28 de outubro de 2026
ATAQUE

Estudantes de medicina ofendem apoiadores de Lula e bolsistas

Por Luana Lisboa | da Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução
Prints das conversas em grupo de WhatsApp

Integrantes de um grupo de WhatsApp que reúne alunos do curso de medicina da Unisa (Universidade de Santo Amaro), em São Paulo, compartilharam ofensas a nordestinos e a colegas que votaram em Lula (PT) depois da vitória do presidente sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, no domingo (25).

A reportagem teve acesso a prints e a um vídeo com mensagens e ouviu quatro alunos que participam ou participaram do grupo, que pediram para não serem identificados por receio de represálias. Segundo eles, a maior parte das mensagens foi enviada no domingo, logo após o resultado, e a troca seguiu até esta terça (27).

O grupo foi criado por estudantes, e tinha 984 integrantes até a tarde desta terça-feira (27). De acordo com os alunos, foi inicialmente criado para cobrar a universidade sobre os resultados do Enamed, discutir o ensino e organizar os estudantes.

A reportagem procurou a Unisa por email e por WhatsApp nesta terça, mas não houve resposta até a publicação do texto.

Em comunicado enviado aos estudantes, a instituição afirma que seu estatuto, seu regimento geral e suas normas repudiam qualquer forma de preconceito, discriminação, desrespeito ou intolerância e que os alunos se comprometem a observar esses princípios ao se matricular

A universidade diz que grupos de WhatsApp criados por estudantes são ambientes privados e externos, sem vínculo com a instituição, e que ela "não possui acesso, alcance técnico ou prerrogativa legal para monitorar, administrar ou moderar o conteúdo neles veiculado".

Os alunos ouvidos afirmam que política não era assunto no grupo até o resultado da eleição. Segundo eles, integrantes passaram a enviar figurinhas de Jair Bolsonaro (PL), pai do candidato derrotado, e as ofensas começaram em seguida. Um dos alunos diz que elas partiram dos dois lados, mas que apoiadores de Flávio passaram a fazer comentários contra nordestinos, feministas e homossexuais.

Uma das alunas afirma que os ataques começaram pelo voto e depois se voltaram contra nordestinos, bolsistas e colegas que vendem lanches na faculdade.

Entre o material compartilhado está um áudio que chegou ao grupo marcado pelo WhatsApp como encaminhado com frequência. Nele, um homem xinga nordestinos, especialmente baianos, os quais chama de "baianada", e diz estar revoltado com o voto no PT.

O áudio recebeu ao menos 11 reações, entre elas emojis de risada e de aplausos. Não é possível afirmar que a voz é de um aluno da Unisa.

Em mensagem escrita, um outro participante afirmou que o PT só venceu nos lugares com maior índice de analfabetismo.

Outros integrantes associaram o voto no partido a benefícios sociais e à condição financeira dos colegas. Há referências a alunos do Prouni e ao uso de ônibus e trem para chegar à faculdade. Uma integrante disse que não compraria mais nada dos colegas que votaram em Lula, e outro afirmou querer vê-los vendendo produtos na faculdade para pagar a mensalidade.

"Só estuda gente do Prouni na Unisa porque a gente sustenta a faculdade", escreveu um integrante, em mensagem que teve cinco reações. Outro chamou de burros os colegas que votaram em Lula e disse que isso diminuiria a concorrência pela residência médica. A mensagem teve ao menos dez reações.

Algumas mensagens fazem alusão à violência. Uma integrante escreveu que esperava que os colegas fossem assaltados, e outro publicou "paulada em comunista". Uma figurinha compartilhada no grupo mostra um spray com a inscrição "mata verme" e a frase "sai petista".

No grupo, também circularam memes que associam o voto em Lula ao uso de drogas e a práticas sexuais. Em resposta a um aluno que lembrou que homofobia é crime, uma integrante ironizou a sigla LGBTQIA+. Em um dos prints, um participante chama uma interlocutora de feia e gordinha e diz que ela deveria trancar o curso.

Em uma das mensagens, que teve ao menos 15 reações, uma integrante afirmou que futuros médicos deveriam conhecer as consequências do voto e criticou, com palavrão, o presidente eleito.

Integrantes do outro lado também responderam com ofensas. Uma delas chamou uma participante de lixo e nojenta. Um dos alunos ouvidos pela Folha diz que participou da discussão enviando figurinhas e zombando do que considerou posicionamentos elitistas e xenofóbicos. Ele afirma que saiu do grupo, cansado dos comentários.

Segundo outra aluna, integrantes que fizeram os ataques passaram a se reunir em outros grupos e afirmaram que os eleitores de Lula haviam criado grupos para atacá-los. Ela nega.

Uma das alunas diz que, na segunda (26), após parte das mensagens, um colega afirmou em sala de aula que nordestinos são analfabetos. Ela descreve o clima no curso como desconfortável e afirma que os estudantes atingidos não reagem.

Uma das ouvidas afirma ter medo de sofrer retaliação verbal ou física.

Três dos alunos ouvidos afirmam ter participado da denúncia. Segundo eles, estudantes reuniram prints e uma gravação de tela com o áudio e os enviaram ao canal de denúncias da Unisa e às coordenações. A coordenação orientou os alunos a formalizar a denúncia, o que foi feito.