08 de julho de 2026

Montanha Russa


| Tempo de leitura: 3 min
Receita de hoje é uma mistura de texturas e aromas

“Banana tinha seu mote registrado: de manhã é prata, meio-dia é ouro, de noite, mata.” - Ditado popular retomado por Cora Coralina (1889-1985)

Cora Coralina, doceira e poeta é o nome do livro que resultou de precioso projeto da Editora Global. Lançado em 2009, traz fotos até então inéditas da autora em sua lida diária no fogão a lenha, na Casa Velha da Ponte, Goiás Velho, onde produziu os doces com que se sustentou a vida toda, criou filhos e netos, tornou-se lendária na arte da doçaria. E, muito mais tarde, dos versos - esses, por sinal, em nenhum momento açucarados, bem ao contrário, banhados em biliosa melancolia muitas vezes. Traz também alguns dos poemas que escreveu olhando as águas do Rio Vermelho, as pessoas, as coisas, o cotidiano de sua terra natal, a antiga Villa Boa de Goyas, primeira capital do Estado. Em Velho Mercado, relembra “Capoeiras de frango/ Jacazinho de ovos/ Rapadura na palha/ Bruacas de arroz/ Farinha, feijão/ Rumas de queijo/Algum requeijão/ Cargas de gariroba/ Cargueiros de abobra/ Muxoxo e mugango/ Gamelas de pau./ Panelas de barro./ Sobressalentes: seus medicamentos.”

Entre alfenins, joanitas, bolos de todos os tipos, broinhas de muitas qualidades, laranjadas que não são líquidas, a cocada de fita, a omelete doce, a puxa dos netos, mais roscas e o prato excelente, o leitor pode se deleitar com os textos iniciais de cada receita, da lavra da própria Cora, e que sofreram apenas correções ortográficas, porque o tempo mudou, entre outras muitas coisas, assucar para açúcar.

“ Tentamos colocar ao alcance do leitor uma fresta para espiar o mundo de Cora Coralina: a batalha com os recursos escassos, o olhar revelador para as pequenas coisas, a capacidade de transformar quase tudo em prazer para o paladar, para os olhos, para a alma”, dizem os inspirados editores, também admiradores desta figura feminina singular em nossas letras e na culinária brasileira. Singular por múltiplas razões, uma delas, ter lançado aos 75 anos seu primeiro livro, Poemas dos becos de Goiás e estórias mais; a outra, ter mantido viva a tradição da culinária goiana mesmo quando morou no interior de São Paulo nos anos 40.

Parceiro dos editores, o neto de Cora Coralina, Flávio de Almeida Junior, na comovente crônica Lembranças de minha avó, com a qual participa do livro, explica que “veem-se hoje doces à venda, em Goiás, como sendo receitas de minha avó, mas em nada eles se parecem com os originais em termos de sabor, aparência e acabamento. Minha avó dizia e escrevia que se considerava muito mais doceira do que escritora. Quem conhece sua obra literária, mas não conheceu seus doces, pode imaginar o que eram esses pitéus.”

Desconheço a origem do nome desta sobremesa que resolvi replicar a partir de receita do livro. Por qual motivo montanha russa ? Se ainda fosse montanha suíça, poderíamos pensar nas naturais comparações da neve com o suspiro que cobre o creme de baunilha, que por sua vez acoberta o doce de ameixas. Mas não há dúvida de que seja prato muito antigo e da tradição do povo goiano. Reproduzo o texto: “Ferva-se uma garrafa de leite com uma fava de baunilha. Batem-se 4 gemas de ovos com 1 xícara de açúcar; misturam-se 2 colheres de Maizena; deita-se o leite sobre tudo isso bem dissolvido e volta-se novamente ao fogo para cozinhar e formar creme, que se deixa esfriar. Cozinham-se à parte 250 gramas de ameixas pretas sem caroços, com 1 copo d’água e um cálice de vinho tinto seco, cravo, canela e casca de limão. Arruma-se numa cremeira uma camada grossa de creme e outra de ameixa, sucessivamente. Cobre-se com suspiro e leva-se ao forno para secar.”

Segui à risca, ficou ótimo; todos gostaram, inclusive e principalmente o autor das imagens dessa página, o fotógrafo Dirceu Garcia.

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