21 de outubro de 2026
DIVERSOS CRIMES

18 membros da gestão Bolsonaro e 6 de Lula têm ações na Justiça

Por Vinicius Sassine | da Folhapress
| Tempo de leitura: 9 min
Arquivo/Arte Agência Brasil
O ex-presidente Jair Bolsonaro e o presidente Lula

Quase quatro anos após o fim do governo, 18 integrantes do gabinete e auxiliares de Jair Bolsonaro (PL) cumprem pena, respondem a processos na Justiça ou são investigados pela polícia em razão de diversos crimes.

Levantamento feito pela reportagem mostra que a maioria deles responde a acusações sobre crimes ou irregularidades cometidos durante o período da gestão, de 2019 a 2022. O restante dos casos se refere ao envolvimento com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, com transações mais intensas em 2024 e 2025.

No terceiro governo Lula (PT), que caminha para o fim, quatro pessoas que passaram por postos-chaves em ministérios, um ex-presidente de autarquia e um presidente de estatal são suspeitos de práticas de crimes ainda em fase de investigação em processos no STF (Supremo Tribunal Federal), no STJ (Superior Tribunal de Justiça) e na Justiça Federal, como mostra o levantamento feito pela reportagem.

No caso da gestão petista, três dos seis casos dizem respeito a fatos que ocorreram durante o governo; a outra metade se refere a supostos crimes praticados antes do início do atual mandato, em 2023.

No governo Jair Bolsonaro, estão em curso ações na Justiça que investigam improbidade e danos aos cofres públicos e prática de crimes. Pela tentativa de golpe de Estado ao fim do governo, parte dos integrantes cumpre pena determinada pelo STF –o que inclui o próprio ex-presidente, dois ex-ministros da Defesa, um ex-comandante de Força e quatro generais de quatro estrelas, a mais alta patente no militarismo brasileiro.

Uma das plataformas de Flávio Bolsonaro é promover uma ampla revisão das condenações pela tentativa de golpe e aprovar uma anistia a quem, hoje, cumpre pena. Flávio afirma que, se eleito, subirá a rampa do Palácio do Planalto com o pai na posse presidencial, em 5 de janeiro.

"Nossa expectativa é que o STF examine a matéria à luz do conjunto probatório dos autos, enfrentando os elementos que demonstram a necessidade de se rever a condenação", disse o advogado Eumar Novacki, que defende o ex-ministro da Justiça Anderson Torres, que cumpre pena na Papudinha, em Brasília.

Sobre a pandemia do coronavírus, há uma ação de improbidade administrativa que tramita em sigilo na Justiça Federal em Brasília. O juiz abriu prazo para especificação de provas, e a defesa do general Eduardo Pazuello, ministro da Saúde no auge da crise de saúde pública, afirmou que não havia provas a produzir e que a ação é improcedente.

A ação de improbidade apresentada pelo MPF (Ministério Público Federal), em meados de 2021, afirma que Pazuello é responsável por um dano de R$ 122 milhões aos cofres públicos. Conforme sustenta o MPF, o então ministro deixou de adquirir vacinas para imunizar a população ainda em 2020 e optou por medicamentos sem eficácia contra a Covid-19.

"Quem trata da minha defesa é a AGU [Advocacia-Geral da União], eu não trato disso", disse o general da reserva, reeleito deputado federal pelo Rio, à reportagem. "Quem fala por mim no processo é a AGU. Essa é uma página que está mais do que na hora de virar."

Ex-ministro da Casa Civil de Lula, o senador reeleito Rui Costa (PT-BA) também é investigado por um fato relacionado à pandemia, a compra de respiradores pelo Consórcio Nordeste, liderado por Costa quando governava a Bahia. O consórcio fez um pagamento antecipado de R$ 48,7 milhões, e os equipamentos não foram entregues.

Um inquérito no STJ investiga essa compra. O consórcio tentou reaver o dinheiro na Justiça. A defesa do senador sustenta que a aquisição foi feita num contexto de emergência e diz querer celeridade na investigação.

No governo Bolsonaro, a área ambiental –por meio de atos oficiais do então presidente do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), Eduardo Fortunato Bim– flexibilizou as regras para exportação de madeira, o que levou a um contrabando de toras para o exterior, num total de 3.000 cargas, segundo investigação da PF (Polícia Federal).

Uma operação policial resultou no afastamento de Bim, e o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, passou a ser formalmente investigado. Os crimes investigados são organização criminosa, corrupção passiva, facilitação de contrabando e advocacia administrativa.

A ação penal no STF tem 21 réus, Salles e Bim entre eles. Em alegações finais enviadas ao Supremo em julho, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a absolvição de sete réus, Salles entre eles, por falta de provas. Para o restante, Gonet reforçou os indícios de crime.

A reportagem não localizou Bim e sua defesa. Em alegações finais ao STF, o ex-presidente do Ibama afirmou que a denúncia foi oferecida de forma prematura, sem o esclarecimento de pontos importantes.

"O pedido de absolvição comprova que eu não tinha feito nada de errado", disse Salles à reportagem. "E a manifestação do MPF é contraditória, acho que ninguém vai ser condenado. A interpretação dada por Bim [para os atos normativos relacionados à exportação da madeira amazônica] não foi errada."

Já na gestão petista, um dos casos mais rumorosos foi a denúncia contra Silvio Almeida, que era ministro dos Direitos Humanos, por importunação sexual. A acusação foi feita por uma colega de Esplanada, a então ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco. Depois, a PF investigou o caso, e Silvio foi denunciado ao STF pela PGR (Procuradoria-Geral da República), em março deste ano.

O ex-ministro diz ter sido alvo de intriga política, que Anielle "se perdeu num personagem" e que não cometeu crime.

Em 2025, o então ministro das Comunicações do governo Lula, Juscelino Filho, foi denunciado pela PGR por suspeita de corrupção em desvio de emendas, em atos anteriores ao exercício do cargo de ministro. Juscelino diz que é inocente, que a apresentação de denúncia não significa culpa e que isso não pode servir de instrumento para o Ministério Público "pautar o país".

Silvio e Juscelino acabaram sendo demitidos dos cargos em razão das acusações em curso.