata-os com um garfo. Junte cebola e salsa, mexa. Salgue e apimente com reserva, lembrando-se de que o macarrão foi cozido no caldo temperado. Reúna numa vasilha maior o macarrão e a mistura de ovos, misturando tudo com jeito porque os fios são bem frágeis e não devem perder a forma. Unte uma travessa refratária com margarina. Despeje o macarrão. Salpique queijo ralado e uma pitada de noz-moscada. Leve ao forno quente até dourar. Enfeite com uma pimenta dedo-de-moça da qual tenha retirado as sementes. Sirva só ou acompanhado de salada verde.

Veja os quadros abaixo: